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ocultismo

12/04/2012

Amor, sexo e magia

a questão do amor e do sexo
no universo das práticas mágicas

por Lygia Cabus

     
 

 

Na saga Völsunga, Kriemhild (ou Gudrun) usa uma poção do amor para seduzir Sigurd (Siegfried). No entanto, o amor obtido por este caminho teve e tem, sempre, um final desatroso.

 

Amor e magia: eis duas palavras que o imaginário popular reúne e relaciona freqüentemente a enredos fantásticos e açucarados. A figura da cartomante, que a tende à mulher aflita e ciumenta, é uma tradição literária dos folhetins.

 

As chamadas "simpatias" também são muito procuradas com suas receitas que misturam velas cor-de-rosa, melaço, fotografias, cuecas e mechas de cabelo. Nos chats  de temática ocultista e, especificamente, aqueles nomeados como "salas de bruxaria", é comum a entrada intempestiva de alguém seguida da pergunta, algo redundante: "Algum bruxo (a) na sala ?".

 

É uma frase simples que aparece na tela mas tudo ocorre tal como se fosse possível ver a pessoa, ler em seu rosto e seus gestos o motivo do interesse urgente em consultar a magia. Quase sempre trata-se de alguém com problemas amorosos, em busca de encantamentos de sedução, de conquista ou, pior, vingança contra rivais ou afeto não correspondido.

 

 

Em qualquer caso, é impossível, para um verdadeiro ocultista, utilizar os conhecimentos da magia em empresas (atividades) dessa natureza, tão contrárias à essência do fenômeno amoroso em todas as suas dimensões. Definir o amor é uma tarefa quase impossível.

 

Existe neste sentimento algo de tão sublime em altruísmo que faz suspeitar da capacidade humana de amar. Além disso, o amor se manifesta em vários sentidos; pode dirigir-se aos pais (amor filial), aos filhos (amor materno e paterno), aos amigos e irmãos (amor fraterno), amor à pátria, amor ao trabalho, à arte, à natureza, amor universal e, finalmente, o mais polêmico de todos, o amor sexual ou sexuado, que é o amor dos casais.

 

 

O amor sensual é um sentimento tão confuso que enseja, muitas vezes, a dúvida, sobre se de fato é amor, e a questão clássica, da diferença entre amor e paixão. Geralmente situado entre os mais nobres dos sentimentos, o amor "temperado" pela atração sexual apresenta-se como nebuloso terreno emocional.

 

É um amor eivado de impulsos cegos, provenientes da esfera instintiva da constituição do ser humano, que mais se aproxima do animal e se afasta do racional produzindo situações das mais funestas, a exemplo dos crimes passionais, quando agressão física e assassinatos são cometidos "por amor" (!).

 

 

The Fotune Teller.

Frédéric Bazille (1841-1870)

 

Fazer uma "simpatia", um feitiço a fim de obter acolhimento afetivo e (ou) sexual significa colocar a razão à serviço do desvario, uma atitude que por si somente representa uma derrota da inteligência e um desvirtuamento do amor em sua essência fenomenológica pura que se traduz na espontaneidade da ocorrência, ou seja, o amor, ou acontece ou não acontece e quando acontece, ainda assim, o mago deve avaliar a conveniência de se pode e deve, ou não, ceder aos apelos do amor.

 

Fazer um feitiço é forçar uma situação e qualquer êxito obtido desta forma será efêmero e traiçoeiro. O encantamento de amor é sempre uma violência, um crime de fraude, engodo, ilusão.

 

As pessoas que pedem tais "magias" devem saber que um mago (ou maga) que se respeite jamais se prestará à realização de tais operações, nem vai "passar" receitas ou "fazer trabalhos" e tão pouco vai abrir seus oráculos (cartas, búzios, I-Ching etc.) para questões tão levianas.

 

 

Se alguém, dizendo-se bruxo, aceitar tão vergonhoso papel, esse alguém, com toda certeza, é um charlatão. Se cobrar a consulta, é caso para Código Penal e mais um pacote de milenares maldições que recaem sobre os que fazem da magia objeto de comércio ou meio para a obtenção de vantagens pessoais, seja no terreno amoroso ou profissional.

 

O ocultista sério, busca e recomenda a liberdade que deriva do domínio das paixões, virtude que preserva a dignidade e fortalece o espírito em suas manifestações de vontade.

 

Quem controla o amor que em si mesmo sente, possui o amor que deseja, naturalmente. A seguir, alguns trechos do pensamento do mestre ocultista Eliphas Levi* comentam a relação entre magia e amor.

Pode verdadeiramente vencer a voluptuosidade do amor, somente quem venceu o amor da voluptuosidade. Poder usar e abster-se, é poder duas vezes. O amor vos prende pelos vossos desejos: sede senhor dos vossos desejos e prendereis o amor. (...)

 

Dispõe do amor dos outros quem é senhor do seu. Quereis possuir, não vos deis. (...) Quando a atmosfera magnética de duas pessoas é de tal modo equilibrada que o atrativo de uma aspira a expansão da outra, produz-se uma atração que se chama simpatia; então, a imaginação (...) se faz um poema de desejos que arrastam a vontade e produz [nas pessoas envolvidas] um embebedamento completo de luz astral, que se chama de paixão propriamente dita ou amor. (...)

 

O amor é um dos grandes instrumentos do poder mágico; mas é formalmente interdito ao mago, ao menos como embebedamento ou como paixão. (...) O amor sexual é sempre uma ilusão, porque é o resultado de uma miragem (...)

 

A luz astral é o sedutor universal, figurado pela serpente do Gênese. Para apoderar-se dela, [da serpente, do amor] é preciso, como a mulher predestinada, por o pé sobre sua cabeça. (...) A luz astral dirige os instintos animais e dá combate à inteligência ... (...)

 

A antipatia outra coisa não é senão o pressentimento de um enfeitiçamento possível, enfeitiçamento que pode ser de amor ou de ódio, porque se vê, muitas vezes, o amor suceder à antipatia. (...) As paixões humanas produzem fatalmente, quando não são dirigidas, os efeitos contrários ao desejo desenfreado. O amor excessivo produz a antipatia...

 

* [LEVI, Eliphas. Dogma e ritual da alta magia – p 76, 117, 119, 120, 180 – São Paulo: Ed Pensamento, 1993]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



 

 

 



 


 




      

 

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