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Gafanhoto...
Do passado, uma pessoa pode guardar algumas heranças.
Porém, jamais guarde cadáveres esperando ressurreições. L.C.
Meditemos...

 

 


 

 

VAMPIRISMO 

por Lygia Cabus  

sumário

 

      

 

Introdução
I. Volta ao Mundo Vampírico
II. A Hipótese das Ciências naturais
III. Psicologia & Antropologia
IV. Identidade Vampiresca
V. O Vampirismo nas Ciências Ocultas
VI. Vampirismo & Larvas Astrais
VII. Vampirismo, Magia negra & Projeção Astral
VIII. Corpo Fechado: Defesa Contra o Vampirismo
IX. A Lenda do Conde Drácula
X. Índia: O Mito de Kali
XI. Vampiros na África
XII. Babilônia & Assíria

 

INTRODUÇÃO

 

As assombrações são filhas do medo, dizia Monteiro Lobato no seu clássico O Saci. Muito antes dele, o filósofo Giambattista Vico afirmara, em Ciência Nova: "O espanto é filho da ignorância" -  e acrescentava, em latim: "Primos in orbe deos facit temor"   ou, "o medo produziu os primeiros deuses do mundo."

 

Vampiros são como assombrações; não são deuses; assemelham-se mais aos demônios. Porém, deuses ou demônios podem ser quase a mesma coisa: todos integrantes da numerosa prole de SERES, ENTES, engendrada pelos temores e incompreensões dos humanos.

 

O vampirismo é um mito - uma narrativa tão antiga que sua origem se esconde na mesma bruma de fantasia onde se perdem as origens do homem. Apesar da tradição vampírica mais divulgada ser aquela que se refere às lendas romenas sobre o Conde Drácula, o fato é que registros de vampirismo remontam à Suméria, considerada a mais antiga civilização do mundo ocidental, e aparecem em mitologias de todo o globo, sob variadas roupagens culturais.

 

Vampiros com diferentes características, de diferentes etnias e épocas, apresentam ao menos um traço em comum: o apetite por energia,  (que aqui denominamos) ergonfagia, que se traduz ora em fome de sangue, ora em fome de energia vital. Neste ponto, convém destacar o fato de que o sangue é o signo físico, orgânico, da própria vida como força abstrata.

 

 

I. VOLTA AO MUNDO VAMPÍRICO

 

As lendas vampíricas possuem versões múltiplas: coloridos ou envoltos em capas negras, exóticos ou sóbrios mas sempre sinistros, há vampiros chineses, indianos, pré-colombianos, egípcios, árabes, gregos, africanos. Veja no quadro abaixo uma relação de algumas destas entidades:
 

INDIA - Baital, Rakshasa, a feiticeira vampira e os seguidores da magia negra da deusa Kali, os dakinis.
CHINA - Ch'iang Shih
ASSÍRIA - Ekiminus, espíritos malignos invisíveis e capazes de possuir humanos.
GRÉCIA - Lâmias, " (...) g�nios femininos que atacavam os jovens sugando-lhes o sangue." [1]
ROMA - Strigolius
TURQUIA - Goles
ÁFRICA - Asambossam
IRLANDA - Dearg-Dues
SÉRVIA - Vlokoslaks ou Mulos
BULGÁRIA - Krivopijac
POLÔNIA - Upiertzi
RÚSSIA - Viesczy
JAPÃO - Kalpas
ESCÓCIA - Buh-Van-She ou Boabhan Sith, uma sincr�tica fada-dem�nio.
ROMÊNIA, VALÃQUIA, CÁRPATOS - Nosferatu e Drakul
EUROPA MEDIEVAL - Succubus e Inccubus

 

[1] De acordo com o Dicionário de mitologia greco-romana. São Paulo: Abril Cultural, 1973.

 

Neste universo multifacetado de especimens vampirescos podemos distinguir duas categorias ontológicas, ou, dois tipos de ser. Há os vampiros demônios, ou seja, de origem não humana, predominantes no Oriente Médio, Extremo Oriente, Grécia e África.

 

A outra categoria provém de uma genealogia de matriz humana. São os mortos-vivos do leste europeu cujo representante mais destacado é o Conde Drácula seguido da bizarra figura do Nosferatu, este, criatura de complexa genética claramente pertencente da linhagem dos chamados filhos de Caim; os numerosos descendentes do assassino de Abel, hoje dispersos por todo o mundo e divididos em 13 CLÃS dos quais, somente nove são atualmente conhecidos. Cada clã possui caráter e fisiologia próprios. São eles:

1. Malkaviano
2. Nosferatu
3. Giovannes
4. Toreador
5. Gangrel
6. Brujah
7. Ventrue
8. Assamitas
9. Tremere

 

 

II. A Hipótese das Ciências Naturais

 

Para as ciências naturais, o vampirismo nada tem de fantástico ou sobrenatural. Reconhecendo a existência de distúrbios comportamentais relacionados ao desejo de ingerir sangue associado à fotofobia, os cientistas que vêem estudando o fenômeno, caracterizaram a PORFIRIA, doença raríssima cujos sintomas correspondem ao sinais característicos da fisiologia e metabolismo atribuídos aos vampiros.

 

Embora os primeiros estudos datarem do século XIX, somente em 1985, o pesquisador David Dolfin ousou associar publicamente a PORFIRIA ao vampirismo em tese apresentada à Associação Americana Para o Avanço da Ciência. Segundo Dolfin, como decorrência de desarranjos graves na produção de hemoglobina, o pigmento vermelho do sangue, no passado, por ignorância, vítimas ou parentes de vítimas da doença acreditaram que a ingestão de sangue pudesse aliviar o sofrimento durante as crises - os ataques de porfiria.

 

Uma crise aguda provoca sensações e reações metabólicas violentas como fortes dores abdominais e musculares, vômitos, tremores, espasmos, paralisias e perturbações dos sentidos podendo ocorrer transtornos de personalidade. O portador de porfiria não pode se expor ao sol. São fotossensíveis: a luz causa-lhes enrijecimento da epiderme, dor, surgimento de bolhas e edemas que demoram a sarar deixando cicatrizes e manchas desfigurantes.

 

O cientista e médico dermatologista belga, Jean Goens, observou pacientes que apresentaram distúrbios mentais que se traduziram em comportamentos anti-sociais, agressividade e busca de isolamento - a misantropia.

 

Com sintomas que tornam suas vítimas pessoas forçosamente tão excêntricas diante do que se chama de "levar uma vida normal" é natural que, no imaginário popular, ao longo de milênios, os portadores da porfiria fossem considerados como seres amaldiçoados ou mesmo demônios - tanto mais que a porfiria é um tema da saúde pouco divulgado pelos mídia e por sua raridade, é pouco conhecida e menos ainda reconhecida como doença pela medicina popular.

 

PORFIRIA: LINKS RELACIONADOS: USP

 

 

III. Psicologia & Antropologia

 

Enquanto médicos e bioquímicos investigam causas orgânicas para explicar a origem da idéia de vampirismo, antropólogos e psicólogos pesquisam o processo mental de humanização no qual se fez e se faz necessária a superação da selvageria através do recurso ao mito, sempre renovado, como forma de sublimação ou compensação para a repressão dos impulsos de agressividade bestial, próprios de animais da espécie humana. O mito, ou representação alegórico-simbólica do ato de brutalidade seria uma forma de substituir a prática da violência real.

 

O vampiro contemporâneo, estilizado em sua figura clássica, trajado a rigor, imperador em sua cripta e dotado de poderes mágicos, estes vampiros e toda a sua parentela de canibais e hematófagos que povoam o imaginário de terror do homens do nosso tempo, são todos eles herdeiros diretos de antropófagos neolíticos que acreditavam em devorar o inimigo como forma de se apropriar de suas qualidades físicas e espirituais mais nobres e sobretudo, como forma de se apropriar da própria essência da vítima, sua alma, sua vida, célula por célula, fóton por fóton.

 

Rituais de crueldade sanguinária foram praticados por todos os povos do mundo e em todas as épocas. O ritualístico derramamento de sangue é um traço chocante da trajetória cultural dos seres humanos.

 

Pela via da obrigação religiosa, do tributo aos deuses ou demônios, os sacrifícios humanos foram praticados na China, Japão, Índia, Mesopotâmia, Egito, Fenícia, Grécia, Roma, pelos povos pré-colombianos, pelos nativos da África, pelos aborígenes da Oceania e até pelos esquimós – que entregavam suas crianças e mulheres idosas à sanha dos ursos ou à impiedade do gelo.

 

Lentamente, pelo aperfeiçoamento do senso de ética, justiça e da ciência do direito no espírito humano, estes rituais foram abolidos da esfera pública e hoje pertencem ao universo do crime, punido severamente pelas leis penais em quase todo o planeta.

 

Entretanto, enterrados para a luz da sociedade civil, essa aberração psico-cultural resiste clandestina na religiosidade pervertida das inúmeras seitas que ainda praticam das mais grotescas às mais refinadas fórmulas da magia negra, fato que, infelizmente, podemos confirmar quando, vez por outra, tais atrocidades ocupam espaço nas editorias policiais dos nossos noticiários.

 

 

 

 

O vampiro toma
forma de animais,
como cães negros
de grande porte
e atitude
ameaçadora

 

 

 

 

 

 

 

Bela Lugosi,
o mais famoso
e excêntrico,
entre os Drácula
da ficção.

 

 

 

 

 

 

 

Neste cartaz de cinema,
Christopher Lee
é o vampiro que conduz
sua vítima para a Cripta.

 

 

 

 

XI. Vampiros na África

 

FONTE: VAMP HOUSE: ÁFRICA

 

Os povos da África, a despeito de sua mitologia, não são conhecidos pela sua crença em vampiros. Montague Summers, em sua pesquisa sobre o vampirismo em todo o mundo, nos anos 20, pôde encontrar somente dois exemplos: o asasabonsam e o obayifo. Desde Summers, muito pouco se tem feito para investigar o vampirismo nas crenças africanas.

 

O obayifo, desconhecido de Summers, era na realidade o nome Ashanti para um vampiro do Oeste africano que reapareceu sob nomes diferentes na mitologia da maioria das tribos vizinhas. Por exemplo, entre os dahomeanos, o vampiro era conhecido como o asiman. O abayifo era um bruxo que morava incógnito na comunidade.

 

O processo para se tornar um bruxo era uma tendência adquirida - não havia laços genéticos. Portanto, não havia meios para determinar quem seria um bruxo. Secretamente, o bruxo era capaz de deixar seu corpo e viajar à noite como uma reluzente bola de luz. Os bruxos atacavam as pessoas - e sugavam seu sangue. Tinham também a habilidade de sugar o suco de frutas e legumes.

 

O asasabonsam era uma espécie de monstro vampírico encontrado no folclore dos povos ashanti de Ghana, na África ocidental. Na breve descrição fornecida por Sutherland Rattray, o asasabonsam tinha aparência humanóide e dentes de ferro. Morava nas profundezas da floresta e raramente era encontrado. Ficava no topo da árvores e balançava suas pernas, usando seus pés em forma de gancho para capturar pessoas desprevenidas que passassem por perto.

 

Trabalhando entre tribos do Rio Níger, na área do delta, Arthur Glyn Leonard constatou que os bruxos saíam de suas casas à noite para se reunir com demônios e para tramar a morte dos vizinhos. A morte se dava ao "sugar gradativamente o sangue das vítimas através de um meio invisível e sobrenatural, cujo efeito era imperceptível aos outros".

   

 

 

 

 

 

 



 

 

 

 

 

 

 

 

 



 

 

 

Entre os Ibo, acreditava-se que o processo de sugar o sangue era feito de uma maneira tão habilidosa, que a vítima sentia dor mas era incapaz de perceber sua causa física, mesmo sabendo que no final o resultado seria fatal. Leonard acreditava que a bruxaria era, na realidade, um sistema muito sofisticado de envenenamento (como o era na Europa Medieval, uma certa dosagem de magia).

 

P. Amaury Talbot, trabalhando entre as tribos da Nigéria, descobriu que a bruxaria era uma influência permeável e que a força mais temível atribuída aos bruxos era a de "sugar o coração" das vítimas sem que estas soubessem o que estava acontecendo. O bruxo podia sentar no telhado, à noite, e realizar sucção através de forças mágicas. Uma pessoa que estivesse morrendo de tuberculose era tida muitas vezes como sendo vítima dessa bruxaria.

 

Entre os povos Yakö, da Nigéria, Daryll Forde descobriu a crença de que bruxos desencarnados atacavam as pessoas enquanto elas dormiam à noite. Podiam sugar seu sangue, e úlceras, acreditava-se, eram um sinal do ataque. Podiam operar como um incubus/succubus e sufocar as pessoas deitando em cima delas.

 

A questão de bruxaria era invocada por qualquer pessoa que estivesse em condição de sofrimento, e qualquer pessoa acusada era tratada severamente por meio de julgamentos das privações. Geralmente as mulheres estéreis ou na fase da pós-menopausa estavam mais sujeitas às acusações. Não era incomum sentenciar à morte pelo fogo uma bruxa declarada culpada.

 

Melville Herskovits e sua mulher Frances Herskovits conseguiram relacionar um bruxo/vampiro, cuja existência foi reconhecida pela maioria das tribos africanas ocidentais, às figuras vampíricas encontradas no Caribe, o loogaroo do Haiti, o asema do Suriname e o sukuyan de Trindad.

 

Esses três vampiros são virtualmente idênticos, embora fossem encontrados em colônias inglesas, holandesas e francesas. A crença nos vampiros parece ser um exemplo óbvio de uma aceitação comum levada da África pelos escravos que persistiu a por décadas de escravidão até o presente.

 

Mais recentemente, John L. Vellutini, editor do Journal of Vampirology, aceitou o desafio de investigar toda a questão do vampirismo na África. Os resultados de suas descobertas estão resumidos em dois longos artigos. Como no caso dos pesquisadores anteriores, Vellutini encontrou escasso material sobre o vampirismo no continente africano.

 

Todavia, argumentou que, sob a superfície das crenças africanas sobre bruxaria, muito material análogo ao da Europa oriental ou ao do vampiro eslavo poderia ser encontrado. As bruxas eram vistas como figuras poderosas na cultura africana, com inúmeros poderes, inclusive a habilidade de se transformar em uma variedade de formas animais.

 

Usando seus poderes, dedicavam-se ao ato de canibalismo, necrofagia (isto é, alimentar-se de cadáveres) e vampirismo. Essas ações constituíam atos de vampirismo psíquico, mais do que perniciosidade física. Thomas Winterbottom, por exemplo, trabalhando em Serra Leoa, em 1960, assinalou:

 

Uma pessoa assassinada pela bruxaria deve morrer dos efeitos de um veneno administrado secretamente ou pela infusão desse veneno no seu sistema pela bruxa; ou, então, esta última deve assumir a forma de algum animal, como um gato ou um rato, o qual durante a noite, suga o sangue por uma ferida pequena e imperceptível, através da qual uma doença prolongada e a morte serão produzidas.

 

Com resultados similares, o abayfo, uma bruxa ashanti, suga o sangue das crianças enquanto voa em seu corpo espiritual, durante a noite. Entre os povos Ga, M. J. Field descobriu que as bruxas se reuniam em volta de um baisea, uma espécie de pote, que continha sangue de suas vítimas - embora qualquer pessoa que olhasse para dentro do pote pudesse ver apenas água. Aliás, acreditava-se que o líquido continha a vitalidade de suas vítimas.

 

Quando uma pessoa era acusada de bruxaria, ele ou ela eram colocados em privação para determinar a culpa, e se fossem declarados culpados, eram executados. Os métodos adotados por certas tribos eram estranhamente parecidos com os métodos aplicados a vampiros suspeitos na Europa oriental.

 

 

Por exemplo, certa tribo iniciava a execução pela extração da língua, que era afixada ao queixo com um espinho (evitando, dessa forma, que pragas finais fosse endereçadas aos executantes). O bruxo ou bruxa eram então mortos a pauladas com uma vara afiada. Em algumas ocasiões, a cabeça era separada do corpo e este queimado ou largado na mata para os predadores.

 

Associados ainda de maneira mais próxima às práticas da bruxaria européia eram os esforços para verificar se a pessoa morta era uma bruxa. O corpo da bruxa acusada era levantada do chão e examinado, procurando-se sinais de sangue no local da cova, integridade e inchação anormal do corpo.

 

A cova de uma bruxa verdadeira teria um buraco no chão, que ia do corpo até a superfície, para que ela pudesse usar a saída no forma de morcego, rato ou outro pequeno animal. Acreditava-se que a bruxa poderia continuar a operar após sua morte e que o corpo permaneceria como no dia da morte. Ao se destruir o corpo, o espírito não poderia continuar sua atividade de bruxaria.

 

As bruxas também tinham o poder de ressuscitar os mortos e de capturar os espírito em retirada, que era transformado em fantasma, capaz de atormentar os parentes do falecido. Havia também uma crença bastante difundida na África ocidental o isithfuntela (conhecido por nomes diferentes por diversos povos), isto é, o corpo desenterrado de uma pessoa escravizada pelas bruxas para realizar as suas vontades. Dizia-se que a bruxa cortava a língua da pessoa e enfiava um pino através do cérebro da criatura para que se parecesse com um corpo reavivado. Esse isithfuntela, da mesma forma, atacava as pessoas pelo hipnotismo e enfiavam um pino em suas cabeças.

 

Velluti concluiu que os africanos compartilhavam a crença com os europeus sobre a existência de uma classe de pessoas que podiam desafiar a morte e exercer uma influência maligna a partir do túmulo. Como os vampiros europeus, os vampiros africanos eram muitas vezes pessoas que morreram desafiando as normas da comunidade ou pelo suicídio. Ao contrário dos vampiros literários, os vampiros africanos eram tão-somente pessoas comuns, como os vampiros da Europa oriental.

 

Velluti especulou que as crenças africanas nas bruxas e na bruxaria talvez tenham se espalhado pelo resto do mundo, embora os antropólogos e os etnólogos não tenham encontrado essas crenças senão no século XIX. Embora perfeitamente possível, pesquisas adicionais e comparações com as provas para teorias alternativas, tais como as propostas por Devendra P. Varma para a origem asiática das crenças em vampiros precisavam ser completadas antes que se chegue a um consenso.

 

FONTE: VAMP HOUSE: ÁFRICA

 


 

 

Lilith, arqueológica figura mítica da Bíblia apócrifa, ancestral
dos clãs vampíricos.

 

 

 

 

 

A Filha de
Drácula. filme de
1936.

 

 

 
 

 

 

Vampirela, a mais famosa e sexy entre as versões femininas
do ser
vampiresco.
 

 

 
 

 

 

XII. Babilônia & Assíria

 

-
FONTE: VAMP HOUSE: MESOPOTÂMIA

 

Os escritos da antiga Mesopotâmia (as terras entre os vales dos rios Tigre e Eufrates, hoje Iraque) foram descobertos e traduzidos durante o século XIX. Indicavam o desenvolvimento de uma mitologia elaborada e um universo habitado por um legião de divindades de maior ou menor expressão. Desse vasto panteão dedicado aos deuses, o equivalente mais próximo do vampiro na antiga Mesopotâmia foram os sete espíritos malignos descritos num poema citado por R. Campbell Thompson, que começa com a linha, "Sete eles são! Sete eles são!".

Espíritos que diminuem o céu e a terra,
Que diminuem a terra
Espíritos que diminuem a terra,
Com força gigantesca,
Com força gigantesca e gigantesco pisar
Demônios (como touros bravos, grandes fantasmas),
Fantasmas que invadem todas as casas,
Demônios que não têm vergonha,
Sete eles são!
Sem nenhum cuidado,
pulverizam a terra como milho;
sem perdão, investem contra a humanidade,
Vertem seu sangue como a chuva,
devorando sua carne e sugando suas veias.
São demônios repletos de violência,
devorando sangue sem cessar.

 

Montague Summers sugeriu que os vampiros tivessem um lugar proeminente na mitologia da Mesopotâmia, além das crenças nos sete espíritos. Mencionou, em particular, o ekimmu, o espírito de uma pessoa não-sepultada. Baseou seu caso no exame da literatura concernente ao Netherworld (Mundo Inferior), a casa dos mortos.

 

O Netherworld era retratado como um local um tanto lúgubre. Todavia, a vida de um indivíduo poderia ser melhorada consideravelmente se ao fim de sua existência terrena recebesse um sepultamento adequado e simples que incluísse o cuidado afetuoso com o cadáver. Ao final da lâmina 12 do famoso épico Gilgamesh (ou Gilgamish), havia uma relação dos vários graus de conforto para os mortos. Terminava com várias parelhas de versos relativos ao estado da pessoa que morreu só e sem sepultamento, que Summers citou como sendo:

 

O homem cujo corpo jaz no deserto
Vós e eu já vimos um assim
Seu espírito não jaz na terra;
seu espírito não tem alguém que dele cuide
Vós e eu já vimos um assim
Os sedimentos da vasilha - as sobras do festim,
e o que é jogado na rua é o seu alimento.

 

O verso-chave nessa passagem é Seu espírito não jaz na terra, que Summers interpretou dizendo que os espíritos dos que morreram sós (isto é, ekimmu) não poderiam entrar para o Netherworld e assim eram condenados a vagar pela Terra. Ligou, então, essa passagem a outras relativas ao exorcismo de fantasmas e citou em detalhe vários textos que enumeravam os diversos fantasmas que tinham sido vistos. Todavia, os fantasmas eram variados, como diz um dos textos:

 

 

O espírito maligno,
o demônio maligno,
o fantasma maligno,
o demônio maligno
Da Terra vieram eles;
do submundo
ao mundo dos vivos vieram eles
No céu são desconhecidos
Na Terra são incompreendidos
Não ficam em pé e não se sentam,
Não comem nem bebem.

 

Parece que Summers confundiu a questão dos que retornam após a morte e que poderiam se tornar em vampiros com os fantasmas de mortos que simplesmente voltariam para assombrar o mundo dos vivos. Os fantasmas eram simplesmente incorpóreos - não comiam nem bebiam - ao passo que os mortos do submundo tinham uma forma de existência corporal e se deleitavam com alguns prazeres.

 

A fonte dessa confusão foi a tradução inadequada das últimas partes do épico Gilgamesh. O verso O espírito não jaz na terra foi originalmente traduzido de maneira a deixar aberta a possibilidade de os mortos vagarem pelo mundo dos vivos. Todavia, traduções mais recentes e uma pesquisa no contexto dos dois últimos versos do épico Gilgamesh deixam claro que os mortos que morreram no deserto sem cuidados (o ekimmu) vagaram sem descanso não na Terra, mas através de Netherworld. A tradução de David Ferry, por exemplo, proporcionou a seguinte interpretação:

 

E ele, cujo o cadáver foi atirado sem sepultura?
Ele vaga sem descanso pelo mundo lá embaixo
Aquele que vai para o Netherworld
sem deixar para trás quem possa velar por ele?
Lixo é o que ele come no Netherworld.
Nem um cachorro comeria o que ele precisa comer.

 

A idéia de que vampiros existissem de fato na Mesopotâmia, não era tão óbvia quanto nos indica Summers. Todavia, Summers não deve ser castigado em demasia pelo seu erro, porque mesmo o eminente estudioso E. A. Wallis Budge cometeu erro semelhante em seu breve comentário sobra a lâmina 12, em 1920:

 

Os últimos versos da lâmina parecem dizer que o espírito do homem não-enterrado repousa igualmente na Terra e que o espírito do homem sem amigos vaga pelas ruas comendo restos de comida, despejados das panelas.

 

Todavia, nem Budge nem E.Campbell Thompson, que Summers cita diretamente, cometeram o erro de empurrar os textos na direção da interpretação de vampirismo.

 

      

 


      

 

edições: Sofä da Sala
JULHO 2012/2016

pesquisa - seleção de textos
adaptação e comentários: Lygia Cabus

ligiacabus@gmail.com

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