HISTÓRIA, ARQUEOLOGIA & ANTROPOLOGIABLOG  SOFÄ DA SALA | BLOG BRAZIL WEIRD NEWS

 


            



 

 

 

crônicas da feitiçaria
SABER, O PECADO ORIGINAL

GAGE, Matilda Joslyn. Woman, Church and State - cap. V. - Witchcraft, 1923

[www.sacred-texts.com/wmn/wcs/wcs07.htm]

trad. & adaptação: ligiacabus@uol.com.br
LINK RELACIONADO: O SABÁ DAS FEITICEIRAS

 

      

 

 

No estudo os anos da macabra caça às bruxas em territórios europeus, nos relatos dos julgamentos, é evidente o traço da corrupção da justiça, dos homens e da Igreja. A chacina de cidadãos não foi apenas uma histeria religiosa, um terrível engano fruto de ignorância e superstição.

 

A Inquisição serviu a propósitos muito pessoais daqueles que ganhavam dinheiro com a indústria dos processos e dos confiscos. Muitos dos condenados como bruxos foram eram pessoas que detinham saberes superiores àqueles que a Igreja-Estado podia oferecer diante dos problemas do povo.

Especialmente mulheres, que trabalhavam como curandeiras no sentido estrito da palavra, ou seja, porque tinham o conhecimento dos recursos necessários para curar moléstias diversas; essas foram proibidas de exercer suas habilidades.

 

O conhecimento útil e superior dessas mulheres [e de homens também], conhecimento oriundo de fonte suspeita posto que fonte pagã, aquilo era uma afronta à autoridade absoluta pretendida pela Igreja. A sabedoria daquelas mulheres era uma sabedoria maldita, coisa que não era de se estranhar posto que o pecado entrou no mundo pela mão da mulher, ela! que aceitou comer o fruto do Conhecimento.

 

Sobretudo o conhecimento do se entendia como magia precisava ser monopolizado pela Igreja por conta do poder que proporciona a quem o possui. Aliás, o cristianismo trouxe junto com a doutrina do amor incondicional a reivindicação ser o único poder verdadeiramente legítimo autorizado a fazer milagres.

 

Não é de se estranhar que Papas e outros eclesiásticos tenham tido seus nomes ligados à bruxaria. Até porque, enquanto a plebe ignara [povo ignorante] chamava de bruxaria a todo poder que consideravam sobre-humano, sobrenatural, os intelectuais da Igreja sempre souberam que a palavra magia, em sua origem, foi um sinônimo de ciência.  

 

Ciência Antiga

 

Todos os cientistas da Antiguidade histórica foram chamados Magos; investidos na condição de sacerdotes e mais, os Magos dos tempos mais arcaicos, mitológicos, foram eles próprios mitificados, considerados deuses ou semi-deuses.

 

No Antigo Testamento destaca-se a figura de um dos mais famosos dentre esses magos: o rei Salomão que, segundo o texto bíblico, controlava Elementais e outras entidades metafísicas tendo sido instruído nessa ciência pelo próprio Deus. O testamento de Salomão, suas Clavículas, nada mais são que instruções sobre como adquirir semelhante poder.

 

No século XIX, estudiosos ocultistas como Eliphas Levi tentavam esclarecer em seus tratados de magia que o fundamento do poder mágico era, simplesmente pensamento e vontade do homens educados, treinados, convertidos em instrumentos capazes de operar voluntariamente sobre a realidade.

 

O segredo do pentagrama foi revelado: com sua ponta virada para cima, símbolo do homem evoluído. O enigma da magia, explicado: não existe o sobrenatural; existem somente fenômenos não explicados. Mas apesar do esforço para informar a verdade sobre magia, o estigma do mistério, que tanto fascina quanto assusta, permanece até os dias atuais.

 

A ganância pelo monopólio do poder sócio-político [sinônimo de poder financeiro] fez com que a Igreja amaldiçoasse a inteligência e premiasse a ignorância. Fora dos círculos fechados da elite religiosa, eram proibidas, criminalizadas e severamente penalizadas todas as tentativas de desvendar os fenômenos mais complexos da natureza e pior, descobri-los e pretender divulgá-los.

 

Galileu Galilei [1564-1642, italiano, físico, matemático,astrônomo e filósofo], o astrônomo e inventor, é o mais conhecido exemplo de cientista perseguido pela Igreja: para salvar a pele admitiu que a Terra é plana, fixa e está no centro do Universo. Porque se a Terra fosse redonda somente a Igreja poderia ser o canal da revelação desse fato.

 

 

Corpúsculos de Pacini

 

Apesar da hegemonia da autoridade papal sobre o pensamento de toda uma Era [Idade Média, Moderna], em todos os períodos, houve sempre uma casta de pensadores que souberam distinguir a ciência de fantasia religiosa, preservando os conhecimentos antigos e acrescentando novos saberes ao acervo de sabedoria desta Humanidade. Com a evolução da investigação científica muitos fenômenos considerados sobrenaturais ou mágicos passaram a ser compreendidos no padrão da normalidade.

 

Os campos de força eletro-magnéticos e a hipnose aplicada ao estudo da psiquiatria começaram a explicar muitas coisas. Em 1887, a revista The Path publicou artigos de C. H. A. Bjerregaard: The Elementals and The Elementary Espirits. O texto fala dos corpúsculos de Pacini, descobertos entre e 1940 1830 pelo médico anatomista italiano Filippo Pacini [1812-1883], descritos minuciosamente pelos alemães Henle e Holliker.

 

 

Os corpúsculos são receptores eletro-mecânicos, terminais nervosos situados na pele, responsáveis pelas sensações de tato ─ pressão, vibração, térmicas etc.. Estes receptores [que nada impede de funcionar como transmissores] concentram-se na rede nervosa das mãos, especialmente nos dedos; também estão presentes significativamente nos pés.

 

Pacini refere-se aos corpúsculos como órgãos do magnetismo animal. Um alto grau de desenvolvimento do controle desses terminais nervosos permitiria a um indivíduo usar força eletromagnética de diferentes polaridades e em diferentes intensidades produzindo prodígios com andar sobre as águas, a levitação e certas curas obtidas por meio de passes [gestos].

 

Embora a palavra bruxa e/ou bruxo [ou bruja, espanhol ─ witch, inglês] seja em línguas latinas ou anglo-saxônicas, tenha uma etimologia obscura, todas remetem direta ou indiretamente a alguém que possui um conhecimento especial. É possível que muitas daquelas pessoas que foram consideradas bruxas e bruxos, julgados e condenados por isso, fossem simplesmente dotados desses numerosos terminais nervosos sensores-transmissores, os corpúsculos de Pacini.

 

Talvez isso explique os fenômenos sobrenaturais que supostamente denunciavam a condição de discípulo de Satanás; fenômenos que aconteciam nas provas às quais eram submetidas as pessoas suspeitas de prática de bruxaria como: flutuar sobre a água e a terra, curar com o toque ou tornar-se involuntariamente insensível durante as sessões de tortura. 

 

Considerando que a maioria dos acusados eram mulheres [e homens] do povo, muitos, camponeses, é de supor que essas faculdades ou habilidades sobrenaturais [metafísicas] fossem manifestações de dons naturais desenvolvidos por meio de aprendizado de práticas tradicionais, conhecimento, transmitido de geração em geração.

 

Boa parte dessas bruxas e bruxos eram pessoas que simplesmente sabiam preparar e dosar substâncias, distinguindo os remédios dos venenos em meio às plantas, minerais, secreções animais. Os conhecedores do preparo dos dos chás, das tinturas, essências, dos ungüentos, das fumigações; e também das técnicas de sugestão que alcançavam os aspectos psicológicos de um problema.

 

 

Etimologia

 

Henry More [1614-1687, filósofo e escritor inglês] do século XVII [anos 1600] escreveu um tratado sobre bruxaria. Ali, explica que o termo witch ─ relacionado a wise, significa, simplesmente, sábio, sábia no que se refere a um saber ou habilidade incomum porém, não ilegal. Todavia, não é tão simples: witch é uma palavra envolta em especulações etimológicas: seria [também] proveniente do vocábulo wekken, arcaismo para wake ─ despertar e, por extensão, alertar [alguém sobre algo] predizer, profetizar, vaticinar, em alusão aos poderes psíquicos.

 

 

Em russo e esloveno, a palavra para bruxa é vjédmasaber. Outra palavra russa para bruxa é Zaharku, derivada de Zanat, que também se traduz por saber. A investigação remissiva extrema à origem das línguas indo-européias, sugere o parentesco entre witch e o sânscrito Veda, segundo Friedrich Max Muller [1823-1900, lingüista, orientalista, mitólogo alemão], significando, mais uma vez, sábio, sabedoria.

 

Ainda na esfera do sânscrito o termo Vidma seria a origem da expressão alemã wie wissen ou nós sabemos. Voltando ao alemão encontramos heke [wheke], que se refere a uma sacerdotisa da Natureza, dos deuses e deusas que governam a terra e o céu.

 

Bruja em espanhol, bruxa em português, é uma palavra incorporada ao vocabulário das línguas castelhana e portuguesa cuja origem antecede à fundação de Roma. Parece ser um termo nativo dos dialetos da península Ibérica: bruxa, em galego; Bruixa, em catalão; broxa, em aragonés.

 

Jesús Callejo, em Breve Historia de La Brujería informa que a palavra bruxa, segundo o antropólogo Carmelo Lisón Tolosana, provavelmente tem: origem pré-romana... aparecendo pela primeira vez no século XIII, em 1287... em um vocabulário latino-arábico e que seu significado equivale a súcubo ou demônio feminino. A segunda vez que encontramos esse termo, agora escrito broxa... é nas Ordinaciones y Paramientos da cidade de Barbastro, em 1936, dialeto aragonês [CALLEJO, 2006].

 

Fontes complementares:

CALLEJO, Jesús. Breve historia de la brujería. Ediciones Nowtilus S.L., 2006. In Google Books

CERDÁ, Virginia Rodrigues. Libro de Magia Y Brujas. 451 Editores, 2007. In Google Book

 

   

 

 



 



 

 

 



 

 

 


etimologia
Bruxa ─ Bruja ─ Witch ─ Sorcière

 


Los Caprichos, Francisco Goya 1799
 

Latina, anglo-saxônica ou germânica a origem da palavra genérica-popular designativa para praticante de magia, tem etimologia obscura.

 

Não são palavras com raízes iguais; na ortografia, diferem notavelmente do português para o inglês e para o francês.

 

Foneticamente, bruxa, witch, sorcière, também não têm nenhuma relação.

 

Em francês, o substantivo feminino Sorcièresorcier, no masculino deriva do latim vulgar sortarius que significa proferir, dizer encantamentos; e do latim clássico sors, sortis, referindo-se a clarividência, visão do futuro, da sorte,  destino.

 

Em inglês, witch é um termo de origem ainda mais controversa, situada entre o anglo e germânico:

 

Inglês Antigo: wicca [masc.], wicce [fem.]


Germânico: wicken
Germânico do Mar do Norte: wikkön, weihs, weik


Islandês: vitki ou vitka
 

Todas essas versões significando algo entre profético, profetizar, encantado, encantar por palavras ou gestos, consagrar.

 


 

 



 

      


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