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apócrifos

Breve História de João, o Batista
por Lygia Cabus, 2010

 

       


 

ILUSTRAÇÃO: o Nascimento de João Batista

 

João Batista é um personagem do Novo Testamento, ou seja, dos Evangelhos de Jesus, o Cristo. As escrituras canônicas aceitas pela Igreja Cristã Apostólica Católica-Vaticana [Romana] não dizem muito sobre este personagem. Todavia, textos apócrifos preenchem algumas lacunas de sua biografia. Era filho de Isabel [ou Elizabete] e do sacerdote Zacarias. Sua gestação foi milagrosa, posto que seus pais não mais tinham idade, condições biológicas de procriar.

Isabel [ou Elizabete] é identificada nos Evangelhos como prima de Maria, mãe de Jesus. De tal modo, João Batista era parente próximo daquele que seria o Salvador do Mundo. João Batista veio ao mundo com a missão de ser o profeta que anunciaria o advento do Messias, do Cristo.

Cerca de seis meses mais velho que o primo, o menino João também foi perseguido pelo rei Herodes no episódio da matança dos inocentes, quando o rei ordenou a morte de todos os garotos de até dois anos de idade na região de Belém e vizinhanças. O monarca pretendia escapar de uma profecia segundo a qual o filho de uma Virgem, descendente do rei Davi, nasceria em Belém e tornar-se-ia o rei dos judeus. 

 

 

APÓCRIFO


De acordo com Evangelhos Apócrifos, mais precisamente no Proto-evangelho de Thiago, informado sobre o nascimento milagroso de João, Herodes, obcecado em localizar e destruir o pretenso futuro rei, enviou a guarda real para matar aquele garoto em sua casa, em sua aldeia, Aim Karim, situada nas montanhas de Judá.

Seu pai, Zacarias, sacerdote em Jerusalém, morreu assassinado pelos soldados na porta do templo. Isabel, avisada por um anjo do senhor, fugiu para o deserto e somente escapou da caçada ao bebê porque uma montanha se abriu acolhendo mãe e filho, ocultando-os de seus perseguidores. Isabel morreu quatro anos depois e João foi criado pelos anjos de Deus até a morte do rei Herodes. Eis o episódio narrado no apócrifo: 

 

Quando Isabel inteirou-se de que também buscavam a seu filho João, pegou-o e levou-o a uma montanha. Pôs-se a ver onde haveria de escondê-lo, mas não havia um lugar bom para isso. Entre soluços, exclamou em voz alta: — Ó Montanha de Deus, recebe em teu seio a mãe com seu filho, pois que não posso subir mais alto. Nesse instante, abriu a montanha suas entranhas para recebê-los. Acompanhou-os uma grande luz, pois estava com ele um anjo de Deus para guardá-los.

Herodes prosseguia na busca de João e enviou seus emissários a Zacarias para que lhe dissessem: — Aonde escondeste teu filho?

Ele respondeu desta maneira:
— Eu me ocupo do serviço de Deus e me encontro sempre no templo. Não sei onde está meu filho.

Os emissários informaram a Herodes tudo o que se passara e ele encolerizou-se muito, dizendo consigo mesmo:
— Deve ser seu filho que vai reinar em Israel.

Enviou, então, um outro recado, dizendo-lhe:
— Diga-nos a verdade sobre onde está teu filho, porque do contrário bem sabes que teu sangue está sob minhas mãos.

Zacarias respondeu:
— Serei mártir do Senhor, se te atreveres a derramar meu sangue, porque minha alma será recolhida pelo Senhor, ao ser segada uma vida inocente no vestíbulo do santuário. Ao romper da aurora, foi assassinado Zacarias, sem que os filhos de Israel se dessem conta desse crime.

Os sacerdotes se reuniram à hora da saudação, mas Zacarias não saiu a seu encontro, como de costume, para abençoá-los. Puseram-se a esperá-lo para saudá-lo na oração e para glorificar o Altíssimo. Ante sua demora, começaram a ter medo. Tomando ânimo, um deles entrou, viu ao lado do altar sangue coagulado e ouviu uma voz que dizia:

— Zacarias foi morto e não se limpará o seu sangue até que chegue o vingador.
Ao ouvir a voz, encheu-se de temor e saiu para informar os sacerdotes que, tomando coragem, entraram e testemunharam o ocorrido. Então, os frisos do templo rangeram e eles rasgaram suas vestes de alto a baixo.

Não encontraram o corpo, somente a poça de sangue coagulado. Cheios de temor, saíram para informar a todo o povo que Zacarias havia sido assassinado. A notícia correu em todas as tribos de Israel, que o choraram e guardaram luto por três dias e três noites. Concluído esse tempo, reuniram-se os sacerdotes para deliberar sobre quem iriam pôr em seu lugar. Recaiu a sorte sobre Simeão, pois, pelo Espírito Santo, havia sido assegurado de que não veria a morte até que lhe fosse dado contemplar o Messias Encarnado.

Eu, Tiago, escrevi esta história. Ao levantar-se um grande tumulto em Jerusalém, por ocasião da morte de Herodes [filho do infanticida], retirei-me ao deserto até que cessasse o motim, glorificando ao Senhor meu Deus, que me concedeu a graça e a sabedoria necessárias para compor esta narração. Que a graça esteja com todos aqueles que temem a Nosso Senhor Jesus Cristo, para quem deve ser a glória por todos os séculos dos séculos. Amém.


 

Outra versão, conta que tanto ele, o menino João, como seus pais, passaram desapercebidos da perseguição de Herodes, o Grande. O garoto teria crescido normalmente, em família, destinado a seguir o ofício santo do pai. Aos 14 anos anos, depois de graduado nos estudos da Sinagoga, João de Zacarias foi completar sua formação filosófico-teológica-religiosa nos mosteiros de Engedi [Qumram] onde foi iniciado na disciplina Nazarena. Os nazarenos não consumiam substâncias inebriantes [que alterem a consciência], não cortavam o cabelo, não tocavam nos mortos.

Zacarias teria morrido quando o jovem tinha entre 18 e 19 anos. Tornando-se chefe da família, tornou-se pastor de rebanhos e mudou-se com a mãe para o deserto, em Hebrom, na Judéia, próximo à comunidade nazarena. E assim começa a relação marcante de João com o deserto e todo um mito de ermitão, o homem que se alimentava de gafanhotos e vestia uma pele de leão.

Isabel, teria morrido em 22 a.C.. João entregou todos os seus bens à irmandade dos Nazarenos e começou a se preparar para sua missão: anunciar o Messias.

Nunca é demais esclarecer que nos Evangelhos são dois os reis Herodes que estão envolvidos na historia de Jesus e João Batista: o primeiro, chamado Herodes, o Grande, governou a Judéia entre 37 a.C. a 4a.C.; o outro, filho do primeiro, é Herodes Antipas que governou a Galiléia e a Pereia de 4 a.C. a 39 d.C..   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



 

 

 


 

 



 

 

 

 



 

 

 

 

 

 



 

 

 

RELÍQUIAS: a cabeça de joão batista

A história de João Batista é bem conhecida dos cristãos. Profeta anunciador do Messias Salvador do Mundo e do advento do Reino de Deus, às margens do rio Jordão, ele pregava a penitência, batizava, purificando os crentes pela imersão nas águas do rio e condenava abertamente o rei Herodes Antipas por manter uma união adúltera com Herodíades ou Herodias, ex-mulher de seu irmão [dele. H, Antipas], que abandonou o marido para viver com o rei da Judéia em 27 a.C., ou seja, pouco antes do começo das atividades de Jesus, o Cristo.

Logo, João, já então conhecido como o Batista ou o Batizador, caiu em desgraça com o rei e especialmente com Herodiades que tramou sua prisão e morte: decapitado em 29 de agosto de 31 d.C.. Os evangelhos pouco informam sobre o que foi feito com os restos mortais do profeta.

Outras fontes, porém, informam que depois da decapitação, o corpo de João Batista foi enterrado por seus discípulos na cidade de Samaria [ou Shomron e, ainda, Sebastia]. Sua cabeça, entregue como um prêmio à rainha adúltera, foi por ela mesma escondida em um lugar imundo. Mas Joana [citada em Lucas 8:3], mulher do mordomo do rei, chamado Cuza, resgatou a cabeça e, secretamente, colocando-a em um vaso, enterrou-a no Monte das Oliveiras em umas das propriedades de Herodes Antipas. 

 

DESCOBERTA

 

 

Frente do crânio de João, o Batista. Em Amiens, França.
 


Os anos passaram, a propriedade mudou de dono. Foi parar nas mãos de um funcionário do governo que, aposentado, virou monge e ali ergueu uma pequena igreja e uma morada. O monge chamava-se Inocêncio.

Foi durante a construção, em meio às escavações da igreja que a relíquia foi encontrada. Estavam intactos: o vaso e a cabeça. Monge Inocêncio reconheceu a santidade da caveira porque podia perceber os sinais de santidade que dela emanavam.

Durante toda a sua vida o monge foi o guardião da cabeça. Sentindo aproximar-se o momento de sua morte e temendo que a relíquia pudesse ser explorada por simoníacos e descrentes, resolveu escondê-la novamente no mesmo lugar onde a tinha encontrado. Depois da morte de Inocêncio, a igreja, abandonada, tornou-se uma ruína e a cabeça de João Batista lá ficou sepultada. 

 

A SEGUNDA DESCOBERTA


A parte posterior, de trás do crânio.
Na  Igreja  de São Silvestre,  Roma.

 

Na época de Constantino, o Grande, [Flavius Valerius Constantinus, 272-337 d.C., imperador de Roma entre 306 e 312], possivelmente o primeiro imperador romano convertido ao cristianismo, dois monges tiveram duas visões de João Batista enquanto caminhavam com destino a Jerusalém. Nestas visões, o santo profeta revelou a localização de sua cabeça.

Os monges descobriram a relíquia. Colocaram-na em um saco de couro de camelo e seguiram caminho. A certa altura da trilha, encontraram um oleiro e deram o saco com a cabeça para o oleiro carregar. Aborrecido com o descaso dos monges, o santo apareceu revelando-se, em uma visão, para o oleiro e ordenou-lhe fugir dos monges levando o que lhe tinham posto nas mãos, porque tinham sido negligentes em sua grande preguiça.

O oleiro desviou-se dos monges levando o saco de couro de camelo sem saber o que continha. Chegando em casa, descobriu a cabeça do profeta e reconheceu o homem de sua visão. Tornou-se, assim, o novo guardião da cabeça. Antes de morrer, transferiu a missão para sua irmã.

 

Desde então a venerável cabeça foi objeto de veneração por cristãos devotos até que caiu nas mãos do herético arianista padre Eustáquio de Sabastia [300–377]. Ele usava a cabeça do santo para, supostamente, fazer milagres de cura. Acusado de blasfêmia e perseguido pela Igreja romana, o herege fugiu, escondeu-se e escondeu também a cabeça, enterrando-a em uma caverna próxima a Emesa [na Síria, atualmente, Hims ou Homs].

Eustáquio jamais teve a chance de recuperar a relíquia todavia, naquela caverna, anos depois, instalaram-se dois monges que ali ergueram um mosteiro. Em 452, o Arquimandrita [higumeno, abade, monsenhor] do mosteiro, chamado Marcellus, teve sua própria visão do santo que novamente indicou onde poderia ser achada sua cabeça. Foi a segunda descoberta. A relíquia foi enviada para Emesa e, mais tarde, para Constantinopla.

Hoje, o crânio de João, o Batista, encontra-se fragmentado ao abrigo de diferentes igrejas e três destas partes se destacam: a parte de trás do crânio, a frente, e o topo, que encontram-se, respectivamente: na igreja de São Silvestre, em Roma; o topo, no Topakapi Palace, em Istambul Turquia; e a frente, que saiu de Constantinopla, está em Amiens, França. 

 

A MÃO INCORRUPTA DE JOÃO, O BATISTA

 



O topo do crânio. Em Istambul, Turquia.

 

A cabeça não é a única relíquia de João Batista reverenciada pelos cristãos. A mão, também é um objeto sagrado. O primeiro registro de um resgate do corpo [ou parte do corpo] do profeta messiânico remonta aos primeiros tempos do Cristianismo alcançando o apóstolo Lucas.

 

Este apóstolo, estando na cidade de Sebastia [ou Sebaste], na Samaria, onde foi sepultado o Batizador, recebeu da comunidade cristã local esta relíquia, a mão direita de João Batista, a mesma mão que havia batizado Jesus, o Cristo. Lucas se foi, voltou para sua terra natal – Antioquia [atual Antakya, Turquia] levando consigo a Mão Santa.

 


 

A mão direita de João Batista.

No Dionysiou Monastery, Mount Athos

[Monte Athos ou Montanha Santa], Grécia.
 

 

 

Séculos mais tarde, quando os muçulmanos tomaram Antioquia, um diácono, chamado Jó ou Job, protegeu a peça levando-a para a Calcedônia*. Da Calcedônia, em 956, na véspera da Teofania do Senhor**, A Mão chegou a Constantinopla [antiga Bizâncio, depois Constantinopla, Turquia].

* CALCEDÔNIA – Antiga cidade marítima da Bitínia, costa norte do Mar de Mármara, Ásia Menor. Atual Kadıköy, bairro/distrito da cidade de Istambul [antiga Bizâncio, depois Constantinopla, Turquia.
* TEOFANIA DO SENHOR – Para os Cristãos, o dia da revelação de Jesus como o Cristo na ocasião em foi batizado pelo profeta João. Comemorado dois domingos depois do Natal.

 

 

CONSTANTINOPLA

No ano de 1200, um peregrino russo, Dobrynya, que mais tarde veio a ser Santo Antônio Arcebispo de Novorogod, teve a oportunidade de ver A Mão no palácio imperial [em Constantinopla].

 

Em 1263, quando Constantinopla foi tomada pelos Cruzados, o imperador Baldwin [Balduíno]** deu um osso do pulso do Santo Batista para um certo Ottonus Cichon que, por sua vez, entregou a relíquia da relíquia aos abades cisterciense* da França. Na época, a Cristandade vivia uma verdadeira febre de consumo de relíquias de santos, beatos ou do próprio Cristo. Uma relíquia de algum santo ou santa realmente prestigiados era um objeto caro que podia custar uma fortuna.

* Baldwin II de Courtenay, 1217-1273. último imperador do Império Latino de Constantinopla, governou de 1228 até 1261. Portanto, era ex-imperador quando cedeu a relíquia.
** Ordem de Cister, ordem monástica católica, fundada 1908, juntamente com a Abadia de Cister por Roberto de Champagne, abade de Molesme, na Borgonha, França.

A Mão, a peça, continuou em Constantinopla e lá foi vista, entre o fim do século XIV e XV [anos 1300 a 1400] guardada no mosteiro Peribleptos. Em 1453, Constantinopla foi conquistada pelos turcos no episódio conhecido como a Queda de Constantinopla, marco entre duas eras: o fim da Idade Média e o começo da Idade Moderna. Na ocasião, muitos objetos sagrados e relíquias foram confiscados pelos turcos e incorporados ao tesouro do Império Otomano.

 

 

OS CAVALEIROS DE RHODES

Em 1428, estava na posse de um diplomata da Prússia, John Frangopoulos. Foi este guardião que providenciou o estojo adornado com pedras preciosas.

Em 1484, entre as idas e vindas belicosas e diplomáticas entre cristãos e muçulmanos na região, o sultão Bayazet doou a Mão Direita de João Batista aos Cavaleiros de Rhodes, ordem militar-religiosa cristã cuja origem antecede as Cruzadas. Os também chamados Knights of Rhodes, ou Hospitalários de Jerusalém tinham sua sede na ilha de Malta, no mar Mediterrâneo e para lá levaram a relíquia. Ali ficou a Mão até 1799, quando foi transferida para a capela Gatchina, na Rússia.

Depois disso há notícias de pedaços da peça espalhados em vários lugares. No mosteiro cristão ortodoxo de Cetinge, em Montenegro; em uma comunidade cristã de Prodromos [que significa João, o profeta] – na Romênia; no Dionysiou Monastery, monte Athos, Grécia.

A parte mais completa da mão, conservada no estojo de Frangopoulos, é aquela que está no Dionysiou Monastery. Não se sabe ao certo como chegou lá porém sabe-se quando: nos primeiros anos do século XIX, mais precisamente em 10 de março de 1802. Neste dia há uma festa. O Bispo apresenta a Mão diante do povo e a mão muda sua configuração em profecia: se está aberta, significa ano fecundo, próspero; se fechada, a mão prenuncia esterilidade e fome...

 

REFERÊNCIAS

 

Ortodox Church in America

Hospitallers of St. John of Jerusalem. IN The Catholic Encyclopedia. [http://www.newadvent.org/cathen/07477a.htm]

JOHN, Sanidopoulos. The Incorrupt Hand of St. John the Baptist.
IN MISTAGOGY, publicado em 07/01/2007

 


 




      

 

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