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SABEDORIA MILENAR
Gafanhoto
SABEDORIA MILENAR
A morte natural e a decrepitude refletem
o cansaço e o fim da paciência do espírito
em relação à monotonia repetitiva da vida.
L.C.

 

 


 

 

criaturas míticas
Sereias no Brasil

por Lygia Cabús

 

      

 

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SEREIAS. MITOS LENDAS E REALIDADES
 

 

Baltasar Ferreira mata um Ipupiara. Ilustração do livro História da Província de Santa Cruz, de Pero de Magalhães Gândavo.

 

 

 

No Brasil, o mito das sereias configurou-se pela mistura cultural dos povos que aqui conviveram, índios, brancos europeus e negros africanos, especialmente entre os períodos da Colônia e do Reino Unido a Portugal.

 

Antes da chegada das naus dos colonizadores os índios de Pindorama experimentavam uma religiosidade animista. Acreditavam que todos os fenômenos e criaturas da Natureza são dotados de Espíritos, individuais ou guardiões de uma categoria de seres. Todo o ambiente é povoado de entidades mágicas, metafísicas: espíritos das águas, dos céus, da terra, do fogo, dos animais. Espíritos da floresta.

 

Apesar da extensa costa brasileira, é sabido que os nativos não se aventuravam em águas oceânicas limitando-se, quando muito, a seguir a linha litorânea em toscas embarcações. Porém, conheciam muito bem a rede hidrográfica, a teia dos rios que funcionavam como estradas fluviais e fonte de alimento essencial da dieta ameraba: os peixes.

 

 

 

 

 

 

 

 



 

 

 

 

Mas os rios não eram apenas dádiva; eram também maldição, morada de perigos mortais. As águas eram habitadas por seres encantados. Entre eles, os ferozes e antropófagos Ipupiaras, monstro do sexo masculino. Nas palavras de Câmara Cascudo:

Ipú-piara, o que reside ou jaz na fonte; o que habita o fundo das águas.. gênio das fontes, animal misterioso, que os índios davam como homem marinhos [aquático], inimigos dos pescadores, mariscadores e lavadeiras. É um dos mais antigos mitos brasileiros... Em maio de 1560, o padre José de Anchieta escrevia: Há também nos rios outros fantasmas, a que chamam Igputiara, isto é, que moram n'água...  [CASCUDO, 2001  ̶  p 283]

 

Mas os rios Não é difícil perceber a relação entre o Ipupiara e a Iara, hoje, mais conhecida. Também chamada de Mãe-das-águas, a imagem deste ser encantado agrega qualidades do caráter violento, sanguinário dos Ipupiaras com a malícia sedutora das sereias européias da Idade Moderna. Em geral, as Iaras são de etnia branca ou indígena, seus cabelos são lisos e ao contrário do Ipupiara, as Iaras são belas. Como as gregas, elas cantam para atrair suas vítimas, quase sempre homens que ficam enfeitiçados pelo canto da sereia. Perdem a noção de si mesmos e se atiram em águas profundas para seguir a Iara.

 

O mito é morfologicamente europeu, do ciclo atlântico, posterior à poesia de Homero, para quem as sereias eram aves e não peixes cantando. [CASCUDO, 2001  ̶  p 348]

 

OXUM

Orixá, uma das esposas de Xangô, na África era uma deusa de águas doces ligada ao rio Oxum, Nigéria. Embora não seja representada como híbrida mulher-peixe, no Brasil, Oxum é a Iara negra, protetoras dos rios, dos lagos, das fontes, rainha das cachoeiras. Um leque ou espelho de latão a identifica: é o abebé [ou abedé].

Todavia, no contexto da mitologia afro-brasileira, Oxum é algo mais que apenas um ser encantado; é uma divindade. Não somente uma guardiã de águas doces, mas representativa de todo um conjunto de atributos entre os quais, a água potável, compondo uma rica alegoria: Senhora da Beleza, regente da fecundação, protetora do feto, Oxum também na essência da brisa fresca, da alegria, da fartura e da riqueza [BARCELLOS, 1991 - p 44].

 

 

 

 

mãe d'água  ̶  lenda do nordeste
O SONO DO RIO SÃO FRANCISCO

No curso do rio São Francisco [chamado Opará pelos indígenas], dizem os caboclos, barqueiros e pescadores, vive uma Mãe d'Água. Ela é a Senhora  daqueles 2 mil 830 km de extensão do rio que nasce na serra da Canastra no estado de Minas Gerais e vai desaguar muito adiante, lá para as bandas de Alagoas.  É difícil ver a sereia; ela pode aparecer em qualquer ponto do Velho Chico. O fato, porém, é que a Mãe d'Água gosta de emergir durante o sono do rio.

Porque o rio dorme. Todas as noites, à meia noite, ele adormece durante uns poucos minutos. A correnteza pára, as cachoeiras ficam estáticas, as cobras perdem o veneno, os peixes deitam-se no findo do rio. Surge, então, a Mãe d'Água, de preferência, procura uma canoa e ali, sentada, ocupa-se em pentear seus longos cabelos. Nessas ocasiões, os afogados podem deixar seu túmulo subaquático e seguir para o alto, para as estrelas.

Mas o sono do rio não pode ser perturbado. Para saber se o rio está dormindo, o barqueiro coloca um pedacinho de madeira, delicadamente, na superfície da água. Se a madeira ficar parada, é porque o São Francisco dorme e quem despertá-lo será castigado pelos habitantes das profundezas: peixes monstruosos, serpentes e os fantasmas que não puderam alcançar as estrelas naquela noite. Os que sobrevivem ao castigo do rio voltam à terra em deplorável estado: dementes, desmemoriados, enlouquecidos.

 

 

 

 

IEMANJÁ

Iemanjá ou Yemanjá, orixá [orisá] marinho, oceânico é, possivelmente, a divindade do panteão africano mais conhecida não somente através da religião afro-brasileira mas, também, por meio do sincretismo religioso afro-latino-americano. Seus signos são o leque e a espada. Sobre Yemanjá, escreve Cabús [2009]:

 

Yèyé omo ejá ─ "Mãe cujos filhos são peixes", sua mitologia é repleta de contradições: seria filha de Olokun, um deus do mar no Benin e casada com Orunmilá [Senhor das Adivinhações]; depois, casada com o rei de Ifé, com quem teria tido dez filhos. A versão mais popular apresenta Yemanjá como esposa de Oxalá e mãe de todos os orixás, símbolo da fecundidade. É a rainha das águas salgadas; seu império são os mares e oceanos do mundo. Usa um leque com espelho ou simplesmente um espelho, o Abebe [como Oxum], símbolo da sua vaidade feminina e do poder multiplicador das imagens, outra simbologia para a fertilidade. Também é relacionada à saúde mental. Quando Nanã abandonou Omolu na praia, foi Yemanjá que o recolheu, curou seus males e o criou como filho. Sua magia controla as Yabás, feiticeiras africanas. Em seus aspectos negativos personifica a dissimulação, a chantagem emocional, a vingança.

Tal como os deuses gregos ou os nórdicos, os deuses africanos experimentam ardentes paixões humanas. Apesar de ser casada, Yemanjá tem amantes mesmo entre os mortais. Seu amor é possessivo; se ultrajada, é vingativa e à semelhança das Iaras e outras sereias, Yemanjá arrasta os homens para o fundo do mar. 

No contexto do Candomblé, como religião afro-brasileira, Yemanjá figura em uma curiosa lenda que relaciona os orixás e o processo da escravidão no Brasil, a chamada Diáspora africana. Os tão diversos povos que foram escravizados não cruzaram o Atlântico órfãos de suas divindades. Com eles veio Oxaguian, o Oxalá jovem, que atravessou o oceano sobre o tronco de uma árvore. Na travessia, o maior dos deuses depois do Criador Olorun, conheceu Yemanjá. Da paixão de viagem resultou um filho: Ogunjá.

Nem todos os homens que são raptados por sereias morrem afogados; ao menos, não imediatamente. Os encantados têm o poder de tornar o ser humano capaz de respirar embaixo da água desde que isso interesse a seus propósitos. Quando Yemanjá captura uma pessoa o motivo pode ser amor, revolta ou ódio. A Rainha do Mar não gosta daqueles que não crêem em sua existência e não perdoa aqueles que, estando em seu território, no mar, debocham, fazem pouco da crença. Esses correm o risco de cair sem explicação de um barco ou navio ou de serem arrebatados por ondas furiosas; e desaparecem, tragados pelas águas.

Alguns dos descrentes, ao invés de serem mortos, vivem nas prisões dos palácios da deusa. Tornam-se zumbis submarinos, hipnotizados, escravos que Yemanjá utiliza para recolher os incontáveis presentes que recebe nas grandes festas que tantos povos realizam em sua homenagem. Todos os presentes são resgatados e guardados nas moradas majestosas que ela possui em todos os oceanos, em todo o mundo. Palácios feitos de cristal, ouro, prata, cercados de jardins onde plantas terrestres florescem magicamente.

 

 

 

 

 

fernando de noronha
A ALEMÃ DO MORRO DO PICO

 

Reduto de Santa Cruz do Morro do Pico [321m], praia da Conceição. Território do estado de Pernambuco, Fernando de Noronha é um arquipélago formado por 21 ilhas e ilhotas. Abrigou um presídio que funcionou de 1737 a 1942 sendo que, de 1938 em diante, recebeu somente presos políticos. Ali habita a Alemã ou, na língua do povo, a Alamoa. A palavra e a lenda, corruptela fonética de alemã, tem origem em Portugal. Por outro lado, também era uma idéia popular a de que pessoas louras são alemãs.

A Alamoa é considerada uma aparição, como um fantasma. Manifesta-se na luminosidade difusa que aparece no no alto do Morro do Pico em véspera de tempestade. Nua, bela, muito branca, loura, olhos azuis, ela dança na praia.

 

Alma penada, diz que está presa a um tesouro escondido, Procurar atrair algum homem que possa desenterrar a riqueza que jaz sepultada no alto do Morro. Todavia, amaldiçoada, não encontra nunca o tesouro e volta-se contra seu benfeitor, transformando-se em um espectro repugnante que agride, devora, enlouquece suas vítimas. Nem sempre é descrita como sereia mas Câmra Cascudo comenta: A Alamoa foi registrada por quantos visitaram o arquipélago... Mario Melo liga-a ao Pico escrevendo:

Uma delas [lendas] diz respeito ao Pico. No alto da baliza aparece uma luz peregrina  ̶   alma errante de linda francesa, algumas vezes encarnada em ser humano. Viram-na sentenciados [do presídio] aos quais a francesa lhes ofereceu um tesouro. Certo dia, um presidiário pescava sozinho ao escurecer. Sentiu presa no anzol. Ergueu a vara. Era o rosto da francesa em corpo de sereia. O pescador correu e a visão o chamou miserável por não ter querido desenterrar o tesouro [CASCUDO, 2002 - p 251].

      

 

 

 

 


 

 

 

 

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FONTES

BARCELLOS, Mário Cesar. Os orixás e a personalidade humana. 4ª ed  ̶  Rio de Janeiro: Pallas, 2007.

CABUS DO NASCIMENTO, Ligia. Guia dos Orixás, 2009. Disponível em: [http://mortesubita.org/jack/cultos-afros/teoria/guia-dos-orixas/view]. Acesso em 03/05/2010.

CASCUDO, Luís da Câmara. Geografia dos mitos brasileiros. 2ª ed.  ̶  São Paulo: Global, 2002.

RIBEIRO, Gonçalves. Lendas do Brasil. {coleção Cultura cívica brasileira, vol. 1). São Paulo: Forma, 1974.

 

 




      

 

edição: Sofä da Sala, maio de 2010
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