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PACTO COM O DIABO sumário I.
Introdução
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Pacto com o Diabo: este é um dos temas recorrentes do folclore ocultista e prática ou recurso muito procurado na magia popular, a feitiçaria ou bruxaria. A personificação do mal em uma entidade tangível, demônios, diabos etc., é uma atitude psicológica que aparece em culturas de todo o mundo, em todos os tempos e ainda hoje, tanto em sociedades primitivas quanto nas pós-modernas. Sendo "pessoa" acessível e adversário de Deus, supostamente dotado de "poderes sobrenaturais", o Diabo torna-se um parceiro atraente na lógica ignorante dos que recusam outras formas de encarar as negativas da vida. Quem procura "a fórmula" para fazer um Pacto com o Diabo em geral está sendo movido pelo desespero revoltado, nascido de uma "dor da alma" (injustiças que despertam anseio de vingança, por exemplo) ou é alguém motivado por desejos desenfreados voltados para os prazeres sensuais e valores materiais (sexo, gula, embriaguês, dinheiro, fama, poder). A mais antiga referência escrita sobre Pacto com o Diabo encontra-se em textos apócrifos da teologia judaico-cristã. Um deste textos é A Vida de Adão e Eva, cuja versão conhecida, que data do século I d.C., apresenta um relato mais extenso do Genesis. Na Idade Média, inspiradas nestes livros clandestinos, circulavam histórias sobre os encontros entre Satanás, Adão e Eva depois do episódio da maçã. Neste período nebuloso da vida do primeiro casal encontra-se a origem do Pacto com o Demônio. O primeiro Pacto teria sido fruto das artimanhas do Malígno que conseguiu enganar Adão e convencê-lo a assinar um contrato de servidão aos poderes do Inferno. Existem três versões principais sobre o enredo de fatos que resultaram neste Pacto: 1. Adão, expulso do Eden, foi habitar as
terras do Oriente Médio onde trabalhava no cultivo da terra; era um
lavrador até que Satanás apareceu e usando de uma conversa maliciosa
convenceu o homem de que era proprietário da Terra, posto que todos
sabiam, Satan era o Rei das coisas do Mundo e assim, não permitiria que
Adão continuasse cultivando suas lavouras sem uma devida paga. Então
apresentou a Adão um contrato de servidão. Desta forma, o homem passou a
ser escravo do Maligno até o advento do Salvador Jesus que resgatou
todos os pecados e erros acumulados até então pela humanidade.
A "descoberta ou redescoberta" do Pacto com o Diabo, recuperado a partir destas lendas antigas, é creditado aos judeus das primeiras décadas da Era Cristã, quando alguns místicos criaram "receitas", rituais evocativos para "contactar Satanás" (GRANDES MISTÉRIOS, 1996). Entretanto, alguns dos mais famosos supostos "sócios do Demo" foram religiosos cristãos. O primeiro registro formal de um Pacto com o Diabo data de 538 (sec. VI a.C.) quando Teófilo, arcediago da Igreja Cristã, vendeu sua alma para recuperar seu prestígio social e eclesiástico, abalados por uma série de acontecimentos escandalosos. Diz a lenda que, mais tarde, o religioso se arrependeu e suplicou à Virgem Maria que o ajudasse a anular ou romper o Pacto, no que foi atendido, salvando sua alma por conta de um remorso sincero e interferência da misericórdia divina. Ainda durante a Idade Média, também foram acusados de conchavos diabólicos, os Papas Honório e Silvestre II, cognominado "o Mago", cuja sabedoria e extraordinária inteligência, comentários do povo atribuíam a um "contrato com o Canhoto", além do célebre São Cipriano, de Antióquia, que antes de se converter ao cristianismo foi um feiticeiro conceituado que admitia abertamente dispor de poderes mágicos graças a um pacto com o Diabo. Em meio à nobreza européia, entre o final do medievalismo e expansão da Renascença Moderna, monarcas como Henrique III e Catarina de Médicis, considerada a criadora da Missa Negra, teriam vendido suas almas ao Todo Poderoso dos Infernos. Entre os plebeus, destaca-se o caso da Bruxa de Berkeley que tomou cuidadosas providências rituais para o próprio funeral, sem sucesso, em uma tentativa de escapar do inferno e passar o "calote" no Demo. Na França, no período mais ativo da Caça às Bruxas (os), o caso do padre Urbain Grandier causou enorme sensação e terminou com o acusado na fogueira. Na Alemanha, a lenda do Doutor Fausto e do seu funesto Pacto com o Demônio permanece até hoje como uma das mais fascinantes histórias do folclore ocultista inspirando obras de arte na literatura, pintura e música. As mesmas suspeitas pairam sobre ocultistas como Paracelso, Cornelius Agrippa e mais recentemente (sec. XIX/XX), Aleister Crowley, que já foi considerado e que admitia ser "a Grande Besta, o homem mais perverso do mundo".
São Ciprinano, cognominado O Feiticeiro, para distigui-lo do também famoso Cipriano, Bispo de Cartago, nasceu em Antióquia, região entre a Síria e a Abissínia (atual Etiópia); a época era a segunda metade do século III d.C. (anos 200). Sua família, abastada, incentivou e patrocinou uma formação completa nas ciências da magia. Aos 30 anos, Cipriano se estabeleceu na Babilônia para aprofundar seus estudos em Astrologia. Ali, tornou-se discípulo de uma bruxa famosa, a Bruxa de Évora, cartomante, quiromante (leitura de mãos) e oniromante (leitura dos sonhos). Para obter poderes sobrenaturais, Cipriano iniciou-se também na Goethia, evocação de demônios e por fim, firmou um Pacto com o Diabo tornando-se um feiticeiro com capacidades fenomenais. Em sua biblioteca, além dos livros de estudo, havia apontamentos próprios que ele fazia em toda parte, inclusive nas paredes e além disso, um tesouro exclusivo de Cipriano: sua mestra morrera e, trancado em uma arca, ele possuía todo o conhecimento da Bruxa de Évora contido em cadernos e pergaminhos, memórias e anotações de uma vida inteira, uma herança para o mais destacado de seus alunos. Cipriano se sentia bem com suas crenças e desfrutava todos os prazeres que o dinheiro e o prestígio podiam proporcionar. Tudo isso mudou diante do "Caso Justina". Justina era uma jovem cristã rica e bela. Embora educada no paganismo, na idolatria, tornou-se cristã por conta própria e converteu os pais, Edeso e Cledônia. Muito devota, consagrou-se totalmente ao Cristo Jesus, determinou-se a manter a virgindade e recusava casar. Vivia em retiro mas mesmo assim um homem apaixonou-se por ela. Seu nome era Aglaide. Tendo sido rejeitado como noivo, Aglaide resolveu apelar para a feitiçaria e procurou Cipriano a fim de obter a simpatia da donzela por meio das forças ocultas. O bruxo, não só desprezava o cristianismo como também se deleitava em ridicularizar os símbolos sagrados daquela religião bem como seus sacerdotes tendo, inclusive, se engajado em um movimento de perseguição aos fiéis. Diante do problema de Aglaide, aceitou prontamente fazer o "trabalho" e , de fato, empregou todos os seus conhecimentos e auxiliares diabólicos para enfraquecer e dominar a vontade determinada de Justina. Porém nada surtia efeito; os recursos iam se esgotando e Cipriano incomodava-se porque começava a desconfiar que não era suficientemente poderoso, ou não tanto quanto se achava ser. Atormentou a jovem com todo o tipo de armadilhas da sedução mental; falhando a sutileza, atacou enviando demônios que produziam terríveis visões. Mas Justina não se deixou intimidar sempre protegida por uma infinita fé na proteção de Jesus. Contra todas as investidas do Mago, usava somente um signo, fazia somente um gesto, o Sinal da Cruz. Furioso com aquele fracasso, Cipriano pediu contas ao Demônio e questionou: - Pérfido, já vejo a tua fraqueza, quando não podes vencer a uma delicada donzela, tu, que tanto de jactas do teu poder de obrar prodigiosas maravilhas! Diz-me logo de onde procede esta mudança, e com que armas se defende aquela virgem para deixar inúteis os teus esforços? Sem saída o demônio confessou que nada podia fazer contra a moça por conta do Sinal da Cruz que ela usava com uma fé profunda e inabalável. Justina não tinha medo e rechaçava qualquer ataque em nome de Jesus e este, era o Senhor de todas as coisas, dos Céus, da Terra e dos Infernos. Diante Dele, aos demônios, nada restava a fazer senão pôr-se em fuga. - Pois se isso assim é - replicou Cipriano - eu sou bem louco em não me dar ao serviço de um senhor mais poderoso do que tu. E assim, se o sinal da cruz, em que morreu o Deus dos cristãos, te faz fugir, não quero mais servir-me dos teus prestígios, antes renuncio inteiramente a todos os teus sortilégios, esperando na bondade do Deus de Justina que haja de me admitir por seu servo. Mas o demônio não desiste facilmente. Vendo que estava a perder tão valioso comparsa, tentou ainda apoderar-se do corpo de feiticeiro. Mas Cipriano estava completamente decidido e, fazendo o Sinal da Cruz, pela primeira vez, invocou a proteção do "deus de Justina". A Graça do Senhor desceu sobre ele e o malígno teve seus poderes anulados. Naquele momento, Cipriano rompeu o Pacto com o Diabo e dali em diante começou uma trajetória de duras provas que confirmaram sua fé em Jesus Cristo. Mais tarde, já como cristão converso e penitente, foi perseguido, preso e julgado pelo imperador Diocleciano sendo morto, depois de longos martírios, em 26 de setembro de 304, em sua cidade natal, Antióquia. Pela sua história de pecados e maravilhas, pela sua conversão e pelo suplício que padeceu em nome de Cristo, Cipriano virou o São Cipriano que se conhece hoje. Textos remanescentes do seu período satânico foram recuperados e reunidos nos famosos Livros de São Cipriano, cuja venda é anunciada em revistas femininas e exotéricas além de boa parte do conteúdo estar disponível em páginas da internet. São simpatias e bruxedos para obter sorte no amor, sucesso nos negócios e coisas do gênero.
(HAINING, 1976 - p 106)
No processo jurídico-eclesiástico contra Urbain Grandier, acusado em 1633 de enfeitiçar as freiras de Loudun, consta que uma cópia do pacto, um documento escrito foi encontrado entre os papéis do réu, devassados depois de sua prisão. O costume de formalizar tais pactos por escrito foi instituído a partir do século XII (anos 1.100); até então, a maioria dos "acertos" com o Diabo era feita oralmente, na base da confiança mútua na palavra. O trato mais comum garantia que riquezas e honras seriam providenciados pelo Demo que, em paga, receberia a alma do feiticeiro depois de sua morte. O contrato estipulava um prazo para o desfrute das benesses; findo o prazo, o cobrador infalivelmente apareceria para cobrar o preço acertado. O "contrato" de Grandier ainda existe. Foi redigido em latim, da esquerda para direita, assinado com sangue, por mais de um demônio, e se encontra na Bibliothèque Nationale, em Paris. Diz o texto: Meu Senhor e Mestre, tenho-o como meu Deus; prometo servi-lo enquanto viver e, desde esta hora, renuncio a todos os outros deuses e Jesus Cristo e Maria e todos os Santos do Céu e à Igreja Católica Apostólica Romana e a todo o bem e preces que possam ser feitos por mim. Prometo adorá-lo e prestar-lhe homenagem pelo menos três vezes por dia e fazer o máximo de mal possível e levar ao mal tantas pessoas quanto possível; renuncio de coração ao Cristo, ao batismo e a todos os méritos de Jesus Cristo; no caso de desejar mudar, dar-lhe-ei meu corpo e minha alma e minha vida como garantia, tendo entregue tudo isso para sempre sem qualquer vontade de arrependimento. Assinado: Urbain Grandier, com seu sangue. (HAINING, 1971)
Reprodução do Pacto de Grandier
Quando se fala na história dos Pactos com o Diabo, no
Ocidente, a feiticeira de Berkeley é uma figura sempre lembrada,
referência obrigatória pela originalidade de sua trajetória e desfecho
fantástico de sua aventura. Esta mulher viveu na segunda metade do
século XI (anos 1000) na pequena cidade de Berkeley, Inglaterra. Ao
contrário das feiticeiras típicas do imaginário popular, a Senhora de
Berkeley era bem conceituada em sua comunidade, mãe de família com
muitos filhos e filhas, dois dos quais, os caçulas, eram dedicados à
vida religiosa: o rapaz era monge e moça, freira. Além disso era uma
mulher rica e caridosa embora fosse público e notório que dispunha de
certos dons sobrenaturais. Em pleno período de repressão às modalidades
de bruxaria, esta feiticeira conseguiu escapar de qualquer perseguição
não obstante de sua fama de vidente capaz de ler o destino das pessoas
na formação dos bandos de pássaros em vôo. Como animal de estimação,
possuía um pequeno corvo. ...deveriam costurar seu cadáver num couro de
veado e colocá-lo num sarcófago de pedra lacrado com chumbo
derretido e amarrado com correntes. Cinquenta sacerdotes deveriam
rezar a missa pela sua alma enquanto outros cinquenta deveriam
cantar nênias para a proteção de seu corpo. Tudo isso deveria durar
três dias e três noites. Todas as instruções foram meticulosamente
observadas mas ...um bando de demônios invadiu a igreja, tanto na
primeira como na segunda noite. Tentaram abrir o caixão mas foram
rechaçados pelos efeitos combinados dos lacre de chumbo e do culto
dos sacerdotes. Na terceira noite, contudo, um "horrendo espectro,
um diabo de forma gigantesca e de semblante malígno" apareceu
durante os últimos ritos e, ignorando o cântico frenético, berrou
que a mulher tinha de ir com ele. Uma voz feminina foi ouvida e
dizia que não se podia mover, pois estava bem segura no caixão
lacrado. Com um sopro o diabo varreu os sacerdotes para os lados,
rompeu as correntes e abriu o sepulcro. ... então, a figura tirou a
velha mulher do caixão ...
Magister Georgius Sabelius Faustus, como ele mesmo se apresentava viveu na Alemanha entre o final do século XV e começo do século XVI. Pouco se sabe sobre sua juventude e toda a sua biografia apresenta lacunas, períodos em ele simplesmente desaparece de cena. Porém, há registros históricos de que sua existência foi real. Em 1509, ele estava na Universidade de Heidelberg. Estudou Ciências Naturais na Polônia, tornou-se astrólogo e necromante ambulante, progrediu e, em 1520, estava na Corte de Jorge III, príncipe-bispo de Bamberg. Fausto era, então, "Astrólogo da Corte do Príncipe-Bispo.". Mas isso não durou. Em 1529 tinha mudado de emprego e endereço: era diretor de uma escola para rapazes em Nuremberg. Em 1532 foi expulso daquela cidade sob acusação de corrupção de jovens. A essa altura, Fausto assumia publicamente sua condição de feiticeiro. Em seu cartão de apresentação lia-se: "Fonte de Necromantes - Astrólogo - o Segundo dos Mágicos - Quiromante - Aeromante - Piromante - o Segundo em Hidromancia". Praticava magia como ofício e ganhava seu sustento fazendo horóscopos e outras vidências, vendendo filtros de amor e produzindo fenômenos "sobrenaturais". Não há dúvida de que era um estudioso das Ciências Ocultas e é realmente possível que tenha tentado recursos extremos para obter mais conhecimento. Entretanto, pagou alto preço pela sabedoria. Desde a Idade Média e mesmo durante a Renascença, era crença popular que os homens de muita ciência, os extraordinariamente inteligentes, eram, quase sempre, signatários de Pactos com o Diabo. No caso de Fausto, se já suspeitavam dele quando era vivo, depois de sua morte, violenta e misteriosa, espalhou-se rapidamente, na Alemanha a lenda do Dr. Faustus e seu Pacto com o Diabo. Em 1857, episídios de sua vida foram publicados em A História de Johann Faust ou O Livro de Fausto, autor anônimo, traduzido para várias línguas. A História Trágica da Vida e Morte do Dr. Fausto, peça teatral de Christopher Marlowe, estreou com sucesso em 1594. Nesta versão, Fausto, que decide fazer o Pacto porque deseja conhecer "todas as possibilidades da experiência humana" (GRANDES MISTÉRIOS, 1996 - p 292), arrepende-se mas não consegue se livrar do destino fatal e implora a Deus que seja abrandado seu futuro terrível: Ah! se minh'alma tem de sofrer por seus pecados Muitos outros textos foram escritos baseados na lenda de Fausto e, especialmente, os lucrativos manuais de magia, muito procurados pela plebe que acreditava estar adquirindo fórmulas originais do célebre feiticeiro. Os manuais continham instruções tanto para realizar o Pacto com o Diabo quanto artimanhas para quebrar este Pacto, escapando das garras do Malígno. Três séculos depois da morte do misterioso ocultista, Johann Wolgang Goethe publicava a edição completa do seu Fausto, drama em verso que levou trinta anos para ser elaborado. Em Goethe, Fausto é um herói que fez o Pacto em um momento irrefletido, em meio a sua intensa busca de sabedoria; e porque sua ambição era compreender o sentido da vida humana, consegue, no fim, se livrar do acordo maldito, ou seja, é redimido pela nobreza de sua motivação. Na música, o personagem inspirou a cantata em drama A Danação de Fausto, de Hector Berlioz e a ópera Fausto, de Charles Gounod. De todos os episódios fabulosos que se contavam sobre Fausto, o Pacto com o Diabo era o tema preferido dos "fuxicos" do povo. Diziam que o prazo de validade do "contrato" fora fixado em vinte e quatro anos. Fora por causa do Pacto que Fausto pudera adquirir conhecimentos de magia e um homem misterioso, que sempre o acompanhava sendo apresentado como "cunhado", na verdade, era Mefistófeles, demônio perverso encarregado de auxiliar e ao mesmo tempo vigiar as ações de Fausto. As circunstâncias da morte do bruxo confirmavam que o prazo havia terminado e Satanás, efetivamente cobrara a alma prometida. Fausto teria reagido; estava arrependido, porém não houve apelo que demovesse o Belzebuh que destruiu o infeliz de forma cruel: As paredes da Estalagem do Leão estremeceram
durante toda a noite. Guinchos, rugidos e um ruído surdo arrepiante
aterrorizaram a vizinhança e só com a primeira luz da manhã o dono
da estalagem se atreveu a bater na porta do quarto do estranho homem
conhecido por Fausto. Não obtendo resposta, o estalajadeiro,
tremendo, abriu a porta... e viu no chão, no meio da mobília
destruída, o corpo do famoso feiticeiro, torcido, horrivelmente
mutilado e desfigurado. Conta a lenda, que Mefistófeles fez questão de partir o pescoço do parceiro com as próprias mãos, e arrebatando-lhe a alma, entregou-a triunfante ao seu Mestre Supremo, Satanás, que imediatamente sujeitou o espírito amaldiçoado ao começo do que seria sua eterna condenação.
Os Pactos com o Diabo ainda existem embora crença e prática como essas pareçam absurdas aos espíritos medianamente esclarecidos dos dias atuais de pós-modernidade, alta tecnologia e conhecimentos mais avançados em Ciências Humanas. Renovado, adaptado aos dias atuais, a grande novidade dos Pactos Diabólicos contemporâneos são os humanos signatários. Na Antiguidade, Idade Média e Moderna eram intelectuais, ocultistas e feiticeiros de aldeia os principais interessados nestes contratos. Hoje, além dos supostos "magos" e místicos que se prestam a esse "papel", os casos que se destacam envolvem grandes estrelas dos midia, artistas em geral e, em especial, os músicos do Rock. Entretanto, esta associação entre sucesso musical e Pacto com o Diabo é mais começa bem antes, remonta à Lenda de Paganini ( 1782-1840 ), "O Violonista Maldito": Por causa das habilidades aparentemente inumanas
dele no violino, como também a sua figura cadavérica, alguns
ouvintes acreditaram que ele tinha vendido a alma ao diabo. Não só
era a sua ascensão européia rápida e a adulação vertiginosa que ele
inspirou em âmbito quase faustiano, mas um motivo ocorrendo
periodicamente em contos do povo europeu retrata o diabo como um
violinista. Várias caricaturas feitas de Paganini consistem nele
tocando o violino, alto e magro, com o cabelo desleixado, se
assemelhando a chifres. Hoje, vários cantores e bandas inteiras foram e são apontadas como sócios do Diabo na barganha tradicional: sucesso na carreira e faturamento alto em troca das almas dos contratantes. Entre as celebridades que possuem um Pacto com o Diabo em sua biografia folclórica são sempre mencionados, Robert Johnson (bluesman da década de 1930), as bandas Rolling Stones, Black Sabbath (em especial o vocalista, Ozzy Ousborne), Eagles, The Doors (cujo vocalista, Jim Morrison, casou com uma "bruxa" em ritual pagão), AC/DC e o escandaloso setentista Alice Cooper (segundo o próprio, seu nome artístico teria sido sugerido por espírito em uma mesa de Ouija) entre muitos outros nomes. HERDEIROS DE NAGASAKY A identificação do Rock com signos e/ou práticas demoníacas (satânicas) nasceu e se fortificou por causa dos aspectos estéticos e poéticos que caracterizam figuras, postura, discurso e misanscene (performance de palco e/ou em público) dos artistas do gênero. Os precursores do rock, expressavam, na música, o estado de espírito dos herdeiros de Hiroshima e Nagazaki, de uma humanidade desumana, pós-Segunda Guerra Mundial; uma juventude nillista e aterrorizada pelas notícias da guerra atômica e da guerra química. Uma horda de decepcionados emergiu daquele horror adotando valores que buscavam demonstrar seu enorme desprezo pela ordem social e política predominantes. Alguns vestiram túnicas leves, calçaram sandálias rústicas, cobriram de flores suas longas cabeleiras e disseram: "Paz e Amor!". Outros, vestiram-se de negro e metal, calçaram pesadas botas, rasgaram suas camisas e disseram: "Deus não existe" ou pior, "Deus é o Diabo!". Entre os "casos" de Pacto com o Diabo envolvendo personalidades do mundo Rocker, a "Lenda dos Beatles" e a biografia de Jimmy Page, líder da banda Led Zeppelin, são os mais destacados. Os BEATLES, com seus terninhos e cabelos colegiais, são apontados pelas interpretações de certos místicos com verdadeiras "Bestas do Apocalipse" (CAVALCANTI, 2005), cujo surgimento e ação malígna teria sido prevista em profecias. Alguns profetas, de fato, avisam que os filhos de Satanás virão ao mundo com a face dos anjos. Para muitos místicos apocalípticos, o sucesso espantoso do grupo foi o resultado de um Pacto Maldito e, ao fim das contas, teria custado a vida do pacifista John Lennon (SOARES MAYER, 2004). A publicização destes Pactos acontece por declaração dos artistas ou testemunhada (ou denunciada) por pessoas próximas, como empresários ou jornalistas. A ligação de JIMMY PAGE com grupos satanistas é mais explícita. O guitarrista e compositor do Led Zeppelin dedicou-se ao estudo da obra de Aleister Crowley. Comprou manuscritos, objetos pessoais e até a mansão Boleskine, às margens do Lago Ness, palco de rituais satânicos que consolidaram a fama de Crowley como "A Grande Besta: o homem mais perverso do mundo". (TABERNÁCULO.NET, 2001). Tal como teria acontecido com John Lennon, o preço da fama do Zeppelin foi cobrado nos termos característicos de Satã, em intensidade de dor: "A morte do baterista John Bonhan e freqüentes acidentes envolvendo os membros restantes são considerados por muitos, provas definitivas do pacto feito entre a banda e o demônio." [URL-cit].
SHARON TATE - O envolvimento dos Beatles com o satanismo ainda foi relacionado com outro episódio trágico: o Caso Sharon Tate. Na década de 1960, a cultura religiosa oriental virou uma espécie de moda que ganhou a simpatia de artistas famosos da música e do cinema, dos Estados Unidos e na Europa. Muitos desses artistas fizeram "retiro espiritual". Na Índia, a tribo Xamandú, além dos Beatles, recebeu o ator e diretor Roman Polansky e a atriz Mia Farrow. Aparentemente, experiência mística de Polansky resultou em sua adesão, na América, a uma seita demoníaca liderada por Charles Manson. É muito possível que o diretor estivesse em busca de elementos de composição e inspiração para a produção do filme O Bebê de Rosemary. Na trama, a jovem protagonista, Mia Farrow, espera um filho do Diabo depois de ser "negociada" pelo próprio marido, integrante de uma Igreja Satânica seguidora da dourina de Aleister Crowley. Coincidência ou não, algum tempo depois do lançamento do filme, quando a mulher de Polansky, a atriz Sharon Tate, anunciou sua gravidez adiantada, de oito meses, membros fanáticos do grupo de Manson assassinaram a jovem. Eles acreditavam que a artista esperava o filho do Diabo, como no filme, e arrependidos de suas práticas "heréticas", temendo a vinda do Anticristo, perpetraram o crime (CAVALCANTI, 2005). Aqui mesmo, no Brasil, com o avanço das "denominações evangélicas", igrejas cristãs que enfatizam a influência do Diabo no cotidiano das pessoas, publicam com freqüência, tanto em impressos quanto na internet, casos e depoimentos, de artistas e pessoas comuns relacionados a pactos demoníacos. Esses relatos, são tão numerosos e variados que já desbancaram a comunidade de Rockers na primazia dos contratos com Satã. Atualmente, Satanás, firma Pactos com todo tipo de gente: donas de casa, políticos, duplas sertanejas, sempre providenciando sucesso na carreira, nas finanças e no amor em troca da alma de seus clientes.
CRIANÇAS QUE CHORAM
Na internet, chama a atenção, o "Caso dos Quadros de Crianças que Choram", pinturas atribuídas ao artista italiano Bruno Amadio que teria assinado as obras com pseudônimos diferentes: G. Bragolin, Giovani Bragolin, B. Amadio ou simplesmente G.B.. Produzidas entre as décadas de 1980 e 1990, com réplicas espalhadas em todo o mundo, totalizando milhões de imagens (TABERNACULO.NET-SUBLIMINAR, 2004), as telas e suas cópias são consideradas amaldiçoadas pelo Demônio. O próprio Bragolin procurou a imprensa mundial para confessar que os quadros foram inspirados por Satanás e destinados ao sucesso de vendas graças a um pacto firmado com este fim. Diz a matéria publicada no site Tabernáculo: O autor destes quadros, há muitos anos atrás
resolveu ir ao programa "Fantástico", da Rede Globo, e revelar a
verdade oculta em seus quadros. Diz ele que nunca havia vendido um
quadro em sua vida e então resolveu fazer um pacto com as "forças do
mal", e que estes quadros trazia para dentro das casas das pessoas
que os adquirissem, muitos coisas negativas como maus presságios,
fluídos negativos, enfermidades. O autor então pediu que quem
tivesse estes quadros em casa que os destruissem, pois ele estava
arrependido do que tinha feito. Para ver o que os quadros trazem de
oculto basta virá-los ao contrário e ver as mais diversas mortes
...em muitos encontramos as crianças com as pupilas dilatadas, ou
seja, estavam mortas quando foram pintadas.
Em The Formicarius, Grimório ou Livro de Fórmulas "Mágicas" de 1435, encontramos uma descrição, das mais antigas e completas, de um Pacto com o Diabo (MONSTROUS.COM, 2004). É um ritual que pode ser feito sozinho ou em grupo, por vários interessados, todos dispostos a negar completamente o Deus de sua religião. A pessoa deve ir a uma Igreja (ou Templo) em um domingo pela manhã na primeira hora e, de preferência aquela, igreja que costumava freqüentar na infância. Ali, diante do altar-mor renunciará à crença e à submissão a Deus, ao Cristo e aos Santos e todos os dogmas da Igreja Católica Apostólica Romana (ou da Igreja a qual pertence, Protestante, por exemplo, ou templo Budista). Depois, prestará homenagens ao Demônio, beberá o sangue de uma criança sacrificada e expressará seu desejo de trocar a própria alma pela realização de determinados desejos com o auxílio dos poderes do Inferno. O Pacto tem prazo de validade durante o qual Satanás providenciará a satisfação do contratante. Findo prazo, a alma será cobrada e infalivelmente arrebatada pelo por uma corte de criaturas das trevas. Outra maneira de vender a alma ao Diabo, encontrada nos Grimórios mais comuns, consiste no seguinte ritual: 1. Providencie um pergaminho feito com a pele
do primeiro novilho que tenha nascido da primeira gestação de uma vaca
(o pergaminho pode ter sido usado antes, o importante é que seja a pele
de um novilho primogênito de primeira gravidez). 2. Escolha uma noite para a operação, de preferência entre a sexta e o sábado, ou entre quarta e quinta. Prepare o círculo mágico (muitos livros de magia contém as instruções de preparação do círculo da magia negra, como o traçado, signos e objetos). 3. Neste pergaminho, escreve-se e assina-se com com o próprio sangue o pacto redigido mais ou menos nestes termos: "Eu prometo, Oh! Grande Demônio!
4. Depois da assinatura, segure o documento e recite a "Invocação dos Demônios" (em geral, os trabalhos de magia negra são feitos com a face do operador voltada paar o Norte, "de onde vêm todas pragas") conforme transcrito abaixo: Oh! Lúcifer! Mestre e Imperador dos Espíritos
Rebeldes! Eu vos imploro que sejas favorável ao meu chamado em nome
destas grandes provas que realizei para obter de Vós que assineis
comigo este Pacto! Se neste momento o Diabo ainda não aparecer, o
operador insistirá proferindo com vigor palavras ou nomes provocativos
tais como: Por Aglon! Tetragramaton! Vaycheon! Stimulamathon! Erohares!
Retrasamathon! Clyoran! Icion! Esition! Existien! Eryona! Onera! Erasyn!
Moyn! Meffias! Soter! Por Emmanuel! Sabaoth! Por Adonai!!! Eu vos
ordeno: Aparece!
PACTO EM ELIPHAS LEVI
O ocultista Eliphas Levi, em Dogma e Ritual da Alta Magia, desaconselha, despreza e até ridiculariza práticas de magia negra encluindo o Pacto com Diabo. Não obstante, inclui em sua mais famosa obra comentário e descrição deste tipo de Pacto nos seguintes termos: Os evocadores do diabo devem, antes de tudo, ser da religião que admite um diabo criador e rival de Deus. Eis como procederá um firme crente na religião do diabo, para corresponder-se com seu pseudo-deus (falso-deus). [Em primeiro lugar Levi deixa claro que qualquer "diabo" é uma criação do operado, entidade composta de fluidos astrais provenientes das próprias emanações energéticas sutis do magista] Aquele que afirma o diabo, cria ou faz o diabo. Para ser bem sucedido nas e vocações infernais, é preciso ter: 1º - Uma teimosia invencível Eliphas Levi destaca a necessidade de renegar a Deus posto que o Diabo é o principal adversário do Criador. A fim de efetivar esse ato de rejeição, o autor enumera complexos procedimentos tais como: 1. PROFANAR as cerimônias do culto ou religião de origem e desrespeitar seus símbolos sagrados.2. JEJUM: durante quine dias fazer somente uma refeição, sem sal e depois do crepúsculo: "esta refeição será de pão preto e sangue temperados com molho, também sem sal, de favas pretas, ervas leitosas e narcóticas. 3. EMBEBEDAR-SE: A cada cinco dias, depois do crepúsculo, além da refeição, é preciso embebedar-se com vinho preparado com uma INFUSÃO feita com 5 cabeças de papoulas negras e cinco onças de linhaça triturada. Deixa-se descansar por cinco horas. A mistura deve, então, ser coada em uma toalha que tenha sido feita [ou que pertença a uma] por uma mulher, de preferência, prostituta. 4. DIAS DA EVOCAÇÃO: Os dias propícios para a evocação do demônio são: na noite de segunda para terça-feira OU na virada entre a sexta-feira e o sábado. 3. LOCAL DA EVOCAÇÃO: "É preciso procurar um lugar solitário e assombrado, tal como um cemitério freqüentado por maus espíritos, uma ruína temida, no campo, os fundos de um convento abandonado, o lugar onde foi cometido um assassinato, um altar druídico ou um antigo templo pagão." (LEVI, 1995 - p 346) 3. VESTIMENTA: É preciso prover-se de uma roupa preta, sem costuras e sem manchas; um gorro ou capuz em tom de chumbo ornamentado com os signos da Lua, Vênus e Saturno. O mago negro deve também providenciar: 3. OBJETOS E ACESSÓRIOS - 02 velas de sebo humano colocadas em candelabros de madeira negra cortados em forma de crescente lunar. (Implica acesso a uma vítima humana, um morto recente.) - 02 coroas de Verbena. - 01 ou A espada mágica, de cabo preto. - 01 ou A forquilha mágica. - 01 fogareiro tripé (três pés) - Um vaso de cobre contendo o sangue da vítima (de quem se extraiu o sebo). - PERFUMES: Os perfumes são preparados para queima no fogareiro que fica no altar do círculo mágico. Na invocação do Demo, o operador deve levar uma caixa contendo incensos de cânfora, aloés, ambar-pardo e estorague, misturados e homogeneizados com sangue de bode, sangue de poupa e sangue de morcego. - 04 cravos tirados do caixão de um supliciado. - CABEÇA DE UM GATO PRETO alimentado com carne humana durante cinco dias. - Um MORCEGO morto por afogamento em sangue. - Os chifres de um bode que tenha sido seviciado pelo operador (!!!) - O crânio de um parricida. - A pele da vítima imolada, que forneceu sangue e sebo.
Assim paramentado e e portando os objetos listados
acima e estando no local, data e hora apropriados o operador, sozinho ou
acompanhado de dois assistentes, deverá traçar o círculo mágico com a
ponta da espada deixando uma ruptura ou "ponto de saída". A pele da
vítima, cortada em faixas, devera ser disposta ao longo do círculo,
formando um segundo círculo que será fixado com os quatro cravos do
caixão de um supliciado. Per Adonai Elohim, Adonai Jeova, Adonai Sabaoth, Metraton On Agla Adonai Mathom, vérbum pythónicum, mistérium salamándrae, convéntus sylphórum, antra gnomórum, doemónia Coeli Gad, Almousin, Gibor, Jehosua, Evam, Zariatnatmik - Veni, veni, veni!!! A "receita" indicada por Eliphas Levi, embora pareça
algo inventado pelo pesquisador, de fato, está registrada em inúmeros
livros de magia negra, os Grimórios ou Engrimanços, manuais repletos de
fórmulas espetaculares e de difícil execução. Nos dias atuais estas
dificuldades são ainda maiores no que diz respeito à obtenção da maior
parte dos "ingredientes". Fica claro que um mago negro é alguém que tem
de ser pervertido o suficiente para se permitir a prática das mais
exóticas e inumanas aberrações e seu primeiro passo é tornar-se um
assassino, posto que precisa de uma vítima humana para obter boa parte
dos materiais que o pacto exige.
ROMPENDO O PACTO Fazer o Pacto com o Diabo, como se viu acima, é uma
operação bastante complexa e implica longa preparação física e mental. O
caminho contrário, romper o Pacto, é bem mais simples; não exige
substâncias exóticas, atos abjetos ou dispendiosos objetos. O
indispensável para anular o Pacto é simplesmente 1. a FÉ. Fé em
Deus, fé em uma inteligência justa diretora do Universo.; 2. um
arrependimento sincero em relação atos praticados sob a inspiração do
mal. No folclore árabe existe a história de um mercador que tendo prosperado infinitamente graças a um Pacto com Satanás, ao findar o prazo de desfrute do acordo, depois de muito pensar, decidiu tentar um último golpe para se livrar da dívida e preservar sua alma. No dia determinado, quando apareceu o Malígno a fim de efetuar sua cobrança, foi recebido com desafio irresistível: uma última aposta, um jogo de xadrez! Se o mercador conseguisse superar o Demo no tabuleiro, estaria livre; se, ao contrário, perdesse a partida, suas penas seriam redobradas. Exímio enxadrista, tanto quanto seu oponente, o mercador conduziu a partida até se colocar em total desvantagem, na iminência de receber o xeque-mate. Mais uma jogada e o demônio encerraria o jogo. Porém, ao observar a mesa, ao invés de fazer o movimento final da vitória, a criatura infernal, arreganhando seus dentes pontiagudos, tomada de intenso furor, levantou-se abruptamente e proferindo mil maldições desapareceu numa explosão deixando no ar um forte cheiro de enxofre. Tranquilo, delicadamente o mercador concluiu o jogo e movendo uma peça em xeque-mate, viu que, como previra, formava-se no tabuleiro a imagem de uma cruz. O Diabo e seus Pactos são extremamente vulneráveis diante de qualquer símbolo do bem apresentado com verdadeira fé.
CAVALCANTI, Bruno. O culto aos Beatles. In
www.protons.com.br |
pesquisa e
texto: Ligia Cabús (Mahajah!ck)
masterdesigner: Ligia Cabús
Mahajahck@hotmail.com | ligiacabus@uol.com.br
edição - setembro 2006