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Mente, memória, ressonância mórfica,
arquétipos e inconsciente coletivo

Rupert Sheldrake, 1987 Trad Lygia Cabus

FONTE
Part I - Mind, Memory, and Archetype Morphic Resonance and the Collective Unconscious
Psychological Perspectives (Spring 1987)
by Rupert Sheldrake
IN [http://www.sheldrake.org/Articles&Papers/papers/morphic/morphic1_paper.html]
Acessado em 29.04.2015

 

    

 

Neste ensaio, eu vou discutir o conceito de memória coletiva como "pano de fundo", fundamento, para a compreensão da teoria junguiana do Inconsciente Coletivo. Isto porque o inconsciente coletivo somente pode fazer sentido em um sistema que inclua uma memória coletiva.

 

Isto nos coloca diante de uma ampla área de exame da natureza e do princípio da memória - não apenas no âmbito da experiência humana ou do reino animal, não restrito ao plano das coisas vivas mas, antes, um exame que precisa incluir o universo como um todo.

 

É uma perspectiva que acompanha as profundas mudanças de paradigma que têm orientado a ciência contemporânea; da visão mecanicista para uma visão holística e evolucionária do mundo ou, visão holística de um mundo em evolução.

 

Em muitas áreas do conhecimento, o cartesianismo mecanicista ainda predomina como modelo de pensamento, especialmente em medicina e biologia. Noventa por cento dos biólogos ainda são declaradamente mecanicistas e, embora a Física venha se encaminhando para além desta visão, muitas de nossas idéias sobre a realidade objetiva ainda são condicionadas pela herança mecanicista. Por estas razões, examinaremos demonstrativamente algumas das hipóteses fundamentais do mecanicismo, observando a ordem histórica em que surgiram e como hoje estão profundamente arraigadas em nosso pensamento e, por conseguinte, influenciando decisivamente nossa maneira de interpretar os mais variados fenômenos.

 

 

RAÍZES DO MECANICISMO
o misticismo neoplatônico

 

As raízes do mecanicismo que floresceu no século XVII (anos 1600) podem ser encontradas na religiosidade e na filosofia mística da antigüidade. De fato, a visão mecaniscista surgiu da síntese de duas tradições filosóficas, ambas com base num insight (entendimento intuitivo) místico de que a realidade é imutável e atemporal. A mais conhecida destas tradições provém dos pensamentos de Pitágoras e de Platão, cada um a seu modo, fascinado, pelas verdades eternas matemáticas e/ou ideais.

 

No contexto do século XVII, na cena da Europa cristã, aquelas idéias foram traduzidas em uma concepção de natureza governada por idéias atemporais, proporções, princípios ou leis que existiam na mente de Deus. Esta visão de mundo, aceita por filósofos e cientistas como Copérnico, Kepler, Descartes e Newton, foi incorporada aos fundamentos da física moderna.

 

Esta espécie de neoclassicismo científico defendia a idéia de que números, proporções, equações e princípios matemáticos seriam mais reais que os fenômenos experienciados. Ainda hoje, muitos matemáticos simpatizam com este misticismo de inspiração pitagórica. Acreditam que o mundo é a reificação ("coisificação", substancialização, materialização) de princípios matemáticos, reflexo de leis numéricas eternas.

 

É uma ideia estranha para a maioria das pessoas que identificam a realidade com os perceptíveis físicos e consideram as equações matemáticas como criações resultantes de abstrações da mente humana e, em muitos caos, possivelmente incapazes de descrever a totalidade do mundo real.

 

Todavia, tanto o pensamento pitagórico, da essência numérica, quanto a concepção platônica, da essência ideal, permanecem sendo evocados em sistemas importantes da ciência atual que admitem uma natureza determinada por leis eternas, imutáveis e onipresentes.

 

 

RAÍZES DO MATERIALISMO: O ATOMISMO

 

A Segunda visão materialista de imutabilidade que emergiu no século XVII, originou-se também de um pensamento grego ainda mais antigo, um conceito denominado de "realidade imutável".

 

O pré-socrático Parmênides teve a idéia de que somente o SER É - ou, somente o SER QUE É EXISTENTE-NO-PRESENTE de fato existe e o NÃO-SER, simplesmente não existe. Se e quando alguma coisa É-existe, tal coisa não pode deixar de ser porque a mudança implicaria uma combinação de estados ou estado intermediário entre o SER e o NÃO-SER, o que, para Parmênides, é uma situação impensável.

 

Em conseqüência, a realidade deveria ser algo homogêneo, como uma esfera imutável. Entretanto, a idéia de Parmênides falha diante de um mundo que é ostensivamente heterogêneo, instável e multiforme.

 

Parmênides argumenta que essa heterogeneidade de fenômenos na experiência é uma condição ilusória (e aqui aproxima-se buddhismo esotérico). A solução de Parmênides não foi satisfatória e assim, pensadores posteriores tentaram encontrar argumentos que validassem a teoria da uma imutabilidade real oculta sob a aparência da mutabilidade ilusória.

 

Adveio, então, a solução ATOMISTA que propõe uma realidade constituída por um incontável número de esferas imutáveis ou partículas: os átomos. Ao invés de uma grande e imutável esfera, conceberam os atomistas, miríades de esferas minúsculas e imutáveis movendo-se no vácuo (no vazio, no espaço cósmico).

 

Nestes termos, as aparências e formas volúveis e tão diferenciadas que compõem o mundo são explicadas como resultantes de movimentos, permutas, interações entre átomos. Este é insight original do materialismo: uma realidade que emerge de matéria eterna, imutável em variadas e evanescentes combinações.

 

Das acomodações entre as tradições pitagórico-platônica e materialista (atomista), emergiu, finalmente, a filosofia mecanicista do século XVII (período Renascentista) e uma concepção dualista do cosmo que perdura até hoje.

 

De um lado, átomos eternos em sua matéria incorruptível, inertes em sua essência substancial mas ainda assim, coisa, substância; no extremo oposto, a essência imutável caracterizada como não-material, uma realidade de matrizes em leis e arquétipos; idéias, e não coisas materiais em si. No interior deste dualismo uma concordância se mantém: as duas concepções acolhem uma instância de imutabilidade, associada à eternidade e descuidam do mutável e do mutante, do aspecto evolutivo do universo, que se impõe pela evidência dos fatos em observação.

 

Durante muito tempo, os físicos mantiveram uma certa resistência em aceitar a evolução em sua área porque é uma idéia que parece não se ajustar às noções de matéria imutável e leis eternas. Na física moderna, entretanto, a matéria é vista como forma de energia e a eternidade da energia toma o lugar da eternidade da matéria. É um passo significativo mas ainda não esclarece uma série de enigmas intrigantes no modo de ser da realidade.

 

 

 

A EMERGÊNCIA DO PARADIGMA EVOLUCIONÁRIO

 

Nos últimos séculos, o paradigma evolucionário vem ganhando espaço. No século XVIII, o desenvolvimento social, científico e artístico foram vistos como um processo evolucionário progressivo.

 

A Revolução Industrial reforçou este ponto de vista na Europa e na América. No começo do século XIX, já havia filosofias evolucionárias e por volta de 1840, a teoria social evolucionário marxista começava a ser difundida. Neste contexto, quando se estabeleciam teorias evolucionárias sociais e culturais, Darwin propôs sua teoria da evolução biológica que estendia a visão evolucionária à totalidade dos fenômenos da vida. Entretanto, essa visão ainda não se aplicava ao Universo.

 

Darwin e neo-darwinistas tentaram restringir a idéia da evolução da vida aos limites da Terra; evolução na Terra em Universo estático ou pior, um Universo concebido como termodinamicamente estacionário, um "fogo-morto".

 

Tudo mudou a partir de 1966, quando físicos aceitaram uma cosmologia evolucionária na qual o Universo não é considerado eterno. Ao contrário, admitindo um começo para o Universo, uma grande explosão - o Big-Bang - ocorrida há cerca de 15 bilhões de anos, admitia-se, necessariamente, uma duração, um tempo de existência.

 

Hoje, a física evolucionária, com poucas décadas de investigação, pouco sabe ainda do que pode advir como conseqüência dos estudos sugeridos pela teoria do Big-Bang. A física apenas começou a se adaptar a esta nova visão que contesta e modifica conceitos fundamentais e, em especial, a idéia das leis eternas.

 

Considerando válida a hipótese do Big-Bang, surge a questão sobre as leis eternas da natureza: onde estavam estas leis ANTES do Big-Bang? Se as leis da natureza existiam antes do Big-Bang então fica claro que tais leis não são físicas; de fato, neste caso, devem ser metafísicas e, no âmbito da metafísica, novamente se abre o espaço para a concepção das leis eternas. 

 

LEIS DA NATUREZA OU SIMPLESMENTE HÁBITOS?

 

A alternativa para as leis eternas ou mecânicas é a possibilidade do Universo ser mais como um organismo do que como uma máquina. O Big-Bang evoca os relatos míticos que se referem à germinação de um ovo cósmico: ele se auto-fecunda e cresce, em auto-geração-degeneração pois seu crescimento é uma auto-diferenciação interna, mais semelhante a um embrião gigantesco e não como a portentosa máquina imaginada pela teoria mecanicista.

 

Esta alternativa orgânica, permite pensar as leis da natureza mais parecidas com hábitos; talvez as leis da natureza sejam hábitos do Universo e talvez o Universo possua uma memória em construção.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 




 

 

 

 


 

 

 

 




 

 

 

 

 

 

Há cerca de 100 anos, o filósofo norte-americano C. S. Peirce dizia que se nós pretendemos aceitar a evolução seriamente, se aceitamos que uma parte do Universo está em evolução, então, temos de necessariamente admitir que as leis da natureza se estabelecem ou funcionam de modo semelhante ao que rege a formação dos hábitos.

Esta ideia foi se tornando comum especialmente na América; foi adotada por William James, outro notável pensador norte-americano e livremente discutida no fim do século XIX. Mais tarde, na Alemanha, Nietzsche sugeriu que a seleção natural também determina a validade das leis da natureza; talvez existissem muitas Leis da Natureza em formação mas somente as leis, ou modelos, bem sucedidos sobreviveriam; por conseguinte, o Universo conhecido evolui regido por leis que se renovam por seleção natural.

Atualmente, os biólogos inclinam-se a interpretar a regularidade dos fenômenos em termos de hábito. A mais interessante destas teorias foi elaborada pelo inglês Samuel Butler, cujas obras mais importantes sobre o tema são os livros Life and Habit (Vida e hábito, 1878) e Unconscious Memory (Memória inconsciente 1881).

Butler concebe a totalidade da vida como que envolvida e dirigida por uma memória inconsciente, inerente ao próprio fenômeno "Vida". Os hábitos, os instintos dos animais, os modos-padrão de desenvolvimento embrionário, todos estes fenômenos desenvolver-se-iam refletindo princípios básicos contidos na memória inerente à vida.

Butler propôs, ainda, que poderia existir memória inerente nos átomos, nas moléculas, nos cristais. A partir do advento desta biologia evolucionária, no começo do século XX, o pensamento mecanicista perdeu sua hegemonia entre os biólogos.

 

COMO SURGEM AS FORMAS

 

A hipótese da causação formativa, que é base do meu próprio trabalho, surgiu de investigações sobre a forma biológica, a forma dos seres vivos. Dentro da biologia, tem havido uma longa discussão sobre como entender o modo de desenvolvimento embrionário. Como crescem as plantas a partir das sementes?

 

Como se desenvolve um embrião a partir de um óvulo fertilizado? Isso é um problema para os biólogos; não é problema para as árvores e embriões que simplesmente fazem isso! São os biólogos que encontram dificuldade para explicar a causa da forma. Em física, em muitos contextos e sentidos, a causa determina o efeito.

 

Quantidade de matéria, valores das forças envolvidas no momentum de ocorrência de um fenômeno, no momentum de uma mudança de estado, são fatores (ou vetores) que determinam o fenômeno seguinte. A causa é considerada em relação ao efeito e o efeito, em relação à causa. Quando observamos o crescimento de um carvalho a partir de uma "bolota", parece não haver nenhuma forma de relação de equivalência ou proporção entre a causa e o efeito, não, ao menos, uma relação de causalidade óbvia.

 

No século XVII, a principal teoria mecanicista contentava-se em admitir sem maiores discussões que o carvalho estava contido na bolota ou seja, dentro de cada bolota existiria um carvalho em miniatura que se expandia até alcançar tamanho e forma de um carvalho completamente crescido.

 

Era uma teoria amplamente aceita e das mais firmemente instituídas, dentro do sistema mecanicista como foi concebido em seus primórdios. Porém as críticas não tardaram a surgir de reflexões inevitáveis:

 

 

1. se o carvalho crescido produz suas próprias bolotas que contêm em si outros carvalhos produtores de mais bolotas; admitindo que um carvalho contém carvalhos potenciais ad infinitum, há que se perguntar de onde, quando e como surgiu o primeiro carvalho ou a primeira bolota;

2. sendo que a forma do carvalho não é igual nem correspondente à forma da bolota, temos que da não-forma (bolota e não carvalho) advém uma forma (o nome técnico disto epigênese).

 

 

Ora, como pode a não-forma conter a forma ou da não-forma emergir a forma? Onde estavam as estruturas antes de se manifestarem na forma final de qualquer ser?

 

Platonistas e aritotélicos têm nenhum problema com esta questão. Os platônicos dizem que as formas são manifestações de arquétipos (modelos ideais, em uma realidade metafísica); se existe o carvalho é porque existe uma forma-arquetípica-carvalho e todos os carvalho são, simplesmente, reflexos do arquétipo e, desde que o arquétipo transcende espaço e tempo, não há necessidade de se estabelecer uma relação de necessária semelhança entre a forma física e a bolota de origem.

 

Os aristotélicos acreditam que cada tipo de ser tem seu próprio tipo de alma e a alma determina a forma do corpo. O corpo está dentro da alma e não a alma, dentro do corpo. A alma confere a forma do corpo e o envolve imprimindo as diretrizes do desenvolvimento físico. Uma alma de carvalho manifesta-se como um corpo, um ser físico "carvalho".

 

 

DNA É UM PROGRAMA GENÉTICO?

 

A visão mecanicista do mundo recusa o animismo em todas as suas linhas de pensamento; recusa a existência da alma ou qualquer princípio de organização não-material. Não obstante, o mecanicismo tem de elaborar ou admitir algum tipo de explicação para o pré-formacionismo.

 

No fim do século XIX, a teoria do plasma-germe, do biólogo alemão August Weismann, ofereceu uma nova interpretação para o fenômeno do pré-formacionismo. A teoria de Weismann baseia-se na hipótese dos "determinantes", fatores que seriam capazes de despertar o desenvolvimento do organismo a partir do embrião. Essa foi a idéia que precedeu a concepção atual de programação genética que, por sua vez, constitui um outro ressurgir do pré-formacionismo.

 

Ocorre que este modelo não funciona bem. O programa genético é entendido como sinônimo de DNA, a química genética. A informação genética é codificada no DNA e este código compõe o chamado "programa genético". Mas é uma transição conceitual muito súbita: da projeção do que pode ser a partir do DNA para a estrutura com que se apresenta o DNA no organismo adulto.

 

Nós sabemos o quê constitui o DNA: é uma estrutura codificada de aminoácidos que compõem proteínas. Mas existe uma grande diferença entre a estrutura codificadora de proteínas, a química constituinte do organismo e o programa de desenvolvimento total do organismo.

 

Diferença semelhante entre produzir tijolos e construir uma casa; se não houver tijolos, não haverá casa. Mas o plano, a planta, a forma da casa não está contida nos tijolos, nem nas ferragens, nas vigas ou no cimento.

 

Analogamente, o DNA somente determina, em seu código, os materiais com os quais o corpo é construído; as enzimas, a estrutura de cada proteína e assim por diante. Não há evidências de que também codifique ou determine o "desenho", a forma, a morfologia (a lógica da forma).

 

Para entender este ponto mais claramente, pense em seus braços e pernas. A forma dos braços é diferente da forma das pernas. Isto é óbvio e temos diferentes formatos, modelagens, para cada parte do corpo. Entretanto, a química é idêntica em braços e pernas.

 

O mesmo se pode dizer dos músculos, das células nervosas, das células cerebrais; e o DNA é o mesmo em todas as células de um organismo. O DNA sozinho não explica as diferenças entre membros e órgãos.

 

Alguma coisa é necessária para explicar as diferenças de forma. Na biologia mecanicista, esta é uma questão pendente, considerada como "um padrão complexo de interação químico-física que ainda não foi completamente entendido", ou seja, a teoria mecanicista não tem nenhuma explicação.

 

 

QUE SÃO CAMPOS MÓRFICOS

 

A questão do desenvolvimento biológico - da lógica do desenvolvimento dos seres vivos - a questão da morfogênese é, atualmente, uma discussão aberta, tema de muito interesse. A alternativa para a teoria mecanicista-reducionista começou a se delinear nos anos de 1920 com a idéia dos campos morfogenéticos (modeladores da forma). De acordo com a teoria, o crescimento dos organismos é modelado pela ação de "campos" onipresentes, que permeiam os seres vivos², campos que "contêm" a forma do organismo.

 

É uma idéia que se aproxima das tradições da antigüidade clássica, como o pensamento aristotélico e outras. Um carvalho se desenvolve a partir da semente (a bolota) porque a bolota está associada ao campo mórfico do carvalho, estrutura invisível organizante que norteia o desenvolvimento de todos os carvalhos; um campo modelador de carvalhos, área de influência na qual se desenvolvem os organismos-carvalhos.

 

Um ponto a favor desta teoria é a capacidade de regeneração, em maior ou menor grau, verificada em organismos. Se cortamos pequenos ramos de um carvalho, cada ramo, tratado apropriadamente, vai se desenvolver como um novo carvalho e o carvalho de origem continuará sendo um carvalho. Existe um limite, porém: se cortamos o carvalho em pedaços minúsculos, meros fragmentos, não será possível obter outra árvore. Mas a capacidade de se refazer, existe. Máquinas não fazem isso. Não têm a capacidade de se refazer em sua totalidade partir de um fragmento, de um desmembramento.

 

Remova partes de um computador e o resultado será um computador quebrado. Ele não se regenera; seus pedaços não se desenvolvem em novos computadores. Outra analogia é o magneto, o imã. Fragmentemos um imã e teremos muitos pequenos imãs dotados de campo magnético à semelhança do imã original. Um terceiro exemplo é o holograma, a estrutura hologramática: qualquer uma das partes contém as propriedades do todo. Um holograma é baseado em padrões de interferência contidos em campos magnéticos. Os campos são dotados de um propriedade reguladora e mantenedora de padrões que abarcam a totalidade de espécies de fenômenos, os mais variados. É um tema de estudo de grande interesse para biologia no que se refere ao entendimento dos campos mórficos.

 

Cada espécie de ser tem seu próprio campo e dentro de cada organismo existem campos contidos em campos³ (estrutura remissiva). Cada um de nós está associado a um campo morfológico que preside a vida do corpo em sua totalidade e que abriga subcampos; campos para braços e pernas; campos para fígado e rins; para tecidos específicos constituintes de órgãos; campos relacionados às células e às organelas, às moléculas e assim por diante. Existe uma série completa de campos contidos em campos.

 

Como síntese e conceito-chave desta hipótese eu proponho que estes campos, cuja possível existência já é amplamente aceita em biologia, tais campos, possuem uma memória em construção que advém de formas passadas, das experiências e tipos ancestrais semelhantes. Assim, o campo mórfico que rege a formação e funcionamento do fígado obedece a um padrão ancestral de fígados outros, desenvolvidos ao longo de sucessos e fracassos em um passado de evoluções; o mesmo se aplica aos carvalhos até aqui bem sucedidos em sua "proposta" de ser carvalho.

 

Através do campos, mediante um fenômeno chamado "ressonância mórfica", pela influência de semelhante sobre semelhante, se estabelece a conexão entre campos similares. Isto significa que a estrutura dos campos possui memória cumulativa constituída a partir de experiências passadas de cada espécie. É uma idéia que se aplica não somente aos seres vivos mas também às moléculas de proteína, aos cristais, átomos etc..

 

No caso dos cristais, por exemplo, a teoria poderia dizer que a forma de um cristal depende das características do seu campo mórfico correspondente. O conceito dos campos mórficos tem ampla abrangência no entendimento da realidade, no modo como as "coisas são" e pode ser aplicado tanto às formas quanto aos comportamentos. Neste ensaio eu usarei a expressão campo mórfico em relação aos fenômenos associados à morfogenética.

 

 

A MIGRAÇÃO DOS QUÍMICOS BARBUDOS

 

Quando você cristaliza um novo composto químico não existe um campo mórfico relacionado a este composto, visto que está sendo sintetizado pela primeira vez. É possível que seja muito difícil obter este cristal e sintetizá-lo implica o engendramento de um novo campo mórfico que se configura em correspondência às operações que resultam no novo composto.

 

Em uma segunda vez, ainda que a operação seja repetida em outro lugar do mundo, será beneficiada pela influência mórfica de uma ressonância gerada pela primeira cristalização. A terceira experiência será favorecida pelas influências da primeira e da segunda e assim por diante. Haverá a influência acumulada proveniente de todas as experiências anteriores. A operação tende a se tornar, a cada vez, mais fácil; e quanto mais numerosas experiências anteriores, mais facilmente o composto será obtido.

 

De fato, é exatamente isso que acontece. Os químicos que pesquisam novos compostos, em geral, encontram dificuldade na cristalização. Com o passar do tempo e das experiências repetidas, o mesmo composto, torna-se facilmente cristalizável em todo o mundo. A explicação convencional é de que fragmentos dos cristais sintetizados são transportados, de laboratório a laboratório, mediante livres e fortuitos contatos promovidos pela migração dos químicos, ou seja, pelo deslocamento dos químicos entre os laboratórios.

 

Quando não se verifica nenhuma possibilidade de ocorrência desta hipótese, quando, comprovadamente, não houve deslocamento da pessoa do químico, argumenta-se, ainda, que os fragmentos foram dispersados por correntes atmosféricas, como partículas de poeira. Talvez os químicos em migração possam transportar os fragmentos em suas barbas; talvez as partículas possam transpor quaisquer fronteiras pelas vias atmosféricas.

 

Contudo, se alguém medir a velocidade de cristalização, sob rigorosas condições de controle, em locais sigilosos e inacessíveis, em diferentes partes do mundo, ainda assim seria observada a aceleração na velocidade da cristalização. Este experimento ainda não foi feito mas o maior laboratório britânico tem empreendido o monitoramento de experiências envolvendo a velocidade das reações químicas em novos processos de sintetização; isto porque se migrações em barbas e dispersões nos ventos acontecem, estas coisas têm considerável importância para a indústria de produtos químicos.

 

 

UMA NOVA CIÊNCIA DA VIDA

 

Existe um grande número de experimentos que podem ser feitos no domínio da forma biológica e do desenvolvimento da forma. Em correspondência, os mesmos princípios podem ser aplicados às formas e padrões de comportamento. Considerando a hipótese de que alguns ratos são treinados em um novo truque em um laboratório em Santa Bárbara então, ratos de todo mundo devem ser aptos a aprender o mesmo truque mais rapidamente somente porque os ratos em Santa Bárbara sofreram a experiência anteriormente. Será um novo padrão de comportamento introduzido na memória coletiva dos ratos, no campo mórfico dos ratos ao qual outros ratos estão associados, como numa mesma sintonia, porque são ratos, porque estão em circunstâncias semelhantes, se comunicam por ressonância mórfica e assim são influenciados pela ressonância mórfica correspondente.

 

Entre um vasto número de registros arquivados de experimentos sobre a psicologia dos ratos existem consideráveis exemplos de pesquisas contemporâneas nas quais o monitoramento do processo de aprendizado, nos ratos, tem revelado um misterioso progresso. Em meu livro, Uma nova ciência da vida, eu descrevo uma série de experimentos abrangendo um período de 50 anos. O estudo foi iniciado em Harvard e teve prosseguimento na Escócia e na Austrália.

 

As experiências demonstram que a velocidade de aprendizado nos ratos aumentou, foi acelerada mais de dez vezes ao longo do período. Este é um fato notável - e não apenas uma estatística significante extraída de resultados colaterais. Este progresso na velocidade de aprendizado em situações idênticas de estímulo ocorreram naqueles três locais, geograficamente bem separados, e com todos os membros da espécie, não somente em ratos descendentes de genitores treinados.

 

Existem outros exemplos de difusão espontânea de novos hábitos entre animais, como pássaros, exemplos que fornecem alguma evidência de validade para a teoria da ressonância mórfica. O melhor relato deste tipo descreve o comportamento dos bluetits, pequeno pássaro de cabeça azul comum em toda a Grã-Bretanha. Nos anos de 1950, ainda era prática corrente na Inglaterra a entrega de leite em garrafas, pela manhã, a domicílio, "de porta em porta".

 

As tampas das garrafas eram feitas de papelão. Em certa época, começou a ocorrer um fenômeno fora da rotina: quando as pessoas iam recolher suas garrafas de leite matinal, encontravam as tampas aos pedaços e o creme, ou nata, que em geral se depositava nas tais tampas, havia desaparecido. Em pouco tempo de observação, verificou-se que o "vandalismo" era praticado pelos bluetits, que rompiam as tampas com bicadas a fim de consumir a nata. Em alguns casos, pássaros foram encontrados mortos quando, acidentalmente, caiam na garrafa, de bocal largo, e se afogavam no líquido.

 

O incidente causou um interesse considerável. O fenômeno se repetia em vários lugares da Inglaterra, distantes entre si 50 ou 100 milhas. Sempre que se verificava uma nova ocorrência do caso dos bluetits numa localidade, rapidamente a prática se disseminava entre os pássaros da mesma espécie das vizinhanças, o que era explicado como conduta de imitação. Ocorre que os bluetits são criaturas extremamente apegadas ao seu habitat original e normalmente não se deslocam além de cinco milhas. Por conseguinte, a disseminação de um comportamento abrangendo território tão extenso somente pode ser explicada em termos de manifestação de novo hábito independente de contato entre indivíduos da espécie provenientes de locais demasiado distantes entre si.

 

 

Os hábitos dos bluetits começaram a ser mapeados na Bretanha a partir de 1947, tempo durante o qual estes hábitos se mantiveram mais ou menos regulares. Os estudiosos concluíram que os pássaros, mesmo vivendo em comunidades independentes, "inventaram" aquele novo hábito em, no mínimo, 50 nichos diferentes. Além disso, com o passar do tempo, o hábito difundia-se cada vez mais rápido.

 

Em outras partes da Europa, onde garrafas de leite também eram entregues de porta em porta, verificou-se que o novo hábito também surgiu. Durante os anos de 1930, na Escandinávia e na Holanda, as garrafas também eram atacadas e o costume se espalhou entre os pássaros de forma similar. O caso dos bluetits é um exemplo de difusão de padrão comportamental que fornece elementos auxiliares na fundamentação da teoria da ressonância mórfica.

 

Existe ainda, neste caso dos pássaros, uma evidência ainda mais forte a favor da idéia da ressonância mórfica. Entre 1939 e 1940, por causa da ocupação alemã, a entrega de leite a domicílio foi sendo suspensa e por fim cessou sendo restabelecida somente em 1948. Considerando que os bluetits, em geral, vivem apenas cerca de dois ou três anos, o provável é que, em 1948, não existissem sobreviventes dos bluetits comedores de nata em portas humanas.

 

Quando a entrega de leite voltou a funcionar, o ataque às tampas recomeçou rapidamente em locais distantes entre si e, em cerca de dois anos, era, novamente, um hábito comum entre aqueles pássaros. O comportamento se disseminou ainda mais rapidamente que na primeira ocorrência do fenômeno, antes da guerra. O exemplo demonstra a difusão evolucionária de um novo hábito cuja causa não se encaixa em determinantes genéticas mas, antes, parece depender de um tipo de memória coletiva constituída, ou alimentada, por ressonância mórfica.

 

Eu sugiro que hereditariedade (herança de modos de ser) não depende apenas de DNA; este habilita o organismo a construir suas unidades químicas constitutivas, as proteínas. Proponho que a hereditariedade também está associada à influência da ressonância mórfica. A hereditariedade teria, então, dois aspectos: 1. de hereditariedade genética, que preserva a herança do controle da síntese de proteínas; 2. uma hereditariedade baseada em campos mórficos e ressonância mórfica, uma herança que provém de matriz genética, química, mas resulta das experiências passadas dos membros de uma espécie. Esta hereditariedade, "por ressonância", seria o fator determinante na organização da forma e dos modos de comportamento.

 

UMA ANALOGIA: O APARELHO DE TELEVISÃO

 

As diferenças e conexões entre estas duas formas de hereditariedade podem ser mais facilmente compreendidas se através de uma analogia com a televisão. As imagens são as formas nas quais estamos interessados. Se desconhecemos a origem ou, o "como surgem" estas formas, a explicação mais óbvia será a de que existem "pessoas pequenas" dentro do aparelho, pessoas cujas sombras, cujos espectros, é o se vê na tela.

 

As crianças, muitas vezes, pensam desta maneira. Se olhamos atrás do aparelho e, minuciosamente esquadrinharmos seu interior, constataremos que ali não há coisas nem pessoas em miniatura. Podemos ainda especular sobre uma hipótese mais sutil e conceber que tais pessoas e objetos existem em dimensões microscópicas e de fato habitam entre os componentes elétricos dos aparelho de televisão.

 

Mas se examinamos os componentes através de um potente microscópio, mais uma vez, não encontraremos nada nem ninguém que corresponda às imagens que aparecem na tela. Num esforço de sofisticação das hipóteses, propomos então que os "descendentes de Liliput" (as coisas e pessoas diminutas) que vemos na tela surgem como resultado de "interações complexas entre as partes do aparelho que constituem um processo não completamente entendido". Podemos evidenciar a validade desta teoria desconectando partes do aparelho; retirando uns poucos transistores, verifica-se que as pessoas desaparecem! Recompomos o aparelho, colocamos os transistores no lugar; eis que as imagens ressurgem. Isto poderia ser um argumento convincente de que as imagens advêm do interior do aparelho e ali são produzidas mediante as tais interações entre componentes eletrônicos.

 

Suponhamos agora que alguém sugira que as imagens de pessoas, coisas e lugares vêm de fora do aparelho e que o aparelho tão somente capta tais imagens, que estariam codificadas em vibrações invisíveis, vibrações com as quais o aparelho está sintonizado. Isto, provavelmente, soaria como uma explicação mística, ocultista.

 

Recusamos esta explicação até porque não vemos nenhum fluxo de matéria, nada penetrando ou sendo recebido pelo aparelho e podemos provar isto ligando e desligando a televisão, comparando objetivamente e constatando que nada além da eletricidade foi suprimido e ainda assim nada é visto fluindo ou cessando de fluir para dentro da "caixa". Esta é a posição da biologia moderna, tentando explicar todas as coisas em termos de "o que acontece dentro". A maior parte das explicações para a forma atentam somente para os aspectos endógenos dos organismos. Vimos que a mais enganosa das explicações pode ser "provada" porém, o fato é que os aspectos mais sutis e complexos têm escapado às investigações.

 

Eu sugiro que formas e padrões de comportamento estão, neste momento, sendo regulados por sintonia com conexões invisíveis e que transcendem os limites do organismo. O desenvolvimento da forma é o resultado da interação entre o organismo e os campos mórficos com os quais este organismo É e ESTÁ sintonizado. As mutações genéticas podem afetar este desenvolvimento. Voltemos, então, à analogia com aparelho de TV. Se mudamos um transistor ou um condensador podemos distorcer imagens e sons; mas isto não prova que as imagens e sons são programados por aqueles componentes. Analogamente, não está provado que forma e comportamento são programados pelos genes, ainda que encontremos alterações de forma e comportamento como resultado de mutações genéticas.

 

 

Existe um tipo de mutação particularmente interessante. Imaginemos uma alteração no circuito de sintonia de um aparelho de televisão; uma alteração que provoca distorções na de recepção da ressonância (freqüência de onda) de transmissão. A sintonia de canais de televisão depende do fenômeno da ressonância; o sintonizador é regulado para captar ressonâncias de freqüência igual à do sinal transmitido por diferentes estações de transmissão. A medida de freqüência das mensagens de televisão é o hertz. Imaginemos, então, uma tal alteração no sistema receptor que, selecionando um canal, o aparelho exibe imagens de outro canal, ou imagens misturadas.

 

Podemos descobrir que um simples condensador ou registor está danificado mas isto não nos autoriza a concluir que os programas trocados eram produzidos no âmbito da unidade física que é o componente alterado. Analogamente, alterações de forma e comportamento não são necessariamente decorrentes de mutações no DNA.

 

A suposição atual é de que alterações morfológicas e comportamentais, de certo tipo, são resultado de mutações determinadas, programadas e controladas por genes alterados. A analogia da TV serve para lembrar que esta não é a única resposta possível. É preciso considerar a hipótese de alteração ou característica alterada em algum tipo de "sistema de sintonia".

 

 

UMA NOVA TEORIA DA EVOLUÇÃO

 

Grande parte dos trabalhos em curso na pesquisa biológica contemporânea são dedicados à "sintonia das mutações" (formalmente chamada homoeotic mutations). O animal mais utilizado nas investigações é a Drosophila (drosófila), a mosca das frutas. Esta espécie apresenta uma série de mutações que se traduzem em monstruosidades. Uma destas anomalias é a antenopédia, degeneração de antenas em pernas.

 

A desafortunada mosca afetada, portadora de um único gene alterado, sofre o crescimento de pernas na cabeça em apêndices que deveriam ser suas antenas. Outra mutação, ao contrário, converte em antenas o segundo, dos três pares de pernas da Drosophila. Normalmente, as moscas têm apenas um par de asas e o segmento de corpo atrás das asas é dotado de pequenos órgãos, os halteres, que servem para a manutenção do equilíbrio em movimento de vôo.

 

Um terceiro tipo de mutação, na Drosophila, altera aquele segmento onde deveriam se desenvolver os halteres, e no lugar desta configuração, duplica o segmento anterior de modo que tal mosca possui quatro asas, dois pares, portanto, ao invés de um. Os indivíduos-mosca portadores desta mutação são chamados mutantes bitorax (bithorax mutants). Todas estas mutações dependem de um único gene. Eu proponho que esta alteração em um único gene produz diferenças de sintonia de uma parte do tecido embrionário. O resultado é que o organismo passa a receber influência de um campo mórfico diferente daquele que normalmente atua no desenvolvimento de determinado órgão provocando o crescimento de estruturas anômalas, "estranhas ao canal", exatamente como a sintonia desregulada de um aparelho de TV.

 

As analogias permitem entrever como genética e ressonância mórfica contribuem, ambos os fenômenos, na transmissão de características, na herança de um espécie, na função da hereditariedade. Naturalmente, uma nova teoria da hereditariedade reclama uma nova teoria da evolução. Atualmente, a teoria evolucionária baseia-se na suposição de que toda hereditariedade é genética.

 

A sociobiologia e o neo-darwinismo, em todas as suas vertentes, fundamentam-se na idéia da seleção dos genes, sua freqüência e assim por diante. A teoria da ressonância mórfica orienta-se por uma visão mais abrangente e admite propor algo que ainda soa como heresia para a biologia mais conservadora; trata-se da herança de características adquiridas pela experiência. Comportamento aprendidos e formas que são desenvolvidas pelos indivíduos de uma espécie. Comportamentos e formas que não são transmitidos como uma herança orgânica mas, antes, uma herança transmitida por ressonância mórfica.

 

 

UM NOVO CONCEITO DE MEMÓRIA

 

Quando consideramos a memória sob a perspectiva da hipótese da ressonância mórfica, chega-se a concepções diferentes das tradicionais. A chave do conceito de ressonância mórfica é "semelhante exerce influência sobre semelhante" em uma relação que transcende fronteiras de espaço e tempo. A intensidade de uma influência depende do grau de similaridade. A maior parte dos organismos é mais semelhantes às suas formas passadas do que semelhantes a outros organismos. São mais semelhantes às formas de sua espécie e mais semelhantes a si mesmas no período já transcorrido de sua existência.

 

Eu me assemelho mais a mim mesmo há cinco minutos atrás do que me pareço com qualquer outra pessoa neste momento. O mesmo vale para qualquer organismo. Esta "auto-ressonância" dos estados passados por um certo organismo no "reino da forma" funcionam como um mecanismo estabilizador da sintonia com os campos morfogenéticos (ou morfogênicos) que orientam a forma em si bem como os fluxos das substâncias nas células etc.. Os padrões de comportamento também são regulados pela influência dos campos de ressonância mórfica.

 

Se eu começo a andar de bicicleta, por exemplo, o padrão de atividade do meu sistema nervoso, dos meus músculos, em resposta à interação entre corpo, movimento e condições particulares de equilíbrio na bicicleta, imediatamente colocam todo o meu ser psicomotor em sintonia com todas as ocasiões passadas em que andei de bicicleta, evocando um padrão de atividade eficiente.

 

A destreza imediata com que domino equilíbrio e movimento advém da ressonância mórfica estabelecida por experiências cumulativas de saber. Não é uma memória verbal ou intelectual; é a memória do corpo que retém a habilidade aprendida de lidar com a bicicleta. O mesmo pode ser aplicado à minha memória em relação a eventos, experiências subjetivas, etc.. O que fiz ontem em Los Angeles ou no ano passado, na Inglaterra; quando penso neste ou naquele evento estou sintonizando minha mente com os momentos passados nos quais ocorreram aqueles eventos. Ocorre, então, uma conexão direta que desencadeia o processo de sintonização. Se a hipótese for correta, precisamos começar a admitir a possibilidade real de que a memória não esteja, necessariamente, "alojada" no cérebro.

 

 

O MISTÉRIO DA MENTE

 

Todos nós estamos familiarizados com a idéia de que a memória está contida no cérebro e, não raro, usamos a palavra cérebro como sinônimo para "mente" e "memória". Eu estou sugerindo que o cérebro assemelha-se, em algum aspecto de suas funções, a um sistema de sintonia e que a memória não consiste em um dispositivo orgânico localizado onde seriam armazenadas as informações. O principal argumento a favor da localização da memória no cérebro é o fato de que certas lesões na massa encefálica produzem perda de memória.

 

Se o cérebro é danificado, em um acidente de carro, por exemplo, e a vítima perde a memória, então, a suposição óbvia é de que o tecido responsável pela memória foi destruído. Porém, esta conclusão logo se mostra enganosa.

 

Consideremos, novamente, a analogia da TV. Se o aparelho é danificado de modo que não mais exibe perfeitamente certos canais, ou não exibe nenhum canal; ou se a TV fica muda pela destruição dos componentes relacionados à reprodução do som, isto não prova que os sons e a imagens estavam alojados dentro da máquina. Isto apenas demonstra que o sistema de sintonia ou o sistema de áudio, foram, de alguma maneira, danificados. O mesmo se aplica à perda de memória decorrente de danos ocorridos no cérebro: esta perda de memória não prova que as lembranças estão contidas no cérebro. De fato, em muitos casos, a perda de memória é temporária, como a amnésia por concussão.

 

A recuperação da memória é muito difícil de explicar nos termos das teorias convencionais; se a memória é destruída junto com os tecidos que a contém; se é destruída porque é um registro em "suporte" orgânico, então, não haveria possibilidade de recuperação Entretanto, isso ocorre freqüentemente. Outro argumento pelo qual se presume a localização da memória no cérebro é sugerido pelos experimentos de estimulação elétrica empreendidos por Wilder Penfield e outros. Penfield estimulava o lobo temporal de pacientes epilépticos e descobriu que alguns daqueles estímulos podiam extrair vívidas respostas que os pacientes interpretavam como lembranças de coisas que teriam feito no passado.

 

Penfield concluiu que os estímulos despertavam, na memória, lembranças que estavam alojadas no córtex. Recorrendo ainda à analogia da TV, se uma interferência (estímulo) no sistema de sintonia do aparelho, produz uma mudança de canal, isto não prova que a informação, o programa, estava armazenado dentro do circuito de sintonia. Em seu último livro, O mistério da mente (The mistery of the mind), o próprio Penfield abandonou a idéia dos experimentos como prova de que as lembranças residem no interior do cérebro. Ele concluiu que, de alguma forma, a memória não está localizada no córtex.

 

 

Muitas experiências têm sido realizadas a fim de localizar indícios da memória no cérebro. É bastante conhecido trabalho do neurofisiologista Karl Lashley. Ele treinou ratos no aprendizado de certos truques. Depois, remoeu partes de seus cérebros para determinar se os ratos ainda retinham a capacidade de realizar os truques. Supreendentemente, mesmo removendo mais de 50% do cérebro, nenhuma alteração foi perda de habilidade nos saberes aprendidos foi verificada. Mesmo removendo todo o cérebro dos ratos, ainda assim, por curto período, os animais realizaram tarefas.

 

Evidenciou-se que a remoção de enorme parte do cérebro não afetava a memória. Resultados semelhantes foram obtidos por outros pesquisadores com invertebrados, como octopus. São experiências pioneiras; as primeiras a sugerir que a memória pode estar em todo lugar e em parte alguma; e não localizada em uma circunstância ou suporte orgânico.

 

Lashley concluiu que a memória é uma faculdade que se encontra distribuída por todo o cérebro uma vez que sua experiência não encontrou indícios de memória nenhuma área específica, como era proposto pelas especulações da teoria clássica. Karl Pribam, discípulo de Lashley, desenvolveu a idéia do mestre e concebeu a teoria da memória em registro holográfico; a memória seria como uma imagem holográfica, um padrão de interferência presente na totalidade do cérebro.

 

O que Lashley e Pribam parecem não ter considerado é a possibilidade de que, de forma alguma, a memória esteja alojada no cérebro. É uma idéia mais consistente em confronto com a análise detalhada, em relação às conclusões superficiais das teorias tradicionais ou da teoria holográfica. Muitas das dificuldades que apresentam quando tentamos localizar a memória no cérebro deve-se ao fato de que o cérebro é muito mais dinâmico do que se acreditava. A química nas sinapses, nas estruturas nervosas e moleculares das células estão sempre mudando, se renovando o tempo todo. Por isso torna-se mais difícil perceber como as lembranças são evocadas.

 

Existe também um problema de lógica sobre a teoria da memória armazenada, problema que tem sido apontado por vários filósofos. As teorias convencionais concebem memória como informações codificadas em um sistema instalado no cérebro. Quando alguma lembrança é solicitada, um mecanismo de recuperação seria ativado; tal mecanismo seria capaz de reconhecer a lembrança que está sendo procurada. Isso implica a existência de uma "memória da memória" numa seqüência de "lembradores" que vai ao infinito. Muitos filósofos, então, argumentam que este é golpe fatal em todas as teorias que admitem lembranças armazenadas no cérebro. Entretanto, os teóricos da memória não estão interessados no que pensam os filósofos embora não consigam responder àquele argumento, que, para mim, é um argumento de valor.

 

Considerando "memória" sob a ótica da ressonância mórfica, eu posso perguntar: se nós somos capazes de sintonizar nossas próprias lembranças então por quê não poderíamos "entrar em sintonia" com as lembranças das outras pessoas? Eu creio que fazemos isso e que este é um princípio fundamental em uma teoria que admite a existência de uma memória coletiva com a qual todos nós estamos "sintonizados" e que constitui uma dimensão de referência em relação ao desenvolvimento de nossas próprias experiências e em relação ao desenvolvimento de nossas memórias individuais. Esta concepção e muito semelhante à idéia do inconsciente coletivo.

 

 

Jung pensou o inconsciente coletivo como uma memória coletiva, memória coletiva da humanidade. Ele acreditava que, naturalmente, as pessoas deveriam estar ligadas (conectadas) aos membros de sua espécie, raça, grupo sociocultural mas que, todavia, deveria haver uma "ressonância de fundo" abarcando toda a humanidade, um patrimônio comum de experiências, como comportamento maternal e vários padrões e estruturas sociais e de pensamento; uma memória não-individual mas, antes, um acervo de formas básicas e aplicáveis em diferentes contextos: os arquétipos. A noção junguiana de inconsciente coletivo se encaixa muito bem na teoria que eu estou desenvolvendo.

 

A teoria da ressonância mórfica pode conduzir a uma reafirmação radical do conceito de inconsciente coletivo. Essa reafirmação é necessária porque o atual paradigma mecanicista, que ainda predomina em biologia convencional, recusa a existência de algo como o inconsciente coletivo; o conceito de uma memória coletiva de raça ou espécie tem sido excluído das conjecturas teóricas, que não admitem herança de características adquiridas pela experiência.

 

Por exemplo, a mitologia de uma tribo africana não pode influenciar ou aparecer nos sonhos de um suíço ou de qualquer um que não seja afro-descendente. Jung contesta e acredita que esse tipo de coisa pode acontecer - o que é impossível para o ponto de vista convencional porque a ciência objetiva jamais considerou seriamente a validade da teoria do inconsciente coletivo.

 

É uma teoria encarada como inconsistente, cujo valor é tão somente poético, como uma metáfora sem relevância, inapropriada ao pensamento científico e sem possibilidade de comprovação diante dos padrões vigentes de investigação em biologia. A hipótese que eu proponho é similar à idéia do inconsciente coletivo, segundo Jung. A principal diferença é que Jung concebe o inconsciente coletivo como algo próprio da espécie humana. Eu acredito que um princípio similar opera na totalidade do Universo e não apenas no âmbito da experiência humana. Se minha hipótese da ressonância mórfica mostrar-se correta, então, a idéia junguiana de inconsciente coletivo terá de ser reconsiderada nos meios acadêmicos e os campos morfogênicos bem como o inconsciente e memória coletivos podem desencadear uma completa mudança nas pesquisas contemporâneas da psicologia.

 

    

 

1 Aqui Sheldrake simplifica o pensamento platônico e seria mais justo explicar que o platônico via a bolota como âncora receptora, germe potencial de ser no mundo material, da manifestação da idéia-carvalho. Toda idéia, tendo seu correspondente num mundo de coisas finitas que existem a partir de um começo e chegam a um fim, teriam sua evolução ou desenvolvimento orientado pelo modelo ideal ao qual estão ligadas pelas sua âncora material, seu corpo, desde o nascimento até a sua morte ou dissolução. A evolução de bolota é carvalho seria orientada pelo modelo ideal e por isso não havia surpresa nem milagre ou absurdo entre as diferenças óbvias de forma entre a semente e o ser adulto. (N. do T.)

2 Sheldrake diz "dentro e em volta" o que equivale à idéia de permear, capacidade de uma "coisa", substância ou energia ser contínua no espaço atravessando corpos mais densos em sua presença ou trajetória. ( N. do T.)

3 Estrutura remissiva. (N. do T.)

 


      

 

edições: Sofä da Sala
JULHO 2007

TRADUÇÃO ORIGINAL:  Lygia Cabus

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