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arqueologia, história,  mistérios, mitologia, mundos perdidos

12/04/2007

300 de Esparta
UMA PÁGINA DA HISTORIA DA GRÉCIA

por Ernesto Ribeiro

 

 

 

 

Depois que todo mundo foi conferir a magnífica atuação de nosso astro Rodrigo Santoro em Hollywood interpretando o deus-imperador persa Xerxes, é hora de separar os fatos da fantasia.

 

E 300 é assumidamente um filme fantástico (e fantasioso), em todos os sentidos. Baseado na versão dos quadrinhos de Frank Miller, a intenção é mesmo ser apenas uma perfeita obra de arte e técnica visual, com os gregos como heróis bons e os persas como os vilões maus. Que o diga o próprio ator brasileiro Rodrigo Santoro:

 

Toda a extensa pesquisa histórica que fiz sobre o personagem foi desnecessária. Eles me pediram para interpretar um tipo absolutamente fictício, sem nenhuma conexão com o Xerxes real.

 

Para quem conhece a verdadeira História, tudo bem. Pra quem não conhece, é bom se informar melhor para não se deixar enganar pela estória dos 300 soldados espartanos que resistiram romanticamente ao avanço do maior exército do mundo "em nome da liberdade, contra a opressão". Com vocês, os equívocos sobre Os 300 de Esparta.
 

 

 

 

 

 

E OS 700 DE TÉSPIAS?

Pouca gente lembra esse fato desconcertante: os heróis que se sacrificaram no desfiladeiro das Termópilas NÃO ERAM 300 – FORAM MIL. E os espartanos eram minoria. Até Frank Miller se lembrou desse "pequeno detalhe", mesmo que distorcesse os números e tudo o mais. Antes de caírem os espartanos, o traidor Efialtes aponta: "Há apenas uns poucos téspios. Cheguem lá e eles vão fugir assustados." Na verdade, seria até contraditório que fugissem. Eles já sabiam que iam morrer. Tanto que até fizeram questão de permanecer ao lado de Leônidas até o fim.

Téspias ficava bem no início da rota grega do avanço persa. Portanto, eles tinham muito mais razões para lutar desde o começo. Diferente de Esparta, situada mais no interior, e que poderia adiar a resistência (como de fato adiou). Mais: Téspias era uma cidade-Estado tão pequena que naquela única batalha perdeu todos os seus 700 soldados. Foi o maior e mais heróico dos sacrifícios. Esses sim é que deviam ser louvados em poemas homéricos. Uma narrativa que honre os fatos do que realmente aconteceu naquele dia nas Termópilas devia se chamar Os 700 de Téspias – e uns 300 Neuróticos com Fome de Glória.




NÓS ESTAMOS LUTANDO PELO QUÊ MESMO?

Nem liberdade, nem direitos, nem lógica, nem razão. O regime espartano era o extremo de uma sociedade tão bizarra e desumana que parece mesmo mitológica, de tão monstruosa. A comparação mais próxima que se possa fazer do regime espartano seria o nazismo.

Numa cena em que os espartanos encontram soldados de outras terras gregas, Leônidas se gaba de serem seus homens os únicos guerreiros profissionais, enquanto os outros são meros trabalhadores. É uma passagem esclarecedora pelo que não diz: se os espartanos só guerreavam e nunca trabalhavam, quem eram os provedores dos seus bens e serviços?

 

Resposta óbvia: os escravos. Não apenas uma classe social, mas um povo inteiro. Pois era a dominação de outros povos gregos que distinguia os dórios, especialmente os da Lacedemônia: os dórios eram os grandes parasitas da Grécia. E os espartanos foram os maiores escravistas. Diziam-se "descendentes de Hércules" para ter algum direito sobre as terras. No caso, pela ocupação da terra maior, mais rica e mais populosa Messênia.

Os messênios escravizados eram os hilotas. No entanto, há indícios de que só alguns espartanos se beneficiaram de verdade com as vitórias, virando senhores do grosso das novas terras, enquanto outros empobreciam. Em outras palavras: tensão social – que veio acompanhada por problemas militares para conter as constantes rebeliões.

 

Eles sabiam o quanto eram odiados. O resultado foi o clima de paranóia permanente, com o medo de uma rebelião de escravos mais furiosa que os exterminasse. A solução para esse impasse foi dada pelo revolucionário estadista Licurgo, "o Pai do Totalitarismo": um sistema social que elevou o militarismo até o limite da obsessão.

 

Por mais de 400 anos, a cidade-Estado de Esparta foi a primeira ditadura totalitária da História, num regime de terror onde o Estado controlava cada aspecto da vida pessoal de seus cidadãos. Do berço à cova, ninguém tinha qualquer liberdade de escolha, sob nenhum sentido.

 

Todos eram basicamente iguais (homooi) com uma vida nua e vazia de prazer ou espiritualidade. Como num regime comunista, o Estado escravista espartano os mantinha sem nenhuma diferenciação, em casas iguais, com os mesmos objetos, roupas, móveis, etc. O prato principal costumava ser a intragável sopa negra, feita com cevada, sangue e carne de porco. O Estado mexeu até na linguagem.

 

Aprendiam a falar só o essencial – daí a expressão "laconismo", derivada da Lacônia, o vale fértil onde Esparta foi fundada. "Seria mais fácil ouvir as vozes de estátuas de pedra do que as daqueles rapazes", afirma Xenofonte. Mas o fator principal é que, ao reduzir o vocabulário, também se reduz o limite do pensamento. Esse princípio totalitário foi demonstrado por George Orwell em 1984 com o conceito da Novilíngua: o único idioma do mundo que a cada ano fica menor.

 

 

 

TREINAMENTO DOS GUERREIROS

 

 


Licurgo, legislador de Esparta.
Merry-Joseph Blondel, (1781-1852). Foto:Maicar Förleg - GML

 

Para manter as conquistas e o sistema político, todo cidadão de Esparta passou a ser preparado desde pequeno para ser um supersoldado. O treinamento era conhecido simplesmente como agogué ("criação").

 

Os testes começavam no nascimento: os bebês eram lavados com vinho e levados aos anciãos de seu clã para inspeção. Os disformes ou fracos demais eram abandonados para morrer. (Até aí, nada de novo: todos os gregos praticavam o infanticídio em situações parecidas.)

 

Os meninos ficavam até os 7 anos com a mãe. O que ocorria a partir de então era o mais escabroso experimento de engenharia social de que se tem conhecimento na História humana.

 

 

O totalitarismo espartano superou seus tardios sucessores nazistas, comunistas e islamistas, por ser o único sistema a criar toda uma classe social de marginais psicopatas, ladrões e assassinos: os próprios filhos da elite espartana. Aos 7 anos, os moleques eram arrancados de suas mães e atirados nas ruas, jogados à própria sorte para se virarem como pudessem e ficar mais espertos, aguçando ao máximo o instinto de sobrevivência – e a crueldade.

 

Deviam roubar para comer, e se fossem pegos, a multidão deveria espancá-los (talvez até a morte). Não por terem roubado, mas por se deixarem apanhar. Levavam surras por nada, para se acostumarem à dor sem reclamar. E quem chorasse ficava desmoralizado pelo resto da vida. Com uma existência nesse inferno, não admira que o maior desejo deles fosse morrer. Mas o pior vinha depois.

Essa parte, nem Frank Miller quis contar. Se aparecesse no gibi ou no filme, ninguém ia torcer por esses "mocinhos". Aos 11 anos, os rapazes espartanos entravam no serviço militar como membros da Kryptia, o grupo de extermínio estatal destinado à repressão e terror sobre os escravos.

 

Sempre que algum hilota se destacasse dos demais como o melhor em alguma coisa (e pudesse ser visto como um líder) a Kryptia o marcava para morrer; e à noite, os adolescentes o assassinavam durante o sono, deixando o cadáver para servir de exemplo aos outros escravos. O mais próximo paralelo da Kryptia seriam uma mistura da Juventude Hitlerista com as SS nazistas; ou uma versão adolescente dos esquadrões comunistas de extermínio de classes sociais inteiras, como a VETCHEKA de Lenin, que se tornou a NKVD de Stalin.

 

Mas a comparação mais adequada seriam os Guardas Vermelhos de Mao na China, que matavam qualquer cidadão "ocidentalizado" ou que criticasse o ditador; e de Pol Pot no Camboja, que exterminaram um quarto da população do país. Você torceria para "heróis" como esses?

 


 

Pederastas

 

Nos quadrinhos e no filme, o rei de Esparta Leônidas diz ao mensageiro persa: "Soube que Atenas já recusou seu pedido. E não podemos ficar atrás daqueles... filósofos pederastas."

 

Dá pra notar o desconforto visível do ator Gerard Butler ao dizer esta fala. Ele já sabia que a verdadeira história não era bem assim mesmo.

Se Frank Miller não fosse tão ignorante e tivesse estudado só um pouquinho antes de escrever sobre o assunto, ele ficaria surpreso em saber que os espartanos eram os maiores pederastas da Grécia. Ficaram até famosos por isso.

 

Foi justamente a educação militarista dórica que exacerbou a prática da pederastia na sociedade grega. Como os meninos espartanos eram afastados das famílias e jogados nas ruas aos 7 anos, acontecia de às vezes serem abrigados (e sexualmente abusados) por homens muito mais velhos.

 

A reação da sociedade era fazer vistas grossas. Se eles realmente condenassem a pederastia, a própria noção de moral já levaria as vítimas ao extremo da neurose sexual, com gerações inteiras de jovens traumatizados e revoltados. O jeito era aceitar aquilo como uma verdade da vida e tocar adiante, para não atrapalhar o desempenho militar.

 

 


Leónidas nas Termópilas, por Jacques-Louis David

(óleo sobre tela,  1814.  Museu do Louvre, Paris).

 

 

Na adolescência, a vida no quartel tornava isso inevitável: os rapazes, efebos, eram ensinados a admirar o próprio corpo e os de seus coleguinhas para o culto à perfeição física. O resultado disso foi a sexualidade homoerótica típica dos gregos da época. Isso chegou a transbordar para a mitologia, com deuses e heróis dando suas escapadinhas com os companheiros de luta. Sem contar as inúmeras estátuas de homens nus ressaltando cada detalhe dos músculos e genitais. Imagine as horas de trabalho dos escultores diante de seus modelos nus em pêlo.

 

As milhares de peças mutiladas que chegaram aos nossos dias são apenas uma fração do que foi produzido naquela época. Obviamente, os bárbaros invasores que depredaram as estátuas na Grécia não apreciavam o valor artístico de toda aquela viadagem.

 

No filme, sutilmente fez-se uma pequena justiça aos fatos: na cena da batalha final, com os espartanos massacrados pelos persas já agonizando, dois soldados moribundos se dão as mãos. Um deles diz ao rei Leônidas: "É uma honra morrer com você." E o general aperta-lhe a mão, respondendo: "E foi uma honra viver com você."

 

Mas a grande ironia é que Atenas não devia nada a ninguém. Na vida real, Leônidas jamais diria aquela alfinetada porque teria que engolir tudo o que falou. Antes de fundar a Filosofia como a conhecemos, o ateniense Sócrates foi um militar experimentado, com duas medalhas conquistadas no campo de batalha, lutando na guerra em Salamina e provando seu valor, tendo despachado dezenas de soldados inimigos pro inferno. Como você pode ver, até filósofos pederastas podem fazer um tremendo estrago nas linhas inimigas.

 

 

 

OS PERSAS

 

Antes de serem conquistadores, Ciro, Dario e Xerxes (governantes persas) entraram para a História como excelentes administradores. Tinham mesmo que ser, pois não era fácil manter funcionando um império vastíssimo, com mais de cem culturas e nacionalidades e um Estado gigantesco. Xerxes especialmente; o imperador-deus modernizou a ciência da Economia, aumentou a eficiência do aparato estatal, aperfeiçoando o funcionalismo público; e foi um mestre na arte da diplomacia.

 

De fato, os grandes avanços do Império só foram possíveis graças ao seu tato e finesse na política. Sua política externa, bem apontada no filme, era baseada na diplomacia e entendimento. Ele chega mesmo a fazer uma proposta irrecusável ao rei Leônidas no encontro final, só para evitar um banho de sangue. E tê-lo como aliado para facilitar o avanço sobre a Europa.

Muitos povos se anexaram ao comando de Xerxes por suborno, cooptação política, interesse próprio, oportunismo ou até pela convicção sincera de que seria melhor prosperar em paz como cidadãos persas do que em guerra permanente uns com os outros. Para muitos, deixar a aristocracia da Grécia queimar seria a melhor saída para o fim da perversão e da imoralidade grega.

 

Muitos gregos apoiaram Xerxes por isso, e várias cidades gregas da Ásia Menor se recusaram a guerrear, já conhecendo a fama da Pérsia de ser a maior civilização da época. Até políticos e religiosos da elite espartana preferiram a neutralidade. Daí o desespero de Leônidas em sua ação solitária.

E, de fato, ele caiu morto pela ação de um traidor. Mas não só Efialtes se juntou aos persas. Heródoto diz que um rei espartano exilado, Damárato, acompanhava Xerxes nas Termópilas. O rei persa teria perguntado se os espartanos, sendo tão poucos, ousariam enfrentá-lo.

 

"Rei", respondeu Damárato, "embora sejam livres, eles não são livres em tudo. Acima deles está a lei, um senhor a quem eles temem muito mais do que os teus servos têm medo de ti. Eles fazem o que a lei ordena, e a sua ordem é esta: não fugir diante de nenhuma multidão de homens, mas ficar em seus postos."

Além de enfrentar o reino mais poderoso da época, a Grécia tinha que lidar com a desunião interna. Na primavera de 480 a.C., quando a segunda onda de invasões persas começou, poucas cidades gregas queriam saber de aliança.

 

"De 700 cidades-Estado que poderiam ter se unido à resistência, só cerca de 30 o fizeram", diz o historiador Paul Cartledge, da Universidade de Cambridge. Quem decidiu a vitória sobre o império invasor? A frota naval de Atenas, com sua invencível esquadra, liderada por Temístocles. Isso nem sequer é citado no filme.

 

 

 

MAS AFINAL QUEM FORAM OS VERDADEIROS PRAGMÁTICOS?

Temístocles era um foi um político e general de Atenas. Liderou o Partido Democrático Ateniense. Contra a vontade da maioria, decidiu resistir a Xerxes e barrar-lhe o avanço na marra. Mas como vencer o soberano das maiores terras do mundo? Descobriu então o calcanhar de Aquiles dos persas: a água. Temístocles redesenhou a engenharia dos navios de guerra helenos, aperfeiçoando o modelo dos trirremes ao máximo da eficácia. Foi então que a invencível esquadra de Atenas ganhou renome mundial.

Depois que os persas atravessaram o desfiladeiro, a cidade de Atenas ficou em má situação, porque nada podia impedir o ataque. Os esclarecidos e pragmáticos atenienses agiram usando sua lógica: perguntaram aos deuses. Ou seja, consultaram o Oráculo.

 

Para entrar em contato com os deuses, a moça do templo cheirou uns gases, teve umas convulsões, babou um bocado e enfim balbuciou umas palavras incompreensíveis para a sacerdotisa interpretar. O Oráculo respondeu que a cidade de Atenas estava condenada a ser destruída, mas que os atenienses seriam salvos por muralhas de madeira.

O sábio Temístocles traduziu ao seu jeito, dizendo que as tais muralhas de madeira eram os navios da esquadra, e convidou o povo a abrigar-se nos barcos ancorados na Baía de Salamina. Quando os persas entraram em Atenas, só viram casas vazias. Incendiaram tudo e marcharam para Salamina, onde tudo foi decidido.

 

A tal baía se assemelhava muito ao desfiladeiro das Termópilas: era uma faixa d'água, como um trecho de rio – e essa semelhança deu a Temístocles uma idéia. Fingindo-se traidor, como aquele que nas Termópilas havia revelado a passagem secreta, mandou dizer a Xerxes que se a esquadra persa fosse dividida em duas partes, ficando uma num extremo e a outra no outro extremo da baía, os gregos, encurralados, nada poderiam fazer.

 

Xerxes caiu como um patinho nessa esparrela, acreditou na nova "traição" e dividiu a esquadra em duas partes. Isso foi ótimo para os atenienses, que com todos os seus navios juntos puderam atacar uma metade de cada vez; e ainda, por meio de uma habilíssima manobra, conseguiram fazer com que as duas metades da esquadra persa se chocassem, destruindo-se mutuamente.

 

 

 

 

 

TRAIÇÕES

 

Depois da tempestade, veio... a bonança? Não, a ingratidão. O triunfo de Temístocles, o maior herói grego que salvou o país (e salvou a civilização ocidental) atraiu a inveja. Suas ambições também cresceram, com os projetos de reforma do Estado.

 

Isso alimentou as intrigas de seus adversários políticos, que fomentaram um clima de paranóia, culminando com uma votação na Assembléia ateniense que lhe deu um voto de desconfiança – e pior, um plebiscito para condená-lo ao ostracismo. Quando contaram o número de ostras com o nome de Temístocles, sua carreira de estadista estava encerrada. Ele jamais voltou a pisar em Atenas.

Mas aí é que veio a bonança: ironicamente, Temístocles teve seu valor reconhecido e seu talento como bom administrador foi bem empregado... na Pérsia. Ele passou os últimos anos da vida falando persa, trabalhando como funcionário público do mesmo império que havia derrotado. Xerxes não guardou nenhum ressentimento pessoal, vendo nisso até uma vitória moral.

 

De qualquer maneira, antes mesmo do julgamento ele refugiou-se lá porque sabia que os persas aceitavam todos os homens experientes que pudessem ajudá-los na administração de seu vastíssimo império.

 

O rei e seus burocratas preferiam premiar a eficiência no trabalho, e tomavam as decisões baseando-se numa visão pragmática e racional; e deram ao competente Temístocles um emprego no Estado. Se você não pode com o inimigo, contrate-o. Quem eram os verdadeiros pragmáticos que agiam segundo a lógica e a razão? Moral da história: política é uma caixinha de surpresas, em qualquer época e lugar.

No entanto, já que derramar sangue era como um passatempo para os gregos, as guerras não pararam por ali. As cidades voltariam a lutar entre si: uma víbora devora a outra. E aquele povo de psicopatas logo se tornaria auto-destrutivo. A ateniense Liga de Delos contra a espartana Confederação do Peloponeso.

 

Atenas, poderosa demais depois de vencer os persas, se tornou um "império maldoso demais" para as cidades conquistadas. Aliados de Atenas mandavam mensagens secretas para os espartanos, suplicando que eles "libertassem a Grécia".

 

O conflito era só uma questão de tempo – e as alianças passaram as últimas 3 décadas do século 5 aC afundadas nele. Foram 27 anos de guerra civil grega. O conflito fratricida terminou com a vitória de Esparta, financiada por ouro persa. Yeah, os ex-inimigos agora davam as cartas na política grega por baixo do pano. Os deuses do Olimpo não contavam com essa: corrupção. E isso foi só o começo de uma longa sucessão de traições.

 

 

Dizei-me agora, ó Musas, quem foi o primeiro, e quem foi o último traíra? Com vocês, o maior general de Atenas.

 

"Como comandante de terra e mar, Alcebíades nunca foi derrotado. O destino de Atenas e o de seu filho predileto estiveram inextricavelmente interligados. O homem e a cidade refletiam um ao outro em ousadia, ambição e vulnerabilidade. Aliados, colheram vitória após vitória. Distanciados, foram inimigos que se destruíram. Mas a reputação e a ruína do homem e da cidade permaneceram inseparáveis até o final. Parente de Péricles, protegido de Sócrates, imortalizado por Plutarco, Platão e Tucídides, Alcebíades era reconhecido como a personalidade mais brilhante e carismática da sua época. Assim como o orgulho de Aquiles deu o rumo à guerra de Tróia, a força de vontade e a ambição de Alcebíades deixaram sua marca na guerra do Peloponeso."
 

 

 

A marca da traição: depois da desastrosa expedição na Sicília, onde destruiu algumas estátuas sagradas e causou um escândalo religioso, o general foi intimado a voltar a Atenas para julgamento. Mas ele fugiu para Esparta, desertando para o lado inimigo, tornando-se o primeiro ateniense general dos espartanos. (Logo eles, tão orgulhosos de sua superioridade, tsc tsc...)

 

Mais: despertando a inveja dos generais da Lacedemônia, pediu apoio ao verdadeiro chefe: o governador persa, o sátrapa Tissafernes. Alguma dúvida de quem realmente movia as cordas das marionetes na guerra civil grega?

Por meio de uma série de intrigas á distância, ele conseguiu reatar relações com as facções políticas da cidade natal – até trair todas elas. Além de virar a casaca, virou a mesa pro lado dos ex-inimigos na vitória.

 

Alcebíades foi o (in)fiel da balança que decidiu o resultado da guerra. E em 407, o filho pródigo á casa torna, com Alcebíades pisando triunfalmente em Atenas como conquistador e liderando a vitória de Esparta na Guerra do Peloponeso. Mas aquele foi só o primeiro assalto. Em tempo: depois de perder sua utilidade, Alcebíades foi assassinado na Trácia, por instigação dos "amigos" espartanos. Uma víbora devora outra.

A influência espartana agora dominava a Grécia inteira. Mas, sem o menor tato para governar, os espartanos instalavam governadores militares impopulares ou apoiavam oligarcas que perseguiam os opositores políticos. Seu despotismo irritou os gregos. O resultado?

 

Mais guerra, dessa vez promovida por um novo poder: a cidade de Tebas aliando-se a Atenas, criando a Liga Arcadiana contra Esparta. (Os mesmos arcadianos que Leônidas ridicularizou no filme.) Vitoriosa em terra, mas derrotada no mar, a decisão de Esparta foi para um árbitro "imparcial". O confronto decisivo entre a desafiante e a campeã aconteceu na Batalha de Leuctra, em 371 a.C. A derrota de Esparta foi completa.

 

 

 

DECADÊNCIA

 

Pensa que acabou? Tebas estabeleceu, por sua vez, sua dominação na Grécia. Atenas reconstruiu sua liga marítima. E veio mais traição de princípios. Ou falta deles, com a nova aliança entre Atenas e Esparta (369).

 

Deixando todos os ressentimentos de lado, o importante para as duas ex-arquiinimigas era só dividir o poder. Embora vencesse as duas em Mantinéia (362) Tebas foi obrigada a limitar suas ambições à Grécia central. O país finalmente entrou em decadência total, esgotado por guerras contínuas.

Mas a humilhação total ainda estava por vir. Esparta foi sendo consumida por um inimigo que não esperava: a desmoralização de seu próprio povo. Uma grave crise social, população cada vez menor, concentração de riquezas, descontentamento dos pobres.

 

Assim, nem teve forças para se opor á ascensão da Macedônia. Reduzida aos limites da província da Lacônia por Filipe II, que levantou contra ela a Messênia (lembra dos messênios? a vingança dos oprimidos tarda, mas não falha), e a cidade foi esmagada por Antígono Gônatas em 265 aC. Finalmente, foi abandonada para o amargo fim: morrer de maneira trágica, mas inevitável, pelas mãos do "povo de inferiores": seus próprios escravos hilotas. Agora, ex-escravos.

A revolta dos escravos foi devastadora. Mais de quatrocentos anos de ódio sufocado explodiram de uma vez. E tudo acabou em um único dia. Nem as mulheres e crianças escaparam da fúria dos revoltosos. Os hilotas sabiam que sua liberdade só dependia de que nunca mais Esparta se reerguesse. E eles não deixaram pedra sobre pedra.

 

A cidade virou ruínas. Tudo foi queimado de cima a baixo, com toda a população passada a fio de espada, faca ou machado. A elite espartana foi exterminada com os mesmos requintes de crueldade e sadismo que eles próprios aplicavam. Justiça poética. Os primeiros a morrer foram, claro, os soldados. Estes nem tiveram como permanecer durões, pois foram apedrejados, esfolados e queimados vivos.

 

Então os libertos partiram pra cima dos adolescentes da Kryptia e depois de acorrentar os rapazes uns nos outros, eles os massacraram e os despedaçaram. Aí foi a vez de prender os políticos da cidade (os parlamentares eleitos éforos, os clérigos esclerosados religiosos da eclésia e os velhos senis dirigentes da gerúsia), e vingaram-se de seus opressores terrivelmente espancando-os até a morte. Muitos morreram sob tortura. Outros tantos foram mortos a pauladas.

 

 
 

Leônidas (? Esparta-480 a.C., Termópilas). Seus nome

significa "Filho de Leão"
Museum of Sparta.

Foto JanVan Vliet

 

Gravura na pedra de Xerxes I

na parede de um

palácio em Persépolis

 

 

 

Túmulo de Xerxes

em Naqsh-e Rustam, Irã.

 

 













 

 









 





 













 




















 

FONTES

 

revista Veja 28 de março/2007


revista Galileu de março/2007


revista SuperInteressante
abril/2007


História do Mundo Para Crianças
Monteiro Lobato


http://www.editoras.com/objetiva/
580-8.htm


TEMÍSTOCLES








 

 

edições: Sofä da Sala
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