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06/06/20078
comunicação
Telejornal Perigoso:
Dos Crimes e das Cenas
por Ligia Cabús

 

 

 

Os midia ─ a televisão, especialmente, mas também a internet, os jornais, rádios, revistas ─ estes, os meios de comunicação de massa vivem do interesse do público em seus produtos. Apesar de toda a conversa institucional de prestação de serviço à sociedade, o fato é que os midia tem custos e precisam de clientes para pagar as contas e ainda gerar lucro. São, portanto, negócios. É preciso cativar suas duas categorias de cliente: 1. a audiência que quanto maior for, valoriza, aumenta o preço do espaço na programação/edição porque gera maior visibilidade para 2. o anunciante, que pagará mais caro em determinada emissora por conta do retorno de divulgação/vendas que vai obter expondo sua mercadoria para milhões de pessoas. Significa, quanto mais audiência, mais dinheiro para todo mundo.

Acontece que os midia vendem cenas da vida real ou fictícia, vendem textos e imagens, vendem idéias, padrões de beleza, de civilidade e moral, vendem mensagens. Em países de orientação política e cultural democrática como o Brasil a liberdade de informação é um direito consolidado e em linhas gerais um aspecto positivo do Estado de direito. Porém, cabe aos meios lidar com o conteúdo de seus produtos aplicando juízos, critérios auto-reguladores que devem ser determinados, caso a caso, pelo saber especializado de seus profissionais, pela Ciência da Comunicação. O que ocorre, entretanto, é que no cotidiano competitivo da produção de conteúdo, especialmente o conteúdo jornalístico, a Ciência da Comunicação, no que toca à ética aplicada à psicologia das massas, essa ciência passa longe da definição das pautas nos núcleos de produção da notícia.

Não há limite para os apelos grosseiros ao que há de mais mórbido na esfera do interesse público. O caso Nardoni [assassinato de uma criança em contexto familiar], recente, já é um clássico. Foi uma "pauta gorda". Rendeu! Gerou um bombardeio de boletins informativos além de ocupar os telejornais nacionais durante semanas e considerável espaço nas "revistas" dominicais. É fantástico, é espetacular... A morte, a barbárie, é um "espetáculo"... ou seja, algo que desperta intensa atenção, que faz alguém parar diante da tela, garfo no ar, prato na mão para ver e escutar mais um detalhe sobre um assassinato.

Os comunicólogos do século XXI estão atrasados. Acreditam que seu trabalho restringe-se a criar textos, produzir imagens e falas emoldurados em composições de cenários, figurinos, trilha sonora e efeitos especiais que funcionem como atratores da atenção do público. Ninguém parece perceber que não é mais possível ignorar ou tratar superficialmente o papel dos midia na formação da mentalidade do povo. Não se pode continuar subestimando o poder da mensagem de se imiscuir insidiosamente na consciência e na memória influenciando decisivamente a qualidade dos pensamentos que habitam e/ou assombram a mente humana.

A repetição exaustiva, brutal e embrutecedora, de informações relacionadas aos crimes bárbaros, suicídios, catástrofes, não serve a ninguém. Debruçar-se dia e noite sobre as minúcias do horror que viola os direitos humanos e o código penal é uma tarefa que cabe à polícia e à justiça. O teósofo e ocultista C.W. Leadbeater comenta esses abusos da indústria da informação jornalística sob a perspectiva da Teoria das Formas-Pensamento segundo a qual pensar é uma ação que libera energia criadora dando origem a "atmosferas" comportamentais repletas de entidades astrais [emocionais] e mentais [intelectuais]. Escreve Leadbeater em O Lado Oculto das Coisas, livro de 1913, época, portanto, em que ainda não havia televisão:

 

Um aspecto desagradável da imprensa jornalística de hoje é o grande destaque dado aos casos de assassínio e divórcio, e a riqueza de minúcias com que são diariamente apresentados... É coisa nefasta de qualquer ponto de vista ...mas quando acrescentamos as considerações do lado oculto de tudo isso... ficamos francamente apavorados.

Essa publicação malsã provoca constantemente a criação em todo o país de grande multidão de formas-pensamento ativas e altamente nocivas; o povo imagina os horrorosos pormenores do assassínio ou se regozija de mórbido e cruel deleite com os fatos sugestivos ou histórias de divórcio; e as formas-pensamento resultantes no primeiro caso são de caráter terrificante para toda pessoa que por elas possam influenciar-se; e no segundo caso, divórcios, constituem verdadeira tentação [as formas-pensamento geradas] para atos e pensamentos maus por parte daqueles que possuem dentro de si germes de sensualidade. O clarividente não pode evitar observar o grande aumento de formas-pensamento desagradáveis no curso do desenvolvimento desses casos sensacionais [LEADBEATER, 2000].

 

E se era assim no começo do século XX, mais congestionada ainda deve estar hoje a atmosfera do planeta com a informação eletrônica globalizada. Como nos burgos medievais, quando o povo se aglomerava em torno de patíbulos e fogueiras, hoje a multidão se concentra na frente das delegacias enquanto a evolução dos inquéritos é mostrada ao vivo nas telas, diante das quais, igualmente concentradas ficam as pessoas, em casa, no trabalho, acompanhando cada pormenor macabro e torpe do show do crime. Acorda-se e dorme-se com o som do nome da vítima ou dos assassinos entrando pelos ouvidos emitidos pelo som de um rádio, uma TV, de uma conversa banal na rua, nos ônibus, nas portarias, nos escritórios.

Enquanto isso, milhões de mentes impressionadas com o horrendo emitem formas-pensamento igualmente horrendas e prontas para aderir à aura, corpo energético, das personalidades mais fracas. Os suicídios e o abandono de bebês são manchetes notavelmente nefastas que não raro servem de inspiração para ondas mais ou menos graves de ocorrências semelhantes. É o que se chama popularmente de "dar idéia", no caso, péssima idéia... mas que pode parecer atraente para as consciências mais toscas e desesperadas. Escreveu o Mago Ladino* [Girolamo Tovazzo ou Tovazzi, 1686-1779] alquimista e vidente do século XVII, profetizando o futuro: "No tempo da máquina voadora os homens orientam-se com um monstro falador..." [OS PROFETAS, 1985].

* LADINO: dialeto latino da região de Friuli, norte da Itália.

 

De fato, a TV aberta, a algum tempo, tornou-se um "monstro falador" agressivo cuja conversa pode ser de extremo mau gosto. Não bastasse o jornalismo sensacionalista, o espectador ainda é assaltado pelas peças publicitárias cujo áudio é um murro nos tímpanos e os textos e subtextos são medíocres, com seus slogans infelizes e suas equivocadas associações de idéias. Exemplo de choque sonoro são os efeitos de "carimbando seu cérebro", "explodindo sua cabeça", "queimando sua vida" muito usados pelas lojas de móveis e eletro-eletrônicos juntamente com o imperativo ─ Corra!

As propagandas de cerveja são repugnantes: "Ser brameiro é ser rico de amigos" é uma frase nojenta, que ofende a inteligência. A experiência de um pré-adolescente contemporâneo comprova que os amigos de copo [e também de pó e fumaça] são os mais "voláteis" que se pode ter, unidos pela desgraça, pela tendência à auto-destruição, ao entorpecimento escapista e à decadência física e moral. A "boa", a modelo lindíssima e elegante do filmete, a musa da bebida, jamais seria "boa" se consumisse cerveja regularmente; seria gorda, uma baranga mesmo, porque cerveja incha a cara e engorda barriga e coxas em pouquíssimo tempo. Meditemos...

Junto com a overdose de horror do jornalismo sensacionalista, no mesmo pacote dos produtos oferecidos com argumento enganoso, o telespectador recebe uma dose de ansiedade, expectativa, medos e desejo por bens que podem ser tão inalcançáveis quanto, muitas vezes, inúteis, acrescentando à ração indigesta um tanto de frustração consigo mesmo, com a vida e outros sentimentos autodepreciativos.

A produção de telejornais e propagandas para os canais abertos de TV deve ser trabalhada com mais respeito, ciência e técnica levando em consideração as necessidades emocionais das massas. O controle remoto não é suficiente para evitar os males do lixo televisivo. Não é possível assistir a programação com a tensão da vigilância constante nos blocos de intervalos a cada dez minutos. Desse jeito, não dá para ver televisão sossegado.

 

 

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06 de junho de 2008
jornalismo: Ligia Cabús | Mahajahck@hotmail.co