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PACTO COM O DIABO    

sumário

I. Introdução

II. Dados Históricos

III. São Cipriano

IV. Urbain Grandier

V. Feiticeira de Berkeley

VI. Fausto

VII. Caso Recente

VIII. Rituais: fazendo o pacto

IX. Bibliografia

 

 

 

 

INTRODUÇÃO

Pacto com o Diabo: este é um dos temas recorrentes do folclore ocultista e prática ou recurso muito procurado na magia popular, a feitiçaria ou bruxaria. A personificação do mal em uma entidade tangível, demônios, diabos etc., é uma atitude psicológica que aparece em culturas de todo o mundo, em todos os tempos e ainda hoje, tanto em sociedades primitivas quanto nas pós-modernas. Sendo "pessoa" acessível e adversário de Deus, supostamente dotado de "poderes sobrenaturais", o Diabo torna-se um parceiro atraente na lógica ignorante dos que recusam outras formas de encarar as negativas da vida. Quem procura "a fórmula" para fazer um Pacto com o Diabo em geral está sendo movido pelo desespero revoltado, nascido de uma "dor da alma" (injustiças que despertam anseio de vingança, por exemplo) ou é alguém motivado por desejos desenfreados voltados para os prazeres sensuais e valores materiais (sexo, gula, embriaguês, dinheiro, fama, poder).

DADOS HISTÓRICOS

A mais antiga referência escrita sobre Pacto com o Diabo encontra-se em textos apócrifos da teologia judaico-cristã. Um deste textos é A Vida de Adão e Eva, cuja versão conhecida, que data do século I d.C., apresenta um relato mais extenso do Genesis. Na Idade Média, inspiradas nestes livros clandestinos, circulavam histórias sobre os encontros entre Satanás, Adão e Eva depois do episódio da maçã. Neste período nebuloso da vida do primeiro casal encontra-se a origem do Pacto com o Demônio. O primeiro Pacto teria sido fruto das artimanhas do Malígno que conseguiu enganar Adão e convencê-lo a assinar um contrato de servidão aos poderes do Inferno. Existem três versões principais sobre o enredo de fatos que resultaram neste Pacto:

1. Adão, expulso do Eden, foi habitar as terras do Oriente Médio onde trabalhava no cultivo da terra; era um lavrador até que Satanás apareceu e usando de uma conversa maliciosa convenceu o homem de que era proprietário da Terra, posto que todos sabiam, Satan era o Rei das coisas do Mundo e assim, não permitiria que Adão continuasse cultivando suas lavouras sem uma devida paga. Então apresentou a Adão um contrato de servidão. Desta forma, o homem passou a ser escravo do Maligno até o advento do Salvador Jesus que resgatou todos os pecados e erros acumulados até então pela humanidade.

2. Na segunda versão, quando Adão e Eva foram expulsos do Paraíso era crepúsculo, anoitecia, e ambos não haviam ainda presenciado o fenômeno do anoitecer. A treva assustou o casal que julgou a escuridão como parte de sua punição pela queda em pecado. Aproveitando-se deste momento de medo e dúvida, Satanás convenceu Adão a assinar um contrato de servidão em troca da Luz. Quando Adão se deu conta de que a noite era um fenômeno comum e inofensivo quis desfazer o Pacto porém o Demônio riu-se dele e recusou-se a desfazer o acordo.

3. Finalmente, em um terceiro relato, Caim é o protagonista do Primeiro Pacto. O primogênito de Eva nasceria com um aspecto monstruoso, com duas cabeças de serpente. Durante a gravidez, ela sentia dores terríveis e soube que carregava no ventre algo que não era humano. Estava assustada quando Satanás apareceu e se ofereceu para curar Caim e aliviar seu sofrimento. O preço dos benefícios era a assinatura de Adão ou seu juramento de submissão ao Demônio por meio de um Pacto. Um bode foi sacrificado e da pele foi feito um pergaminho onde o Demo traçou os termos do contrato, escrevendo com o próprio sangue "Os viventes são de Deus, os mortos são meus!". Também Adão verteu seu sangue para assinar o Pacto. Cessaram as dores de Eva e Caim nasceu em forma humana. As serpentes, que o próprio Satan havia colocado na criança, Satan mesmo as alojou na águas do Rio Jordão com a missão de serem as guardiãs do Acordo Malígno. Milênios depois, quando Jesus foi batizado no Jordão, a humanidade se viu livre do compromisso maldito. Porém, Satanás apoderou-se do documento do Pacto e agora mantinha as almas da humanidade antes de Cristo aprisionadas no Inferno. Também a estes Jesus libertou quando, depois encerrado no sepulcro, desceu aos infernos e resgatou aqueles que ainda estavam na condição de espíritos escravizados.

 

Papa Silvestre II, o Mago  São Cipriano de Antióquia, o Feiticeiro  Catarina de Medicis, histórica praticante da Missa Negra

 

A "descoberta ou redescoberta" do Pacto com o Diabo, recuperado a partir destas lendas antigas, é creditado aos judeus das primeiras décadas da Era Cristã, quando alguns místicos criaram "receitas", rituais evocativos para "contactar Satanás" (GRANDES MISTÉRIOS, 1996). Entretanto, alguns dos mais famosos supostos "sócios do Demo" foram religiosos cristãos. O primeiro registro formal de um Pacto com o Diabo data de 538 (sec. VI a.C.) quando Teófilo, arcediago da Igreja Cristã, vendeu sua alma para recuperar seu prestígio social e eclesiástico, abalados por uma série de acontecimentos escandalosos. Diz a lenda que, mais tarde, o religioso se arrependeu e suplicou à Virgem Maria que o ajudasse a anular ou romper o Pacto, no que foi atendido, salvando sua alma por conta de um remorso sincero e interferência da misericórdia divina.

Ainda durante a Idade Média, também foram acusados de conchavos diabólicos, os Papas Honório e Silvestre II, cognominado "o Mago", cuja sabedoria e extraordinária inteligência, comentários do povo atribuíam a um "contrato com o Canhoto", além do célebre São Cipriano, de Antióquia, que antes de se converter ao cristianismo foi um feiticeiro conceituado que admitia abertamente dispor de poderes mágicos graças a um pacto com o Diabo.

Em meio à nobreza européia, entre o final do medievalismo e expansão da Renascença Moderna, monarcas como Henrique III e Catarina de Médicis, considerada a criadora da Missa Negra, teriam vendido suas almas ao Todo Poderoso dos Infernos. Entre os plebeus, destaca-se o caso da Bruxa de Berkeley que tomou cuidadosas providências rituais para o próprio funeral, sem sucesso, em uma tentativa de escapar do inferno e passar o "calote" no Demo. Na França, no período mais ativo da Caça às Bruxas (os), o caso do padre Urbain Grandier causou enorme sensação e terminou com o acusado na fogueira. Na Alemanha, a lenda do Doutor Fausto e do seu funesto Pacto com o Demônio permanece até hoje como uma das mais fascinantes histórias do folclore ocultista inspirando obras de arte na literatura, pintura e música. As mesmas suspeitas pairam sobre ocultistas como Paracelso, Cornelius Agrippa e mais recentemente (sec. XIX/XX), Aleister Crowley, que já foi considerado e que admitia ser "a Grande Besta, o homem mais perverso do mundo".

 

SÃO CIPRIANO DE ANTIÓQUIA

São Ciprinano, cognominado O Feiticeiro, para distigui-lo do também famoso Cipriano, Bispo de Cartago, nasceu em Antióquia, região entre a Síria e a Abissínia (atual Etiópia); a época era a segunda metade do século III d.C. (anos 200). Sua família, abastada, incentivou e patrocinou uma formação completa nas ciências da magia. Aos 30 anos, Cipriano se estabeleceu na Babilônia para aprofundar seus estudos em Astrologia. Ali, tornou-se discípulo de uma bruxa famosa, a Bruxa de Évora, cartomante, quiromante (leitura de mãos) e oniromante (leitura dos sonhos). Para obter poderes sobrenaturais, Cipriano iniciou-se também na Goethia, evocação de demônios e por fim, firmou um Pacto com o Diabo tornando-se um feiticeiro com capacidades fenomenais. Em sua biblioteca, além dos livros de estudo, havia apontamentos próprios que ele fazia em toda parte, inclusive nas paredes e além disso, um tesouro exclusivo de Cipriano: sua mestra morrera e, trancado em uma arca, ele possuía todo o conhecimento da Bruxa de Évora contido em cadernos e pergaminhos, memórias e anotações de uma vida inteira, uma herança para o mais destacado de seus alunos. Cipriano se sentia bem com suas crenças e desfrutava todos os prazeres que o dinheiro e o prestígio podiam proporcionar. Tudo isso mudou diante do "Caso Justina".

Justina era uma jovem cristã rica e bela. Embora educada no paganismo, na idolatria, tornou-se cristã por conta própria e converteu os pais, Edeso e Cledônia. Muito devota, consagrou-se totalmente ao Cristo Jesus, determinou-se a manter a virgindade e recusava casar. Vivia em retiro mas mesmo assim um homem apaixonou-se por ela. Seu nome era Aglaide. Tendo sido rejeitado como noivo, Aglaide resolveu apelar para a feitiçaria e procurou Cipriano a fim de obter a simpatia da donzela por meio das forças ocultas. O bruxo, não só desprezava o cristianismo como também se deleitava em ridicularizar os símbolos sagrados daquela religião bem como seus sacerdotes tendo, inclusive, se engajado em um movimento de perseguição aos fiéis. Diante do problema de Aglaide, aceitou prontamente fazer o "trabalho" e , de fato, empregou todos os seus conhecimentos e auxiliares diabólicos para enfraquecer e dominar a vontade determinada de Justina. Porém nada surtia efeito; os recursos iam se esgotando e Cipriano incomodava-se porque começava a desconfiar que não era suficientemente poderoso, ou não tanto quanto se achava ser. Atormentou a jovem com todo o tipo de armadilhas da sedução mental; falhando a sutileza, atacou enviando demônios que produziam terríveis visões. Mas Justina não se deixou intimidar sempre protegida por uma infinita fé na proteção de Jesus. Contra todas as investidas do Mago, usava somente um signo, fazia somente um gesto, o Sinal da Cruz. Furioso com aquele fracasso, Cipriano pediu contas ao Demônio e questionou:

- Pérfido, já vejo a tua fraqueza, quando não podes vencer a uma delicada donzela, tu, que tanto de jactas do teu poder de obrar prodigiosas maravilhas! Diz-me logo de onde procede esta mudança, e com que armas se defende aquela virgem para deixar inúteis os teus esforços?

Sem saída o demônio confessou que nada podia fazer contra a moça por conta do Sinal da Cruz que ela usava com uma fé profunda e inabalável. Justina não tinha medo e rechaçava qualquer ataque em nome de Jesus e este, era o Senhor de todas as coisas, dos Céus, da Terra e dos Infernos. Diante Dele, aos demônios, nada restava a fazer senão pôr-se em fuga.

- Pois se isso assim é - replicou Cipriano - eu sou bem louco em não me dar ao serviço de um senhor mais poderoso do que tu. E assim, se o sinal da cruz, em que morreu o Deus dos cristãos, te faz fugir, não quero mais servir-me dos teus prestígios, antes renuncio inteiramente a todos os teus sortilégios, esperando na bondade do Deus de Justina que haja de me admitir por seu servo.

Mas o demônio não desiste facilmente. Vendo que estava a perder tão valioso comparsa, tentou ainda apoderar-se do corpo de feiticeiro. Mas Cipriano estava completamente decidido e, fazendo o Sinal da Cruz, pela primeira vez, invocou a proteção do "deus de Justina". A Graça do Senhor desceu sobre ele e o malígno teve seus poderes anulados. Naquele momento, Cipriano rompeu o Pacto com o Diabo e dali em diante começou uma trajetória de duras provas que confirmaram sua fé em Jesus Cristo. Mais tarde, já como cristão converso e penitente, foi perseguido, preso e julgado pelo imperador Diocleciano sendo morto, depois de longos martírios, em 26 de setembro de 304, em sua cidade natal, Antióquia. Pela sua história de pecados e maravilhas, pela sua conversão e pelo suplício que padeceu em nome de Cristo, Cipriano virou o São Cipriano que se conhece hoje. Textos remanescentes do seu período satânico foram recuperados e reunidos nos famosos Livros de São Cipriano, cuja venda é anunciada em revistas femininas e exotéricas além de boa parte do conteúdo estar disponível em páginas da internet. São simpatias e bruxedos para obter sorte no amor, sucesso nos negócios e coisas do gênero.

 

 

PACTO DE GRANDIER

 

Urbain Grandier, foi o grande vilão do CASO DAS FREIRAS DE LOUDUN. Ele era a autoridade
superior daquela paróquia e andava envolvido em escândalos sexuais. Quando as freiras do
Convento de Loudun apresentaram sintomas de possessão, ou histeria, o padre foi acusado de
magia negra: o povo acreditava que ele era o responsável pelos fenômenos e o inquérito apurou
que Grandier estaria associado a dois demônios, Asmodeus e Zabulon, para produzir os ataques.
Sessenta testemunhas fizeram acusações de adultérios, sacrilégios e outros crimes cometidos
mesmo em recintos sagrados, dentro da Igreja. O processo de Urbain Grandier foi marcado por
contradições. Várias religiosas retiraram as denúncias e revelaram terem sido "instruídas" por
superiores. O réu afirmou sua inocência, mesmo submetido a torturas, e manteve esta posição até
o momento final, na fogueira. Nos meses seguintes à morte de Grandier, vários de seus acusadores
morreram vitimados por doenças misteriosas e as freiras continuaram a padecer de convulsões.


(HAINING, 1976 - p 106)

 

No processo jurídico-eclesiástico contra Urbain Grandier, acusado em 1633 de enfeitiçar as freiras de Loudun, consta que uma cópia do pacto, um documento escrito foi encontrado entre os papéis do réu, devassados depois de sua prisão. O costume de formalizar tais pactos por escrito foi instituído a partir do século XII (anos 1.100); até então, a maioria dos "acertos" com o Diabo era feita oralmente, na base da confiança mútua na palavra. O trato mais comum garantia que riquezas e honras seriam providenciados pelo Demo que, em paga, receberia a alma do feiticeiro depois de sua morte. O contrato estipulava um prazo para o desfrute das benesses; findo o prazo, o cobrador infalivelmente apareceria para cobrar o preço acertado. O "contrato" de Grandier ainda existe. Foi redigido em latim, da esquerda para direita, assinado com sangue, por mais de um demônio, e se encontra na Bibliothèque Nationale, em Paris. Diz o texto:

Meu Senhor e Mestre, tenho-o como meu Deus; prometo servi-lo enquanto viver e, desde esta hora, renuncio a todos os outros deuses e Jesus Cristo e Maria e todos os Santos do Céu e à Igreja Católica Apostólica Romana e a todo o bem e preces que possam ser feitos por mim. Prometo adorá-lo e prestar-lhe homenagem pelo menos três vezes por dia e fazer o máximo de mal possível e levar ao mal tantas pessoas quanto possível; renuncio de coração ao Cristo, ao batismo e a todos os méritos de Jesus Cristo; no caso de desejar mudar, dar-lhe-ei meu corpo e minha alma e minha vida como garantia, tendo entregue tudo isso para sempre sem qualquer vontade de arrependimento. Assinado: Urbain Grandier, com seu sangue. (HAINING, 1971)

 

Reprodução do Pacto de Grandier

O pacto é assinado por vários demônios e tais assinaturas foram 'reconhecidas' por especialistas durante o inquérito.

Na época da Caça às Bruxas, chegou-se mesmo ao registro em cartório de assinaturas demoníacas.

 

 

FEITICEIRA DE BERKELEY

Quando se fala na história dos Pactos com o Diabo, no Ocidente, a feiticeira de Berkeley é uma figura sempre lembrada, referência obrigatória pela originalidade de sua trajetória e desfecho fantástico de sua aventura. Esta mulher viveu na segunda metade do século XI (anos 1000) na pequena cidade de Berkeley, Inglaterra. Ao contrário das feiticeiras típicas do imaginário popular, a Senhora de Berkeley era bem conceituada em sua comunidade, mãe de família com muitos filhos e filhas, dois dos quais, os caçulas, eram dedicados à vida religiosa: o rapaz era monge e moça, freira. Além disso era uma mulher rica e caridosa embora fosse público e notório que dispunha de certos dons sobrenaturais. Em pleno período de repressão às modalidades de bruxaria, esta feiticeira conseguiu escapar de qualquer perseguição não obstante de sua fama de vidente capaz de ler o destino das pessoas na formação dos bandos de pássaros em vôo. Como animal de estimação, possuía um pequeno corvo.

Durante uma tarde, o corvo morreu nos braços da dona. Um enorme apreenção apoderou-se da feiticeira que então, teria exclamado, aterrorizada: "Acabou-se! Minha fortuna se foi e a desgraça, sem demora, deve já bater à minha porta." Nem bem dissera tais palavras e um mensageiro chegou afogueado trazendo péssimas notícias: uma fatalidade, um acidente estúpido acabava de matar todos os filhos da Senhora de Berkeley, com exceção dos dois religiosos. Foi a estes sobreviventes que ela confessou: todas as suas riquezas e boa sorte na vida deviam-se a um terrível Pacto que firmara com o próprio Diabo, em sua juventude. Ela tentou anular os efeitos futuros do pacto usando os poderes que o Diabo lhe dera para a prática do bem mas, tendo estudado magia, justamente porque buscava um meio de se salvar, percebera que não havia como desfazer o malígno contrato mas poderia tentar um ritual póstumo que impedisse Satanás de cobrar a dívida. A morte do Corvo (na verdade, um demônio) era o sinal de que o prazo do Pacto findara e logo, ela mesma encontraria a morte, ocasião combinada com Demo para a entrega do penhor prometido, seu corpo e sua alma. Para evitar tamanha desgraça, instruía os filhos sobre como proceder em suas cerimônias fúnebres a fim de tentar evitar o mal definitivo: a eternidade no Inferno! O complexo ritual consistia nas seguintes providências e práticas:

...deveriam costurar seu cadáver num couro de veado e colocá-lo num sarcófago de pedra lacrado com chumbo derretido e amarrado com correntes. Cinquenta sacerdotes deveriam rezar a missa pela sua alma enquanto outros cinquenta deveriam cantar nênias para a proteção de seu corpo. Tudo isso deveria durar três dias e três noites. Todas as instruções foram meticulosamente observadas mas ...um bando de demônios invadiu a igreja, tanto na primeira como na segunda noite. Tentaram abrir o caixão mas foram rechaçados pelos efeitos combinados dos lacre de chumbo e do culto dos sacerdotes. Na terceira noite, contudo, um "horrendo espectro, um diabo de forma gigantesca e de semblante malígno" apareceu durante os últimos ritos e, ignorando o cântico frenético, berrou que a mulher tinha de ir com ele. Uma voz feminina foi ouvida e dizia que não se podia mover, pois estava bem segura no caixão lacrado. Com um sopro o diabo varreu os sacerdotes para os lados, rompeu as correntes e abriu o sepulcro. ... então, a figura tirou a velha mulher do caixão ...
(HAINING, 1976 - p 26)

 

 

 

FAUSTO

Imagem: Eugène Delacroix
Faust, Tragèdie de Goethe
1st ed. 1828. Lithograph
IN http://www.upenn.edu/ARG/archive/print/print.html   

Magister Georgius Sabelius Faustus, como ele mesmo se apresentava viveu na Alemanha entre o final do século XV e começo do século XVI. Pouco se sabe sobre sua juventude e toda a sua biografia apresenta lacunas, períodos em ele simplesmente desaparece de cena. Porém, há registros históricos de que sua existência foi real. Em 1509, ele estava na Universidade de Heidelberg. Estudou Ciências Naturais na Polônia, tornou-se astrólogo e necromante ambulante, progrediu e, em 1520, estava na Corte de Jorge III, príncipe-bispo de Bamberg. Fausto era, então, "Astrólogo da Corte do Príncipe-Bispo.". Mas isso não durou. Em 1529 tinha mudado de emprego e endereço: era diretor de uma escola para rapazes em Nuremberg. Em 1532 foi expulso daquela cidade sob acusação de corrupção de jovens.

A essa altura, Fausto assumia publicamente sua condição de feiticeiro. Em seu cartão de apresentação lia-se: "Fonte de Necromantes - Astrólogo - o Segundo dos Mágicos - Quiromante - Aeromante - Piromante - o Segundo em Hidromancia". Praticava magia como ofício e ganhava seu sustento fazendo horóscopos e outras vidências, vendendo filtros de amor e produzindo fenômenos "sobrenaturais". Não há dúvida de que era um estudioso das Ciências Ocultas e é realmente possível que tenha tentado recursos extremos para obter mais conhecimento. Entretanto, pagou alto preço pela sabedoria.

Desde a Idade Média e mesmo durante a Renascença, era crença popular que os homens de muita ciência, os extraordinariamente inteligentes, eram, quase sempre, signatários de Pactos com o Diabo. No caso de Fausto, se já suspeitavam dele quando era vivo, depois de sua morte, violenta e misteriosa, espalhou-se rapidamente, na Alemanha a lenda do Dr. Faustus e seu Pacto com o Diabo. Em 1857, episídios de sua vida foram publicados em A História de Johann Faust ou O Livro de Fausto, autor anônimo, traduzido para várias línguas. A História Trágica da Vida e Morte do Dr. Fausto, peça teatral de Christopher Marlowe, estreou com sucesso em 1594. Nesta versão, Fausto, que decide fazer o Pacto porque deseja conhecer "todas as possibilidades da experiência humana" (GRANDES MISTÉRIOS, 1996 - p 292), arrepende-se mas não consegue se livrar do destino fatal e implora a Deus que seja abrandado seu futuro terrível:

Ah! se minh'alma tem de sofrer por seus pecados
Condede que termine essa dor incessante!
Permita que Fausto viva mil anos no inferno,
Cem mil anos! Mas que acabe por ser salvo.

Muitos outros textos foram escritos baseados na lenda de Fausto e, especialmente, os lucrativos manuais de magia, muito procurados pela plebe que acreditava estar adquirindo fórmulas originais do célebre feiticeiro. Os manuais continham instruções tanto para realizar o Pacto com o Diabo quanto artimanhas para quebrar este Pacto, escapando das garras do Malígno. Três séculos depois da morte do misterioso ocultista, Johann Wolgang Goethe publicava a edição completa do seu Fausto, drama em verso que levou trinta anos para ser elaborado. Em Goethe, Fausto é um herói que fez o Pacto em um momento irrefletido, em meio a sua intensa busca de sabedoria; e porque sua ambição era compreender o sentido da vida humana, consegue, no fim, se livrar do acordo maldito, ou seja, é redimido pela nobreza de sua motivação. Na música, o personagem inspirou a cantata em drama A Danação de Fausto, de Hector Berlioz e a ópera Fausto, de Charles Gounod.

De todos os episódios fabulosos que se contavam sobre Fausto, o Pacto com o Diabo era o tema preferido dos "fuxicos" do povo. Diziam que o prazo de validade do "contrato" fora fixado em vinte e quatro anos. Fora por causa do Pacto que Fausto pudera adquirir conhecimentos de magia e um homem misterioso, que sempre o acompanhava sendo apresentado como "cunhado", na verdade, era Mefistófeles, demônio perverso encarregado de auxiliar e ao mesmo tempo vigiar as ações de Fausto. As circunstâncias da morte do bruxo confirmavam que o prazo havia terminado e Satanás, efetivamente cobrara a alma prometida. Fausto teria reagido; estava arrependido, porém não houve apelo que demovesse o Belzebuh que destruiu o infeliz de forma cruel:

As paredes da Estalagem do Leão estremeceram durante toda a noite. Guinchos, rugidos e um ruído surdo arrepiante aterrorizaram a vizinhança e só com a primeira luz da manhã o dono da estalagem se atreveu a bater na porta do quarto do estranho homem conhecido por Fausto. Não obtendo resposta, o estalajadeiro, tremendo, abriu a porta... e viu no chão, no meio da mobília destruída, o corpo do famoso feiticeiro, torcido, horrivelmente mutilado e desfigurado.
(GRANDES MISTÉRIOS, p 288)

Conta a lenda, que Mefistófeles fez questão de partir o pescoço do parceiro com as próprias mãos, e arrebatando-lhe a alma, entregou-a triunfante ao seu Mestre Supremo, Satanás, que imediatamente sujeitou o espírito amaldiçoado ao começo do que seria sua eterna condenação.

 

PACTO HOJE

 

BEATLES: Capa do Album 

Sargeant Pepper´s Lonely Hearts Band Club, de 1967.

Entre as numerosas figuras que aparecem, 

foram identificados: Aleister Crowley, Charles Mason,

líder da seita satânica cujos membros assassinaram 

a atriz Sharon Tate e o próprio Diabo  Ozzy Ousborne, satanista ou não, ele sabe fazer cara de anjo rebelde.  

 

Os Pactos com o Diabo ainda existem embora crença e prática como essas pareçam absurdas aos espíritos medianamente esclarecidos dos dias atuais de pós-modernidade, alta tecnologia e conhecimentos mais avançados em Ciências Humanas. Renovado, adaptado aos dias atuais, a grande novidade dos Pactos Diabólicos contemporâneos são os humanos signatários. Na Antiguidade, Idade Média e Moderna eram intelectuais, ocultistas e feiticeiros de aldeia os principais interessados nestes contratos. Hoje, além dos supostos "magos" e místicos que se prestam a esse "papel", os casos que se destacam envolvem grandes estrelas dos midia, artistas em geral e, em especial, os músicos do Rock. Entretanto, esta associação entre sucesso musical e Pacto com o Diabo é mais começa bem antes, remonta à Lenda de Paganini ( 1782-1840 ), "O Violonista Maldito":

Por causa das habilidades aparentemente inumanas dele no violino, como também a sua figura cadavérica, alguns ouvintes acreditaram que ele tinha vendido a alma ao diabo. Não só era a sua ascensão européia rápida e a adulação vertiginosa que ele inspirou em âmbito quase faustiano, mas um motivo ocorrendo periodicamente em contos do povo europeu retrata o diabo como um violinista. Várias caricaturas feitas de Paganini consistem nele tocando o violino, alto e magro, com o cabelo desleixado, se assemelhando a chifres.
[PAGANINI, 2005]

Hoje, vários cantores e bandas inteiras foram e são apontadas como sócios do Diabo na barganha tradicional: sucesso na carreira e faturamento alto em troca das almas dos contratantes. Entre as celebridades que possuem um Pacto com o Diabo em sua biografia folclórica são sempre mencionados, Robert Johnson (bluesman da década de 1930), as bandas Rolling Stones, Black Sabbath (em especial o vocalista, Ozzy Ousborne), Eagles, The Doors (cujo vocalista, Jim Morrison, casou com uma "bruxa" em ritual pagão), AC/DC e o escandaloso setentista Alice Cooper (segundo o próprio, seu nome artístico teria sido sugerido por espírito em uma mesa de Ouija) entre muitos outros nomes.

HERDEIROS DE NAGASAKY

A identificação do Rock com signos e/ou práticas demoníacas (satânicas) nasceu e se fortificou por causa dos aspectos estéticos e poéticos que caracterizam figuras, postura, discurso e misanscene (performance de palco e/ou em público) dos artistas do gênero. Os precursores do rock, expressavam, na música, o estado de espírito dos herdeiros de Hiroshima e Nagazaki, de uma humanidade desumana, pós-Segunda Guerra Mundial; uma juventude nillista e aterrorizada pelas notícias da guerra atômica e da guerra química. Uma horda de decepcionados emergiu daquele horror adotando valores que buscavam demonstrar seu enorme desprezo pela ordem social e política predominantes. Alguns vestiram túnicas leves, calçaram sandálias rústicas, cobriram de flores suas longas cabeleiras e disseram: "Paz e Amor!". Outros, vestiram-se de negro e metal, calçaram pesadas botas, rasgaram suas camisas e disseram: "Deus não existe" ou pior, "Deus é o Diabo!".

Entre os "casos" de Pacto com o Diabo envolvendo personalidades do mundo Rocker, a "Lenda dos Beatles" e a biografia de Jimmy Page, líder da banda Led Zeppelin, são os mais destacados. Os BEATLES, com seus terninhos e cabelos colegiais, são apontados pelas interpretações de certos místicos com verdadeiras "Bestas do Apocalipse" (CAVALCANTI, 2005), cujo surgimento e ação malígna teria sido prevista em profecias. Alguns profetas, de fato, avisam que os filhos de Satanás virão ao mundo com a face dos anjos. Para muitos místicos apocalípticos, o sucesso espantoso do grupo foi o resultado de um Pacto Maldito e, ao fim das contas, teria custado a vida do pacifista John Lennon (SOARES MAYER, 2004). A publicização destes Pactos acontece por declaração dos artistas ou testemunhada (ou denunciada) por pessoas próximas, como empresários ou jornalistas.

A ligação de JIMMY PAGE com grupos satanistas é mais explícita. O guitarrista e compositor do Led Zeppelin dedicou-se ao estudo da obra de Aleister Crowley. Comprou manuscritos, objetos pessoais e até a mansão Boleskine, às margens do Lago Ness, palco de rituais satânicos que consolidaram a fama de Crowley como "A Grande Besta: o homem mais perverso do mundo". (TABERNÁCULO.NET, 2001). Tal como teria acontecido com John Lennon, o preço da fama do Zeppelin foi cobrado nos termos característicos de Satã, em intensidade de dor: "A morte do baterista John Bonhan e freqüentes acidentes envolvendo os membros restantes são considerados por muitos, provas definitivas do pacto feito entre a banda e o demônio." [URL-cit].

 

Jimmy Page, da banda Led Zeppelin  Sharon, vítima da ignorância.    

 

SHARON TATE - O envolvimento dos Beatles com o satanismo ainda foi relacionado com outro episódio trágico: o Caso Sharon Tate. Na década de 1960, a cultura religiosa oriental virou uma espécie de moda que ganhou a simpatia de artistas famosos da música e do cinema, dos Estados Unidos e na Europa. Muitos desses artistas fizeram "retiro espiritual". Na Índia, a tribo Xamandú, além dos Beatles, recebeu o ator e diretor Roman Polansky e a atriz Mia Farrow. Aparentemente, experiência mística de Polansky resultou em sua adesão, na América, a uma seita demoníaca liderada por Charles Manson. É muito possível que o diretor estivesse em busca de elementos de composição e inspiração para a produção do filme O Bebê de Rosemary. Na trama, a jovem protagonista, Mia Farrow, espera um filho do Diabo depois de ser "negociada" pelo próprio marido, integrante de uma Igreja Satânica seguidora da dourina de Aleister Crowley. Coincidência ou não, algum tempo depois do lançamento do filme, quando a mulher de Polansky, a atriz Sharon Tate, anunciou sua gravidez adiantada, de oito meses, membros fanáticos do grupo de Manson assassinaram a jovem. Eles acreditavam que a artista esperava o filho do Diabo, como no filme, e arrependidos de suas práticas "heréticas", temendo a vinda do Anticristo, perpetraram o crime (CAVALCANTI, 2005).

Aqui mesmo, no Brasil, com o avanço das "denominações evangélicas", igrejas cristãs que enfatizam a influência do Diabo no cotidiano das pessoas, publicam com freqüência, tanto em impressos quanto na internet, casos e depoimentos, de artistas e pessoas comuns relacionados a pactos demoníacos. Esses relatos, são tão numerosos e variados que já desbancaram a comunidade de Rockers na primazia dos contratos com Satã. Atualmente, Satanás, firma Pactos com todo tipo de gente: donas de casa, políticos, duplas sertanejas, sempre providenciando sucesso na carreira, nas finanças e no amor em troca da alma de seus clientes.

 

 

CRIANÇAS QUE CHORAM

   

A observação analítica dos quadros tem resultado em várias "visões" que revelariam
o caráter macabro das telas: crianças em momentos de dor, mutiladas ou mesmo mortas.

 

Na internet, chama a atenção, o "Caso dos Quadros de Crianças que Choram", pinturas atribuídas ao artista italiano Bruno Amadio que teria assinado as obras com pseudônimos diferentes: G. Bragolin, Giovani Bragolin, B. Amadio ou simplesmente G.B.. Produzidas entre as décadas de 1980 e 1990, com réplicas espalhadas em todo o mundo, totalizando milhões de imagens (TABERNACULO.NET-SUBLIMINAR, 2004), as telas e suas cópias são consideradas amaldiçoadas pelo Demônio. O próprio Bragolin procurou a imprensa mundial para confessar que os quadros foram inspirados por Satanás e destinados ao sucesso de vendas graças a um pacto firmado com este fim. Diz a matéria publicada no site Tabernáculo:

O autor destes quadros, há muitos anos atrás resolveu ir ao programa "Fantástico", da Rede Globo, e revelar a verdade oculta em seus quadros. Diz ele que nunca havia vendido um quadro em sua vida e então resolveu fazer um pacto com as "forças do mal", e que estes quadros trazia para dentro das casas das pessoas que os adquirissem, muitos coisas negativas como maus presságios, fluídos negativos, enfermidades. O autor então pediu que quem tivesse estes quadros em casa que os destruissem, pois ele estava arrependido do que tinha feito. Para ver o que os quadros trazem de oculto basta virá-los ao contrário e ver as mais diversas mortes ...em muitos encontramos as crianças com as pupilas dilatadas, ou seja, estavam mortas quando foram pintadas.
(FORNAZARI, 2004)

 

RITUAIS
fórmulas do pacto


 

 

 

 

Em The Formicarius, Grimório ou Livro de Fórmulas "Mágicas" de 1435, encontramos uma descrição, das mais antigas e completas, de um Pacto com o Diabo (MONSTROUS.COM, 2004). É um ritual que pode ser feito sozinho ou em grupo, por vários interessados, todos dispostos a negar completamente o Deus de sua religião. A pessoa deve ir a uma Igreja (ou Templo) em um domingo pela manhã na primeira hora e, de preferência aquela, igreja que costumava freqüentar na infância. Ali, diante do altar-mor renunciará à crença e à submissão a Deus, ao Cristo e aos Santos e todos os dogmas da Igreja Católica Apostólica Romana (ou da Igreja a qual pertence, Protestante, por exemplo, ou templo Budista). Depois, prestará homenagens ao Demônio, beberá o sangue de uma criança sacrificada e expressará seu desejo de trocar a própria alma pela realização de determinados desejos com o auxílio dos poderes do Inferno. O Pacto tem prazo de validade durante o qual Satanás providenciará a satisfação do contratante. Findo prazo, a alma será cobrada e infalivelmente arrebatada pelo por uma corte de criaturas das trevas.

Outra maneira de vender a alma ao Diabo, encontrada nos Grimórios mais comuns, consiste no seguinte ritual:

1. Providencie um pergaminho feito com a pele do primeiro novilho que tenha nascido da primeira gestação de uma vaca (o pergaminho pode ter sido usado antes, o importante é que seja a pele de um novilho primogênito de primeira gravidez).

COMENTÁRIO: Os ingredientes das fórmulas mágicas comuns sempre são objetos de difícil obtenção. Esta particularidade, tem por objetivo valorizar cada objeto ritual e a preocupação com estas coisas faz com que a mente do operador passe dias seguidos concentrada ou com idéia fixa na preparação do ritual e, por conseguinte, idéia fixa do desejo que se pretende alcançar.

2. Escolha uma noite para a operação, de preferência entre a sexta e o sábado, ou entre quarta e quinta. Prepare o círculo mágico (muitos livros de magia contém as instruções de preparação do círculo da magia negra, como o traçado, signos e objetos).

3. Neste pergaminho, escreve-se e assina-se com com o próprio sangue o pacto redigido mais ou menos nestes termos:

Imagem fonte: na página: SATANS HEAVEN 

www.satansheaven.com/pact_with_the_devil.htm

A Pact with the Devil and a Nobleman in Pignerole in 1676.

"Eu prometo, Oh! Grande Demônio!
Entregar minha alma a ti
ao final de sete anos como paga
por todas as coisas que fizerdes por mim.
ASSINATURA DO OPERADOR"

 

4. Depois da assinatura, segure o documento e recite a "Invocação dos Demônios" (em geral, os trabalhos de magia negra são feitos com a face do operador voltada paar o Norte, "de onde vêm todas pragas") conforme transcrito abaixo:

Oh! Lúcifer! Mestre e Imperador dos Espíritos Rebeldes! Eu vos imploro que sejas favorável ao meu chamado em nome destas grandes provas que realizei para obter de Vós que assineis comigo este Pacto!

Oh Príncipe Belzebú! Guiai-me para que eu possa dizer as palavras corretas!

Oh Nobre Astaroth! Sede-me propício, favorece minha causa nesta noite que dediquei ao Grande Demônio. Intercedei para que Satanás apareça a mim em forma humana e sem nenhum artifício de crueldade e destruição! Fazei com eu possa persuadir o Senhor da Maldade a me acolher como protegido em troca das promessas assinadas no documento deste pacto e que assim, d'hora em diante, possa Eu tudo obter em satisfação às minhas necessidades e desejos.

Oh! Grande Demônio! Diabolos! Satanás! Eu vos imploro que deixe agora sua morada, seja qual for a parte do Universo em que possas estar, e que venha, para comigo falar! Se assim não for, Eu o forçarei a fazê-lo pela força das palavras sagradas das Chaves de Salomão! Pelo poder que submete os Espíritos Rebeldes, eu obterei a aceitação deste Pacto!

Se neste momento o Diabo ainda não aparecer, o operador insistirá proferindo com vigor palavras ou nomes provocativos tais como: Por Aglon! Tetragramaton! Vaycheon! Stimulamathon! Erohares! Retrasamathon! Clyoran! Icion! Esition! Existien! Eryona! Onera! Erasyn! Moyn! Meffias! Soter! Por Emmanuel! Sabaoth! Por Adonai!!! Eu vos ordeno: Aparece!
Quando o demônio finalmente surgir, (se surgir), o operador deverá, então, solenemente, entregar o Documento do Pacto sem sair do Círculo Mágico sob nenhuma hipótese.
(WITCHES AND MONSTROUS.COM, 2004)

 

PACTO EM ELIPHAS LEVI

O ocultista Eliphas Levi, em Dogma e Ritual da Alta Magia, desaconselha, despreza e até ridiculariza práticas de magia negra encluindo o Pacto com Diabo. Não obstante, inclui em sua mais famosa obra comentário e descrição deste tipo de Pacto nos seguintes termos:

Os evocadores do diabo devem, antes de tudo, ser da religião que admite um diabo criador e rival de Deus. Eis como procederá um firme crente na religião do diabo, para corresponder-se com seu pseudo-deus (falso-deus).
[Em primeiro lugar Levi deixa claro que qualquer "diabo" é uma criação do operado, entidade composta de fluidos astrais provenientes das próprias emanações energéticas sutis do magista]

Aquele que afirma o diabo, cria ou faz o diabo. Para ser bem sucedido nas e vocações infernais, é preciso ter:

1º - Uma teimosia invencível
2º - Uma consciência ao mesmo tempo endurecida
no crime e muito acessível ao remorso e ao medo.
3º - Uma ignorância parente ou natural.
4º - Uma fé cega em tudo o que não é crível.
5º - Uma idéia completamente falsa de Deus. (LEVI, 1995)

Eliphas Levi destaca a necessidade de renegar a Deus posto que o Diabo é o principal adversário do Criador. A fim de efetivar esse ato de rejeição, o autor enumera complexos procedimentos tais como:

1. PROFANAR as cerimônias do culto ou religião de origem e desrespeitar seus símbolos sagrados.

2. JEJUM: durante quine dias fazer somente uma refeição, sem sal e depois do crepúsculo: "esta refeição será de pão preto e sangue temperados com molho, também sem sal, de favas pretas, ervas leitosas e narcóticas.

3. EMBEBEDAR-SE: A cada cinco dias, depois do crepúsculo, além da refeição, é preciso embebedar-se com vinho preparado com uma INFUSÃO feita com 5 cabeças de papoulas negras e cinco onças de linhaça triturada. Deixa-se descansar por cinco horas. A mistura deve, então, ser coada em uma toalha que tenha sido feita [ou que pertença a uma] por uma mulher, de preferência, prostituta.

4. DIAS DA EVOCAÇÃO: Os dias propícios para a evocação do demônio são: na noite de segunda para terça-feira OU na virada entre a sexta-feira e o sábado.

3. LOCAL DA EVOCAÇÃO: "É preciso procurar um lugar solitário e assombrado, tal como um cemitério freqüentado por maus espíritos, uma ruína temida, no campo, os fundos de um convento abandonado, o lugar onde foi cometido um assassinato, um altar druídico ou um antigo templo pagão."
(LEVI, 1995 - p 346)

3. VESTIMENTA: É preciso prover-se de uma roupa preta, sem costuras e sem manchas; um gorro ou capuz em tom de chumbo ornamentado com os signos da Lua, Vênus e Saturno. O mago negro deve também providenciar:

3. OBJETOS E ACESSÓRIOS

- 02 velas de sebo humano colocadas em candelabros de madeira negra cortados em forma de crescente lunar. (Implica acesso a uma vítima humana, um morto recente.)
- 02 coroas de Verbena.
- 01 ou A espada mágica, de cabo preto.
- 01 ou A forquilha mágica.
- 01 fogareiro tripé (três pés)
- Um vaso de cobre contendo o sangue da vítima (de quem se extraiu o sebo).
- PERFUMES: Os perfumes são preparados para queima no fogareiro que fica no altar do círculo mágico. Na invocação do Demo, o operador deve levar uma caixa contendo incensos de cânfora, aloés, ambar-pardo e estorague, misturados e homogeneizados com sangue de bode, sangue de poupa e sangue de morcego.
- 04 cravos tirados do caixão de um supliciado.
- CABEÇA DE UM GATO PRETO alimentado com carne humana durante cinco dias.
- Um MORCEGO morto por afogamento em sangue.
- Os chifres de um bode que tenha sido seviciado pelo operador (!!!)
- O crânio de um parricida.
- A pele da vítima imolada, que forneceu sangue e sebo.

 

Assim paramentado e e portando os objetos listados acima e estando no local, data e hora apropriados o operador, sozinho ou acompanhado de dois assistentes, deverá traçar o círculo mágico com a ponta da espada deixando uma ruptura ou "ponto de saída". A pele da vítima, cortada em faixas, devera ser disposta ao longo do círculo, formando um segundo círculo que será fixado com os quatro cravos do caixão de um supliciado.

DENTRO DO CÍRCULO, deverá ser traçado, também com a espada, um triângulo eqüilátero. Este triângulo deverá ser pigmentado com o sangue da vítima. O fogareiro deve ser colocado no vértice do triângulo qu estará voltado para o Norte. Na BASE DO TRIÂNGULO, serão traçados três círculos, que demarcam o lugar onde deve ficar o operador (no centro) e seus assistentes. Com o próprio sangue, atrás do seu círculo, o operador deverá traçar, o símbolo de Constantino - que é um grande "P" com o traço vertical cortado por um "X" (ver figura acima).

NOS pontos marcados pelos quatro cravos (pregos), fora do círculo, são colocados: a cabeça do gato, o crânio humano, os chifres do bode e o morcego. Tais objetos devem ser aspergidos com osangue da vítima. Depois, acende-se o fogo usando ramos de amieiro e cipestre. As duas velas são colocadas à direita e esquerda do operador, no centro das coroas de Verbena. Feito TUDO ISSO! o operador pronunciará as fórmulas de evocação, que são várias. Por exemplo, a Evocação do Grande Grimório Dragão Vermelho:

Per Adonai Elohim, Adonai Jeova, Adonai Sabaoth, Metraton On Agla Adonai Mathom, vérbum pythónicum, mistérium salamándrae, convéntus sylphórum, antra gnomórum, doemónia Coeli Gad, Almousin, Gibor, Jehosua, Evam, Zariatnatmik - Veni, veni, veni!!!

A "receita" indicada por Eliphas Levi, embora pareça algo inventado pelo pesquisador, de fato, está registrada em inúmeros livros de magia negra, os Grimórios ou Engrimanços, manuais repletos de fórmulas espetaculares e de difícil execução. Nos dias atuais estas dificuldades são ainda maiores no que diz respeito à obtenção da maior parte dos "ingredientes". Fica claro que um mago negro é alguém que tem de ser pervertido o suficiente para se permitir a prática das mais exóticas e inumanas aberrações e seu primeiro passo é tornar-se um assassino, posto que precisa de uma vítima humana para obter boa parte dos materiais que o pacto exige.

Supondo que este mago negro suje suas mãos cometendo o homicídio, ainda assim terá um exaustivo trabalho para conseguir elementos como gato, morcego, chifres de bode seviciado e o crânio de um parricida, coisa complicada porque não há parricidas mortos e conhecidos em pencas por aí. A execução de uma "fórmula" como essa é tão complexa e arriscada que antes convida a desistir e esquecer uma empreitada que, se não fosse tão macabra, seria certamente a página apoteótica de uma crônica da "Magia Ridícula" e não é de admirar que o Diabo apareça para quem se preste a produção deste "espetáculo"; afinal, alguém que faz tais coisas, se não é louco, é quase; e a loucura pode engendrar todo tipo de alucinação inclusive a ilusão perfeita de uma visão de Satanás.

 

ROMPENDO O PACTO

Fazer o Pacto com o Diabo, como se viu acima, é uma operação bastante complexa e implica longa preparação física e mental. O caminho contrário, romper o Pacto, é bem mais simples; não exige substâncias exóticas, atos abjetos ou dispendiosos objetos. O indispensável para anular o Pacto é simplesmente 1. a FÉ. Fé em Deus, fé em uma inteligência justa diretora do Universo.; 2. um arrependimento sincero em relação atos praticados sob a inspiração do mal.

As Lendas de São Cipriano e do arcediago Teófilo ilustram bem este fato. Cipriano, erudito e inteligente, ao perceber que o Sinal da Cruz impedia a ação de seus poderes demoníacos, deduziu de imediato que atrás do sinal havia uma doutrina-referência poderosa capaz de produzir uma auto-confiança inabalável, verdadeiro segredo de proteção contra feitiços de todo o tipo. Esta referência, que fortalece o campo energético protetor, no caso da vítima de Cipriano, era a vida do Chrestos Ocidental Jesus. Justina, a moça-alvo dos encantamentos do Mago de Antióquia, tornou-se invulnerável porque assumiu, pela fé, sua natural invulnerabilidade, em uma atitude que "fechou o seu corpo", ou seja, fechou o seu campo mental-espiritual para toda e qualquer influência externa. No caso do Bispo Teófilo, processo semelhante ocorreu: arrependimento sincero e fé inabalável no poder da Virgem Maria romperam o pacto. Diz a Lenda que certa tarde, em meio às orações na capela, onde havia várias pessoas, o pergaminho, documento-registro do Pacto, emanou de uma parede e, esvoaçando no aposento, foi parar nas mãos de Teófilo.

Santo Alphonso Maria de Ligouri (1696-1787) ensina como romper acordos com o Malígno ainda que assinados com sangue. O procedimento é simples:

1. Renunciar, abjurar, renegar qualquer pacto firmado com o Diabo, explicitamente, em declaração verbal íntima ou com testemunhas de confiança, de preferência um sacerdote.

2. Destruir todos os escritos, fórmulas, talismãs, objetos encantados etc. relacionados à magia negra.

3. Queimar o Pacto, se este foi registrado em documento escrito.

4. Restituir bens ou renunciar a todos os bens ou privilégios obtidos por intermédio do Pacto e compensar quaisquer pessoas prejudicadas por causa do Pacto em todos os casos em que isso for possível.

No folclore árabe existe a história de um mercador que tendo prosperado infinitamente graças a um Pacto com Satanás, ao findar o prazo de desfrute do acordo, depois de muito pensar, decidiu tentar um último golpe para se livrar da dívida e preservar sua alma. No dia determinado, quando apareceu o Malígno a fim de efetuar sua cobrança, foi recebido com desafio irresistível: uma última aposta, um jogo de xadrez! Se o mercador conseguisse superar o Demo no tabuleiro, estaria livre; se, ao contrário, perdesse a partida, suas penas seriam redobradas. Exímio enxadrista, tanto quanto seu oponente, o mercador conduziu a partida até se colocar em total desvantagem, na iminência de receber o xeque-mate. Mais uma jogada e o demônio encerraria o jogo. Porém, ao observar a mesa, ao invés de fazer o movimento final da vitória, a criatura infernal, arreganhando seus dentes pontiagudos, tomada de intenso furor, levantou-se abruptamente e proferindo mil maldições desapareceu numa explosão deixando no ar um forte cheiro de enxofre. Tranquilo, delicadamente o mercador concluiu o jogo e movendo uma peça em xeque-mate, viu que, como previra, formava-se no tabuleiro a imagem de uma cruz. O Diabo e seus Pactos são extremamente vulneráveis diante de qualquer símbolo do bem apresentado com verdadeira fé.

 

 

BIBLIOGRAFIA

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pesquisa e texto: Ligia Cabús (Mahajah!ck)
masterdesigner: Ligia Cabús
Mahajahck@hotmail.com | ligiacabus@uol.com.br
edição - setembro 2006