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apócrifos, religião

21/12/2007

APÓCRIFOS

HISTÓRIAS QUE A BÍBLIA NÃO CONTA

pesquisa, traduções, adaptação e texto: Lygia Cabus

 

       

 

Fuga para o Egito

 

Os Quatro Evangelhos canônicos [reconhecidos pelo Vaticano], que são os livros sagrados dos Cristianismo, falam do nascimento de Jesus e, deixando uma grande lacuna no que se relaciona à infância do Mestre, prosseguem seus relatos, já na fase adulta, descrevendo, no período entre os 30 e 33 anos, os milagres, a pregação na Judéia, com ênfase especial para o Sermão da Montanha, que resume a doutrina cristã [corpo de idéias] e, finalmente, a Paixão, prisão, martírio, crucificação, ressurreição, primeiros tempos do cristianismo, nos Atos Apóstolos e profecias do Juízo Final, no Apocalipse.

 

Os evangelhos não canônicos, entre outros livros, do antigo e do Novo Testamento, que foram banidos da Bíblia oficial, os chamados apócrifos possuem, todavia, o encanto de revelar aqueles fatos que são omitidos nos Evangelhos de Lucas, Mateus, Marcos e João.

 

 

Os evangelhos apócrifos, sejam ou não, mais ou menos permeados pela fantasia e/ou exagero, preenchem, justamente, o espaço de silêncio histórico que envolve os temas: infância e juventude de Jesus, a origem e o papel de Maria de Nazaré na instituição da nova doutrina, o tempo que Jesus passou entre os Apóstolos depois da Ressurreição e a doutrina mística, a eles ministrada antes de sua ascensão ao céu.

Falando da infância de Jesus, do que aconteceu na chamada Fuga Para o Egito e depois, quando a Sagrada Família voltou à Israel, os apócrifos completam a biografia do Cristo judeu mostrando que suas virtudes divinas manifestaram-se desde sempre, desde o berço, em episódios pitorescos nos quais o menino-deus dá seus primeiros passos na experimentação da vida em condição humana: porque, segundo a Bíblia, Jesus foi o Verbo que se fez carne; foi o próprio Deus manifestado em condição humana e que habitou entre nós sujeitando-se, por amor à Humanidade, às penosas condições de vida do homem sobre a Terra.

 

 

INFÂNCIA DE JESUS

O Evangelho Apócrifo de Pedro, chamado o quinto evangelho ou, ainda, Evangelho da Infância, publicado pela primeira vez em 1677, baseado em relatos feitos, supostamente por Maria, mãe de Jesus, ocupa-se longamente dos feitos miraculosos do menino Jesus, que começaram a se produzir ainda no berço, como no capítulo I, cujo título é Palavras de Jesus no Berço:

Encontramos no livro do grande sacerdote Josefo que viveu no tempo de Jesus Cristo, e que alguns chamam de Caifás, que Jesus falou quando estava no berço e que disse a sua mãe Maria: — Eu, que nasci de ti, sou Jesus, o filho de Deus, o Verbo, como te anunciou o anjo Gabriel, e meu Pai me enviou para a salvação do mundo.

 

Este episódio é mais um ponto de reforço das semelhanças entre as biografias de Jesus, Buda Sakyamuni e Krishna; os dois últimos, em sua cultura de origem [Índia/Tibet/Nepal] também falaram ao nascer retomando, logo depois, o comportamento normal de um bebê recém-nascido.

 

O PODER DAS FRALDAS

 

Os milagres realizados por Jesus nos quatro evangelhos canônicos são uma gota no oceano de incontáveis prodígios registrados nos apócrifos. Ainda bebê e, portanto, em seu aspecto humano, Jesus fosse supostamente, ainda inconsciente de seus atos, o menino era, em si mesmo, uma criatura milagrosa.

 

São numerosos os casos de leprosos [as] e possessos [as] que foram curados pelo mero contato com as fraldas do garoto ou com a água na qual fora banhado, como nos trechos abaixo:

XI. A Cura do Menino Endemoninhado
O filho do sacerdote, acometido do mal que o afligia, entrou no albergue insultando José e Maria, já que os outros hóspedes haviam fugido. Como Maria havia lavado as fraldas do Senhor Jesus e as estendera sobre umas madeiras, o menino possuído pegou uma das fraldas e colocou-a sobre sua cabeça. Imediatamente os demônios fugiram, saindo pela boca, e foram vistos sob a forma de corvos e serpentes. O menino foi curado instantaneamente pelo poder de Jesus Cristo e se pôs a louvar o Senhor que o havia libertado e rendeu-lhe mil ações de graça.
EVANGELHO DE PEDRO

 

XVII. Uma Leprosa
No dia seguinte, essa mulher preparou água perfumada para lavar o menino Jesus e após o haver lavado, guardou essa água. Havia lá uma jovem cujo corpo assava, coberto pela lepra branca. Lavou-se ela com essa água e foi imediatamente curada. O povo dizia então: — Não resta dúvida de que José e Maria e essa criança sejam Deuses, pois eles não podem ser simples mortais. Quando eles se preparavam para partir, essa jovem, que havia sido curada da lepra, aproximou-se deles e rogou-lhes que lhe permitissem acompanhá-los.
EVANGELHO DE PEDRO

 

 

APÓCRIFO DE TOMÉ

 

Outro evangelho apócrifo rico em detalhes da infância de Jesus Cristo, dos cinco aos doze anos, é o Evangelho de Tomé, datado no século I d.C. . Nos dois evangelhos, de Pedro e Tomé, a figura da criança Jesus surpreende, usando seus poderes com uma imaturidade muito natural para sua faixa etária.

 

Exceto por suas faculdades divinas, Jesus é um menino normal, brinca, briga, desafia a autoridade. Essa humanidade do Cristo menino certamente foi um aspecto dos apócrifos que não interessava e não interessa, à Igreja, divulgar. Escreve Tomé, o Filósofo Israelita:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



 

 

 


 

 



 

 

 

 

 

 

 

 



 

 

 

 

 

 



 

 

 

I
Eu, Tomé Israelita, julguei necessário levar ao conhecimento de todos os irmãos descendentes dos gentios, a Infância de Nosso Senhor Jesus Cristo e tantas quantas maravilhas ele realizou, depois de nascer em nossa terra. O princípio é como segue.

 

II
Esse Menino Jesus, que na época tinha cinco anos, encontrava-se um dia brincando no leito de um riacho, depois de haver chovido. Represando o correnteza em pequenas poças, tornava-as instantaneamente cristalinas, dominando-as somente com sua a palavra. Fez depois uma massa mole com barro e com ela formou uma dúzia de passarinhos. Era um Sabbath e havia outros meninos brincando com ele. Um certo homem judeu, vendo o que Jesus acabara de fazer num dia de festa, foi correndo até seu pai, José, e contou-lhe tudo:

— Olha, teu filho está no riacho e juntando um pouco de barro fez uma dúzia de passarinhos, profanando com isso o dia do Sabbath. José foi ter ao local e, ao vê-lo, ralhou com ele dizendo:

— Por que fazes no Sabbath o que não é permitido?

Jesus, batendo palmas, dirigiu-se às figurinhas, ordenando-lhes:

— Voai!

Os passarinhos foram todos embora, gorjeando. Os judeus, ao verem isso, encheram-se de admiração e foram contar aos seus superiores o que haviam visto Jesus fazer.
EVANGELHO DE TOMÉ

 

 

Nos apócrifos, o Deus-menino manifestado no meio dos homens aprende pela experiência e pela educação a controlar sua onipotência: ela tanto mata, quando é injuriado, quanto cura, quando sente compaixão; sobre as coisas do céu, sobre os mistérios do Universo, ele é o mestre entre os mais conceituados professores; sobre as coisas da Terra, pouco sabe em termos práticos e somente pode aprender na companhia de seus pais e vivendo entre os homens, com um deles, igual a eles.

 

APÓCRIFO DE PEDRO

 

XLVII. UMA MORTE REPENTINA
Certa noite, o Senhor Jesus voltava para casa com José, quando uma criança passou correndo na sua frente e deu-lhe um golpe tão violento que o Senhor Jesus quase caiu. Ele disse a essa criança: — Assim como tu me empurraste, cai e não levantes mais. No mesmo instante, a criança caiu no chão e morreu.
EVANGELHO DE PEDRO

XLIX. O PROFESSOR CASTIGADO
Conduziram-no, em seguida, a um professor mais sábio e assim que o viu. ordenou:
— Dize Aleph!
Quando o Senhor Jesus disse Aleph, o professor pediu-lhe que pronunciasse Beth. O Senhor Jesus respondeu-lhe:
— Dize-me o que significa a letra Aleph e então eu pronunciarei Beth.
O mestre, irritado, levantou a mão para bater nele, mas sua mão secou instantaneamente e ele morreu. Então José disse a Maria:
— Daqui por diante, não devemos mais deixar o menino sair de casa, pois qualquer um que se oponha a ele é fulminado pela morte.
EVANGELHO DE PEDRO 

 

 

personagem bíblico


A HISTÓRIA DE JOSÉ, O CARPINTEIRO

 

O livro A História de José, o Carpinteiro, também chamado Atos de São José, um dos textos apócrifos do Novo Testamento, datado no século V da Era Cristã, acompanha a vida de Jesus até os 12 anos, como nos Evangelhos canônicos porém, contém informações adicionais sobre a biografia do tutor terreno de Jesus. O padrasto de Jesus era viúvo quando foi escolhido para desposar Maria, ele com 90 anos, ela com 12. Do primeiro casamento, tinha quatro filhos [Judas, Justus, James/Thiago e Simão] e duas filhas [Assia e Lydia].

 

Além destas informações, que complementam os Evangelhos canônicos, o apócrifo descreve a vida de José em idade ainda mais avançada, desfrutando uma extraordinária benção, a de permanecer jovem física e mentalmente até seus últimos dias. Morreu aos 111 anos. Suas palavras finais foram lamentações sobre a condição de fraqueza da carne e o pecado. o relato inclui a visita do Anjo da Morte e do apoio dos Anjos Michael e Gabriel, que apareceram para resgatar o Espírito de José. E José foi enterrado pelos seus amigos e parentes sem o odor dos mortos  [SÃO JOSÉ: BIOGRAFIA | CADÊ MEU SANTO].

 

 

 

JOSÉ EDUCANDO JESUS: Tomé reconta a caso do garoto que esbarra em Jesus detalhando a reação da comunidade e a repreensão de José.


IV
De outra feita, Ele andava em meio ao povo e um rapaz que vinha correndo esbarrou em suas costas. Irritado, Jesus disse-lhe:
— Não prosseguirás teu caminho.
Imediatamente o rapaz caiu morto. Algumas pessoas que viram o que se passara, disseram:
— De onde terá vindo esse rapaz, pois todas as suas palavras tornam-se fatos consumados?
Os pais do defunto, chegando a José, interpelaram-no, dizendo:
— Com um filho como esse, de duas uma: ou não podes viver com o povo ou tens de acostumá-lo a abençoar e não a amaldiçoar, pois causa a morte aos nossos filhos.

V
José chamou Jesus à parte e admoestou-o da seguinte maneira:
— Por que fazes tais coisas, se elas se tornam a causa de nos odiarem e perseguirem?
Jesus replicou:
— Bem sei que essas palavras não vêm de ti, mas calarei por respeito a tua pessoa. Esses outros, ao contrário, receberão seu castigo. No mesmo instante, aqueles que havia falado mal dele ficaram cegos. As testemunhas dessa cena encheram-se de pavor e ficaram perplexas, confessando que qualquer palavra de sua boca, fosse boa ou má, tornava-se um fato e convertia-se numa maravilha. Quando José percebeu o que Jesus havia feito, agarrou sua orelha e puxou-a fortemente.
O rapaz indignou-se e disse-lhe:
— A ti é suficiente que me vejas sem me tocares. Tu nem sabes quem sou, pois se soubesses não me magoarias. Ainda que neste instante eu esteja contigo, fui criado antes de ti.
EVANGELHO DE TOMÉ

 

 

RESSURREIÇÕES & CURAS

 

 

XLIV. O MENINO QUE CAIU E MORREU


Um dia, o Senhor Jesus estava brincando com outras crianças em cima de um telhado e uma delas caiu e morreu na hora. As outras fugiram e o Senhor Jesus ficou sozinho em cima do telhado. Então os pais do morto chegaram e disseram ao Senhor Jesus:

 — Foste tu que empurraste nosso filho do alto telhado. Como ele negasse, eles repetiram mais alto:
— Nosso filho morreu e eis aqui quem o matou.
O Senhor Jesus respondeu:
— Não me acuseis de um crime do qual não tendes nenhuma prova. Perguntemos, porém, à própria criança o que aconteceu.
O Senhor Jesus desceu, colocou-se perto da cabeça do morto e disse-lhe em voz alta:
— Zeinon, Zeinon, quem foi que te empurrou do alto do telhado?
O morto respondeu:
— Senhor, não foste tu a causa da minha queda, mas foi o terror que me fez cair.
O Senhor recomendou aos presentes que prestassem atenção a essas palavras e todos eles louvaram a Deus por este milagre.
EVANGELHO DE PEDRO

 

X
Poucos dias depois, estava um jovem cortando lenha nas redondezas e aconteceu que o machado escapou e cortou a planta do seu pé. O infeliz estava morrendo rapidamente por causa da hemorragia. Sobreveio por isso um grande alvoroço e juntou muita gente. Também Jesus veio ter ali. Depois de abrir espaço à força por entre a multidão, chegou junto do ferido e com suas mãos apertou o pé injuriado do jovem, que num instante ficou curado. Disse então ao rapaz:
— Levanta-te já! Continua cortando lenha e lembra-te de mim!
EVANGELHO DE TOMÉ

 

XVII
Aconteceu depois, nas vizinhanças de José, que um menino que vivia doente veio a falecer. Sua mãe chorava inconsolavelmente. Jesus, ao tomar conhecimento da dor daquela mãe e do tumulto que se formava, acudiu rapidamente. Encontrando o menino já morto, tocou-lhe o peito e disse: — Pequenino, falo contigo! Não morras, mas vive feliz e fica com tua mãe! No mesmo instante, o menino abriu os olhos e sorriu. Então disse Jesus à mulher: — Anda, pega-o, dá-lhe leite e lembra-te de mim!
EVANGELHO DE TOMÉ

 

 

Os Evangelhos Apócrifos trazem minúcias sobre outros aspectos notáveis da infância de Jesus,  como o uso de seu poder [de transubstanciação] no exercício do ofício de carpinteiro. Trabalhando com José, Jesus resolvia qualquer problema de medida, alongando tábuas, igualando tamanhos.

 

 

XXXVIII. JESUS NA CARPINTARIA
José ia por toda a cidade, levando com ele o Senhor Jesus. Chamavam-no para que fizesse portas, arcas e catres e o Senhor Jesus estava sempre com ele. E sempre que a obra de José precisava ser mais comprida ou mais curta, mais larga ou mais estreita, o Senhor Jesus estendia a mão e ela ficava exatamente do jeito que queria José, de forma que ele não precisava retocar nada com sua própria mão, pois ele não era muito hábil no ofício de marceneiro.
EVANGELHO DE PEDRO

 

 

JESUS & BUDA SAKYAMUNI

 

Em sua educação formal, e todo menino judeu devia estudar os livros sagrados, à semelhança, mais uma vez, do que aconteceu com o Buda Sakyamuni na infância, foi dispensado por três professores depois que doutos reconheceram nada ter a ensinar ao menino. No Evangelho de Pedro, o debate entre Jesus e os sábios do templo traz informações que não constam nos Evangelhos canônicos e que dão uma dimensão mais precisa do fenômeno intelectual que também se manifestava no pequeno Messias.

L. JESUS, O MESTRE
Quando contava doze anos de idade, levaram [Maria e José] Jesus a Jerusalém por ocasião da festa e, quando ele terminou, eles voltaram, mas o Senhor Jesus permaneceu no templo, em meio aos doutores, aos velhos e aos mais sábios dos filhos de Israel, que ele interrogava sobre diferentes pontos da ciência, mas também respondia-lhes as perguntas. ...

LI. JESUS E O ASTRÔNOMO
Havia lá um filósofo, astrônomo sábio, que perguntou ao Senhor Jesus se ele havia estudado a ciência dos astros. Jesus, respondendo-lhe, expôs o número de esferas e de corpos celestes, sua natureza e sua oposição, seu aspecto trinário, quaternário e sêxtil, sua progressão e seu movimento de leste para oeste, o cômputo e o prognóstico e outras coisas que a razão de nenhum homem escrutou.

LII. JESUS E O MÉDICO
Havia entre eles um filósofo muito sábio em medicina e ciências naturais e quando ele perguntou ao Senhor Jesus se ele havia estudado a medicina, este expôs-lhe a física, a metafísica, a hiperfísica e a hipofísica, as virtudes do corpo, os humores e seus efeitos, o número de membros e de ossos, de secreções, de artérias e de nervos, as temperaturas, calor e seco, frio e úmido e quais as suas influências, quais as atuações da alma no corpo, suas sensações e suas virtudes, a faculdade da palavra, da raiva, do desejo, sua composição e dissolução e outras coisas que a inteligência de nenhuma criatura jamais alcançou. Então o filósofo ergueu-se e adorou o Senhor Jesus, dizendo: — Senhor, daqui em diante serei teu discípulo e ter servo.
EVANGELHO DE PEDRO

 

 

EXÍLIO NO EGITO

 

Pouco tempo depois do nascimento de Jesus, tempo que nenhum evangelista canônico especifica, a Sagrada Família teve de fugir da Judéia para escapar à perseguição do rei Herodes [que desejava matar o menino que fora apontado pelos profetas como rei dos judeus]. O destino mencionado é o Egito e nada mais é acrescentado sobre esta passagem da vida de Jesus, Maria e José. No Evangelho de Pedro, alguns capítulos são dedicados à fuga e exílio em cidades do Egito e terras vizinhas.

X. FUGA PARA O EGITO
...ao se aproximarem de uma grande cidade ...havia um ídolo, ao qual os outros ídolos e divindades do Egito rendiam homenagem e ofereciam presentes. Sempre que Satã falava pela boca do ídolo, os sacerdotes relatavam o que ele dizia aos habitantes do Egito e de suas margens. ... A hospedaria dessa cidade ficava perto deste ídolo. Quando José e Maria lá chegaram e se hospedaram, os habitantes ficaram profundamente perturbados e todos os príncipes e sacerdotes dos ídolos se reuniram ao redor desse ídolo, perguntando-lhe:
— De onde vem esta agitação universal e qual é a causa deste pavor que se apoderou de nossos país?
O ídolo respondeu:


— Esse assombro foi trazido por um Deus desconhecido, que é o Deus verdadeiro, e ninguém a não ser ele é digno das honras divinas, pois ele é o verdadeiro Filho de Deus. À sua aproximação, esta região tremeu. Ela se emocionou e se assombrou e nós sentimos um grande temor por causa do seu poder. Neste momento, esse ídolo caiu e quebrou-se, tal como os outros ídolos que estavam no país. Sua queda fez acorrerem todos os habitantes do Egito.
EVANGELHO DE PEDRO

 

 

Ao que tudo indica, a Sagrada Família não se demorava muito tempo nas cidades egípcias. Os milagres do menino logo ganhavam fama e, temendo novas perseguições, Maria e José se deslocavam freqüentemente. Duas paradas, entretanto, são geograficamente bem assinaladas: na cidade de Mataréia, onde Jesus fez surgir uma fonte onde Maria lavou a túnica do filho. A tradição gerou a crença de que o bálsamo produzido naquele país é proveniente do suor que escorreu da roupa do menino-Deus.

 

Em outra passagem, quando Família chega a Mênfis, o apóstolo dá um indicativo do tempo de exílio: Foram então a Mênfis e, tendo visitado o faraó, permaneceram três anos no Egito, onde o Senhor Jesus fez muitos milagres, que não estão consignados nem no Evangelho da Infância, nem no Evangelho Completo. ... Depois de três anos, eles deixaram o Egito e voltaram para a Judéia.

 

 

 

 

* IMAGEM: Holy Family with John, the Baptist and St. Elizabeth [A Sagrada Família com João Batista e Santa Isabel]. NICOLAS POUSSIN [1644-1666] − The Hermitage, St. Petersburg | Rússia.

 

lendas cristãs
COMO JOÃO BATISTA ESCAPOU DE MORRER PERSEGUIDO POR HERODES

 

O episódio bíblico, do Novo Testamento, da matança dos inocentes é bem conhecido. Há historiadores que contestam a veracidade de tal matança; estudiosos alegam que o significado é simbólico [os inocentes seriam os magos, Iniciados, que recusavam dizer ao rei Herodes o paradeiro do menino que fora profetizado como futuro rei dos judeus].

 

Porém, o fato é que, se tal matança houve, muitas crianças, meninos, com idade de um a dois anos foram mortos. É coerente supor que alguns tenham escapado, como Jesus.

 

Um destes sobreviventes foi o bebê João batista, filho de Isabel [que era prima de Maria e também concebeu miraculosamente] e do sacerdote judeu Zacarias. João Batista seria aquele que anunciaria a chegada de Messias às margens do rio Jordão. Diz o Evangelho de Pedro:

 

Quando Isabel inteirou-se de que também buscavam a seu filho João, pegou-o e levou-o a uma montanha.

 

 

 

Pôs-se a ver onde haveria de escondê-lo, mas não havia um lugar bom para isso. Entre soluços, exclamou em voz alta: — Ó Montanha de Deus, recebe em teu seio a mãe com seu filho, pois que não posso subir mais alto. Nesse instante, abriu a montanha suas entranhas para recebê-los. Acompanhou-os uma grande luz, pois estava com ele [João Batista] um anjo de Deus para guardá-los.

 

O pai de João Batista não teve a mesma sorte do filho. O menino João era um dos mais suspeitos de ser o herdeiro de Davi. Zacarias, confrontado pelos emissários de Herodes, recusando fornecer o paradeiro do filho, foi assassinado no santuário "sem que os filhos de Israel se dessem conta desse crime". TOMÉ

 

* IMAGEM: Holy Family with John, the Baptist and St. Elizabeth [A Sagrada Família com João Batista e Santa Isabel]. NICOLAS POUSSIN [1644-1666] − The Hermitage, St. Petersburg | Rússia.

 

 

 

A HISTÓRIA DE MARIA

 

Sobre a história de Maria de Nazaré, mãe de Jesus, os evangelhos canônicos guardam inquietante silêncio. O mesmo pode ser dito em relação a José, que simplesmente desaparece da vida de Jesus sem nenhuma explicação. Os apócrifos, porém, fornecem dados interessantes.

 

José aparece atuante em várias passagens, coordenando os deslocamentos da Família durante o exílio egípcio e, mais adiante, participando da educação do menino, iniciando-o no ofício de carpinteiro, cuidando de sua formação social e religiosa. Mais de uma vez, Maria e José procuram, ainda que em vão, manter o sigilo sobre os poderes do filho.

 

Também ensinam ao imaturo Jesus o dever de usar o seu poder somente para o bem, como no ocasião em que matou um menino, e os pais do defunto se aproximaram de José dizendo: Com um filho como esse, de duas uma: ou não podes viver com o povo ou tens de acostumá-lo a abençoar e não a amaldiçoar, pois causa a morte aos nossos filhos [EVANGELHO DE TOMÉ, IV].

 

Nos evangelhos canônicos, o papel de Maria é pouco destacado especialmente no período da pregação e na posterior difusão do cristianismo, registrada nos Atos Apóstolos.  Na Bíblia, é possível inferir que Maria acompanhou de perto a missão de Jesus, vivendo entre seus seguidores; não existe, porém, nenhuma referência à convivência de Maria e sua relação com os Apóstolos e sua própria atuação como apóstola.

 

Ela aparece nas Bodas de Canaã, quando solicita ao Filho que providencie vinho para o casamento, posto que já faltava a bebida e o noivo passaria por grande constrangimento. Jesus, ainda que argumentasse "Não chegou a minha hora", levanta-se e transforma água em vinho, milagre da transubstanciação, seu primeiro milagre público e notório, segundo os livros canônicos. Vem daí o dito popular, sobre alcançar graças divinas: Peça à Mãe que Filho atende.

 

Mais adiante, Maria, acompanhada dos irmãos de Jesus [que se deduz serem filhos de José anteriores à união com Maria], procura acercar-se do Mestre que está cercado de discípulos. Alguém anuncia à Jesus que sua mãe está ali. A resposta é quase áspera: sua? seus irmãos? São todos, todos aqueles que o seguem.

 

Na Via Crucis, caminho para o Calvário, Maria encontra Jesus martirizado. Aos pés da cruz, recebe a incumbência de ser a Mãe de toda a Humanidade. Depois da Ressurreição e da Ascensão de Jesus aos céu, é através de Maria [que nesta passagem, Pentecostes, parece desempenhar um papel mediúnico] que o Espírito Santo se manifesta para dotar os Apóstolos das capacidades necessárias à tarefa da Evangelização: poder de curar doenças do corpo e da alma, de ressuscitar os mortos, de falar línguas estrangeiras. Finalmente, Maria, tal como Jesus, não se retira do mundo pela morte, mas sobe ao céu onde é coroada rainha entre os anjos e santos de Deus.

 

 

Nos Apócrifos, a presença de Maria é mais constante e, sua apresentação como personagem da biografia de Jesus e precursora do cristianismo é mais completa. No chamado Proto-evangelho de Tiago, a origem de Maria, sua família, seu nascimento imaculado, sua infância no Templo, onde era alimentada pelos anjos, a anunciação, são relatados minuciosamente. Em outro apócrifo, de Bartolomeu, a própria Maria descreve a aparição do anjo Gabriel.

 

Os pais de Maria, Ana e Joaquim, eram estéreis, não tinham filhos. Em Israel, isso era considerado um fato muito desabonador. Joaquim era um homem rico, o que contrasta e até contradiz a tão enfatizada pobreza da Sagrada Família, posto que Maria, sendo filha única e de família prestigiada, foi herdeira de um patrimônio considerável.

Segundo narram as memórias das doze tribos de Israel, havia um homem muito rico, de nome Joaquim... [Porque não tinha filhos] ... Joaquim mortificou-se tanto que se dirigiu aos arquivos de Israel, com intenção de consultar o censo genealógico e verificar se, porventura, teria sido ele o único que não havia tido prosperidade em seu povoado. Examinando os pergaminhos, constatou que todos os justos haviam gerado descendentes. Lembrou-se, por exemplo, de como o Senhor deu Isaac ao patriarca Abraão, em seus derradeiros anos de vida.

Joaquim ficou muito atormentado... e se retirou para o deserto. Ali armou sua tenda e jejuou por quarenta dias e quarenta noites, dizendo: — Não sairei daqui nem sequer para comer ou beber, até que não me visite o Senhor meu Deus. Que minhas preces me sirvam de comida e de bebida.

[Sua mulher, Ana, lamentava-se e orava] ... — Ó Deus de nossos pais! Ouve-me e bendize-me da maneira que bendisseste o ventre de Sara, dando-lhe como filho Isaac! ... Eis que se lhe apresentou o anjo de Deus, dizendo-lhe: — Ana, Ana, o Senhor escutou teus rogos! Conceberás e darás à luz e de tua prole se falará em todo o mundo.
PROTO-EVANGELHO DE TIAGO

 

 

* IMAGEM: Francisco de Zurbarán [1632-33]

The Young Virgin

The Metropolitan Museum of Art, New York City.

 

Da gravidez imaculada de Ana, produzida sem relação sexual, nasceu Maria que, até pelas circunstâncias miraculosas de sua geração, desde sempre, foi considerada santa e como santa, foi consagrada ao Senhor.

 

Até os três anos, morou na casa dos pais onde foi erigido um oratório e nenhuma coisa impura passava por suas mãos. Para entretê-la, foram chamadas donzelas "hebréias, todas virgens".

 

Ao completar o terceiro ano de vida, Maria foi morar no Templo onde recebia alimento pelas mãos de um anjo. Aos doze anos [segundo Bartolomeu], ...para que ela não chegue a manchar o santuário (refere-se à menarca, primeira menstruação), foi acertado seu casamento com José, que seria, antes, um guardião da Virgem consagrada ao Senhor, e não um marido no sentido carnal.

 

Nas palavras do sacerdote: A ti coube a sorte de receber sob tua custódia a Virgem do Senhor. Ao que parece, Maria não engravidou logo depois de ser colocada sob a tutela de José. No evangelho de Tomé, consta que ela Maria ficaria grávida de Jesus aos 16 anos, episódio da Anunciação que ela mesma conta no texto do Evangelho de Bartolomeu:

 

 

 

Estando eu no templo de Deus, aonde recebia alimento das mãos de um anjo, apareceu-me certo dia uma figura que me pareceu ser angélica. Mas seu semblante era indescritível, e não levava nas mãos nem o pão nem o cálice, como o anjo que anteriormente tinha vindo a mim. Eis que de repente, rasgou-se o véu do templo e sobreveio um grande terremoto [Aliás, em Israel, qualquer babado forte=evento dramático faz rasgar o véu do templo, meditemos na estilística...].

Joguei-me por terra, não podendo suportar o semblante do anjo, mas ele estendeu-me sua mão e levantou-me. Olhei para o céu e vi uma nuvem de orvalho que aspergiu-me da cabeça aos pés. Então ele enxugou-me com o seu manto e disse-me: salve, cheia de graça, cálice da eleita. Deu, então, um golpe com sua mão direita e apareceu um pão muito grande, que colocou sobre o altar do templo.

Comeu em primeiro lugar e em seguida deu-o a mim também. Deu outro golpe com a ourela esquerda de sua túnica e apareceu um cálice muito grande e cheio de vinho. Bebeu em primeiro lugar e em seguida deu-o a mim também. E meus olhos viram um cálice transbordante e um pão. Disse-me, então: ao cabo de três anos, eu te dirigirei novamente minha palavra e conceberás um filho pelo qual será salva toda a criação. Tu és o cálice do mundo. A paz esteja contigo, minha amada, e minha paz te acompanhará sempre. Após isto, desapareceu de minha presença, ficando o templo como estava anteriormente. EVANGELHO DE BARTOLOMEU

 

Sobre a Virgem Maria, os Apócrifos possuem, embutidas em suas crônicas, inúmeras referências á santidade da mãe de Jesus, santidade posta a prova e sempre confirmada, desde que os sacerdotes descobriram sua gestação até seu desaparecimento místico, quando subiu ao céu.

 

 

AS LENDAS

 

Logo depois do parto, uma certa Salomé insistiu em confirmar, com a própria mão, a virgindade da jovem mãe. Ao tocar em Maria a mulher foi imediatamente castigada:

XX
Havendo entrado a parteira, disse a Maria:
— Prepara-te, porque há entre nós uma grande querela em relação a ti.
Salomé, pois, introduziu seu dedo em sua natureza, mas, de repente, deu um grito, dizendo:
— Ai de mim! Minha maldade e minha incredulidade é que têm a culpa! Por descrer do Deus vivo, desprende-se de meu corpo minha mão carbonizada.
Dobrou os joelhos diante do Senhor, dizendo:
— Ó Deus de nossos pais! Lembra-te de mim, porque sou descendente de Abraão, Isaac e Jacó! Não faças de mim um exemplo para os filhos de Israel! Devolve-me curada, porém, aos pobres, pois que tu sabes, Senhor, que em teu nome exercia minhas curas, recebendo de ti meu salário!
Apareceu um anjo do céu, dizendo-lhe:
— Salomé, Salomé, Deus escutou-te. Aproxima tua mão do menino, toma-o e haverá para ti alegria e prazer.
Acercou-se Salomé e o tomou, dizendo:
— Adorar-te-ei, porque nasceste para ser o grande Rei de Israel.
De repente, sentiu-se curada e saiu em paz da gruta. Nisso ouviu uma voz que dizia:
— Salomé, Salomé, não contes as maravilhas que viste até estar o menino em Jerusalém.
EVANGELHO DE TOMÉ

 

Nos primeiros anos da infância de Jesus, muitas vezes, Maria, compadecida, tomou a iniciativa de aproximar o filho dos doentes a fim de que se curassem. Os milagres com as fraldas, a água do banho o pelo contato físico com o menino eram suficientes para curar s males dos leprosos, mudos, cegos, os moribundos, os possuídos por demônios. O povo, extasiado com as virtudes divinas de Jesus reverenciavam-no e reverenciavam também sua mãe, considerada igualmente santa, virtuosa, porque tinha dado ao mundo Aquele que era dotado do Espírito de Deus.

 

Os Evangelhos Apócrifos, além dos dados biográficos, ausentes nos canônicos, contêm relatos com sabor de lenda e profecia: durante a infância, durante as andanças da Sagrada Família, o menino Jesus teria encontrado alguns personagens que reapareceriam mais tarde durante sua saga messiânica. Ainda era quase um bebê quando se deparou com os dois ladrões que seriam crucificados à sua esquerda e à sua direita:

 

XXIII. OS SALTEADORES
Chegaram, em seguida, a um deserto. Como lhes haviam dito que era infestado de ladrões, prepararam-se para atravessá-lo durante a noite. Eis que, de repente, avistaram dois ladrões que dormiam e, perto deles, muitos outros ladrões, seus companheiros, que também estavam entregues ao sono. Esses dois ladrões chamavam-se Titus e Dumachus.
O primeiro disse ao outro:
— Eu te peço que deixes estes viajantes irem em paz, para que nossos companheiros não os vejam.
Tendo Dumachus recusado, Titus disse-lhe:
— Dou-te quarenta dracmas e fica com meu cinto como penhor.
Deu-lhe o cinto e, ao mesmo tempo, pediu que não desse alarme. Maria, vendo esse ladrão tão disposto a servi-los, disse-lhe:
— Que Deus te proteja com sua mão direita e que ele te conceda a remissão de teus pecados".
O Senhor Jesus disse a Maria:
— Daqui a trinta anos, ó minha mãe, os judeus me crucificarão em Jerusalém e estes dois ladrões serão postos na cruz ao meu lado: Titus à minha direita e Dumachus à minha esquerda. Neste dia, Titus me precederá no Paraíso.
EVANGELHO DE PEDRO

 

Ainda na infância, Jesus conheceu Judas Iscariotes, que lhe bateu no peito no lugar da ferida que seria aberta pelo soldado romano. Conheceu Simão e Bartolomeu, seus futuros discípulos. O pote de bálsamo onde foi guardado seu prepúcio, depois da circuncisão efetuado no oitavo dia após o nascimento, foi o mesmo pote de bálsamo que a pecadora usou pouco antes da Paixão.

V. A CIRCUNCISÃO
Quando chegou o tempo da circuncisão, isto é, o oitavo dia, época na qual o recém-nascido deve ser circuncidado segundo a lei, eles o circuncidaram na caverna e a velha anciã recolheu o prepúcio e colocou-o em um vaso de alabastro, cheio de óleo de nardo velho
(envelhecido). Como tivesse um filho que comercializava perfumes, Maria deu-lhe o vaso, dizendo: — Muito cuidado para não vender este vaso cheio de perfume de nardo, mesmo que te ofereçam trezentos dinares. E este é o vaso que Maria, a pecadora, comprou e derramou sobre a cabeça e sobre os pés de Nosso Senhor Jesus Cristo, enxugando-os com seus cabelos. EVANGELHO DE PEDRO

 

Tradições como estas, lúdicas, que muito se aproximam da cultura do tipo folclórico foram, certamente, censuradas pelos teólogos encarregados de estabelecer quais seriam os evangelhos canônicos, reconhecidos como inspirados pelo Espírito Santo.

 

[Essa prática de reconhecer em um texto a marca de identidade do Espírito Santo, é outro ponto dogmático do cristianismo católico que se assemelha às práticas investigas espíritas, que reconhecem a autenticidade de uma comunicação com base na avaliação arbitrária do conteúdo de uma mensagem, determinando se tal mensagem "parece" ser algo essencialmente cristão, benigno, piedoso  ̶  no sentido de ser uma "coisa de Deus" ou não; porque no sentido teológico, apalavra "piedade'" não se refere, exclusivamente  ̶  ao sentimento de "pena", compaixão por alguém ou sofre pelo infortúnio do semelhante, identificar-se com esse infortúnio. Teologicamente, piedade refere-se tudo o quê é "pio" ou, que é considerado como sendo "de Deus", em oposição ao quê é "ímpio" ou, indiferente às leis de Deus].

 

 

O objetivo da censura foi, muito possivelmente, banir do corpo da doutrina e da tradição oficiais, os excessos de prodígios, de fatos sobrenaturais que poderiam tornar Jesus uma figura algo semelhante a um mago; e a magia com todo o seu cortejo de mistérios era um tipo de pensamento religioso que a Igreja nascente combatia intensamente como máxima expressão do paganismo.

 

Banindo os Evangelhos Apócrifos das leituras legitimamente cristãs, a Igreja buscou:

 

1. ocultar a humanidade chocante do menino Jesus, muitas vezes arrogante e impulsivo;

 

2. minimizar a importância dos aspectos lendários, folclóricos, tidos como fruto da imaginação popular;

 

3. evitar uma doutrina metafísica complexa para os leigos, repleta de alegorias que remetem à linguagem cifrada do Antigo Testamento que obrigaria a Igreja a desenvolver temas perigosos, escorregadios, como a vida após a morte e a origem do mal.

 

 

DOUTRINAS COMPLEXAS

 

A questão das doutrinas mais complexas é bem desenvolvida nos livros Pistis Sophia e no Evangelho de Bartolomeu, que conservam ensinamentos ministrados por Jesus depois da Ressurreição, no período que passou entre os Apóstolos antes da Ascensão. Em Bartolomeu, Jesus fala de sua Unidade com o Pai, o que fortalece o dogma da Santíssima Trindade, concepção de Deus como Unidade constituída de Três Pessoas em Uma só:

 

 Em verdade te digo eu, meu amado, que, quando me encontrava entre vós
ensinando-vos a palavra, estava simultaneamente sentado junto de meu Pai
.
[
EVANGELHO DE BARTOLOMEU]

 

Aborda temas curiosos, intrigantes: o número de almas que nascem e morrem no mundo todos os dias; onde esteve e o que fez Jesus, não depois que foi fechado o sepulcro, mas antes, na cruz, de onde, se diz, ele sumiu em dado momento de sua agonia; a visão de Adão como um gigante...

 

Bartolomeu continuou:
— Quantas almas saem diariamente deste mundo?
Disse-lhe Jesus:
— Trinta mil. ... — Quantas almas nascem diariamente no mundo?
Responde-lhe Jesus:
— Uma só a mais do que as que saem do mundo.
 

 

MISTÉRIO DA CRUZ


Dize-me, Senhor, onde foste depois da cruz.
Jesus, então, respondeu desta forma:
— Feliz de ti, Bartolomeu, meu amado, porque te foi dado contemplar este mistério...
Quando desapareci da cruz, desci aos Infernos para dali tirar Adão e a todos que com ele se encontravam, cedendo às suplicas do arcanjo Gabriel.
Então disse Bartolomeu:
— E o que significa aquela voz que se ouviu?

Responde-lhe Jesus:
— Era a voz do Tártaro... Eu o flagelei [ao Inferno] e o atei com correntes que não se rompem. Depois fiz sair a todos os Patriarcas e voltei novamente para a cruz. ...
 

 

ADÃO GIGANTE


— Dize-me, Senhor — disse-lhe Bartolomeu. — Quem era aquele homem de talhe gigantesco a quem os anjos levavam em suas mãos?
Jesus respondeu:
— Aquele era Adão, o primeiro homem que foi criado, a quem fiz descer do céu à terra. E eu lhe disse: por ti e por teus descendentes fui pregado na cruz. Ele, ao ouvir isso, deu um suspiro e disse: assim, rendo-me a ti, Senhor.

 

 

PISTIS SOPHIA — FÉ & CONHECIMENTO

 

 

Pistis Sophia é um livro cristão, sem dúvida. Porém, sua doutrina hermética, muitíssimo complexa, apresentada através de um mito e figuras alegóricas muito elaboradas, fazem da obra muito mais como um tratado esotérico do que um Evangelho.

 

Pistis Sophia não fala da vida de Jesus nem da doutrina popular, que foi ensinada em meio ao povo. Seu longo texto ocupa-se do conhecimento revelado aos Apóstolos depois da ressurreição, num período de tempo cuja duração gera controvérsias entre tradutores e exegetas [intérpretes]. Embora o texto diga que Jesus passou 11 anos entre os Apóstolos, muitos estudiosos contestam, acham que há um engano de tradução e entendem que aquele período como 11 meses.

 

O manuscrito em copto, dialeto sahídico do Alto Egito, pertence aos primeiros séculos da Era Cristã, possivelmente entre os séculos IV e V d.C.. São 178 folhas de pergaminho 21x16,5 cm,  agregadas em cadernos, divididas em seis livros, exibindo caligrafias claramente diferentes de dois escribas. Oito páginas foram perdidas mas, no geral, o documento foi encontrado em  excelente estado de conservação. O original que deu origem à versão copta era grego, como mostraram análises técnicas.

 

Não se sabe onde ou quem encontrou o documento. Ele apareceu, pela primeira vez, na Inglaterra, onde foi adquirido pelo médico e colecionador de manuscritos antigos, A. Askew, isso, possivelmente, em 1772. Ficou, então, conhecido como Códice Askew. Com a morte de Askew, o manuscrito foi vendido ao museu britânico.

 

O nome Pistis Sophia, sugerido pelo estudioso C.G. Woide, que examinou o Códice a pedido de Askew, foi retirado do capítulo intitulado O Segundo Livro de Pistis Sophia, sendo que Pistis Sophia é o nome da personagem alegórica que está no centro da narração do livro. Depois de Woide, Pstis Sophia foi estudada e traduzida por numerosos especialistas. Em meados do século XIX, apareceu a primeira tradução do texto completo ara o latim, de M.G. Schwartze, publicada em 1851.

 

Em 1895, o egiptologista e erudito em copta E. Amélineau, publicou a primeira tradução em língua viva ocidental, o francês. Em 1896, G.R.S. Mead traduziu para o inglês e publicou sua versão baseado no texto em latim. Em 1905, o alemão C. Schmidt, traduziu a partir do original copto, trabalho considerado uma obra prima.

 

Pistis Sophia é, possivelmente, o livro mais espantoso do cristianismo. Sua leitura é difícil lembrando os tratados cosmogônicos hindus. Não é um livro que possa ser classificado como religioso e muito menos popular. Seu assunto principal, a essência e evolução do Ser Humano, a saga da alma —a Pistis Sophia, é apresentada numa linguagem mitológica, sim, alegórica, de fato, porém, muito próxima, também, da linguagem da filosofia e da metafísica. Nas palavras de Raul Branco [1997], que traduziu o livro para o português:

 

Pistis, em grego, significa fé, mas não fé cega e sim a fé, ou total convicção, advinda do conhecimento direto (revelação interior). Sophia, por outro lado, significa sabedoria. Portanto, é possível que o nome composto Pistis Sophia, utilizado para representar o arquétipo da alma enviada em peregrinação aos mundos inferiores, esteja indicando o princípio fundamental [a fé na Luz do Alto] que capacita a alma a realizar sua missão e o fim último desta missão, a obtenção da sabedoria dos dois mundos [material e espiritual]. ...

 

O grande segredo das apresentações cosmogônicas é que descrevem simultaneamente o macro e o microcosmo. Este último aspecto é a história oculta do homem como arquétipo e deságua no grande oceano da peregrinação da alma, que deve mergulhar na matéria, onde fica prisioneira por incontáveis eons, ou eras, até ser resgatada pelo Salvador. O mito de Sophia representa a última etapa da cosmogonia, ou seja a da redenção de Pistis Sophia, que é ao mesmo tempo uma entidade macrocósmica e o símbolo da alma humana. A estória de Sophia, portanto, traça, em linguagem velada, as etapas da queda e da salvação da alma...

* livro virtual, disponível online, free download

 

Para a Igreja católica Pistis Sophia é um livro que não tem utilidade no processo de catequese e ainda cria dificuldades doutrinárias embaraçosas, como a explícita afirmação da reencarnação, como faz Jesus em uma de suas revelações finais aos discípulos, antes da Ascensão: DA ENCARNAÇÃO DE JOÃO, O BATISTA:

 

Quando entrei no meio dos regentes dos eons, olhei para baixo, para o mundo da humanidade, por ordem do Primeiro Mistério [O Criador, Deus]. Descobri Isabel , a mãe de João, o Batista, antes dela tê-lo concebido, e semeei nela um poder que eu havia recebido do pequeno Iaô, o Bom, que está no Meio, para que ele pudesse fazer proclamações antes de mim, preparar o meu caminho e batizar com a água do perdão dos pecados. Este poder está, então, no corpo de João.

 

Para os discípulos de Alan Kardec, Pistis Sophia é uma verdadeira revelação que confirma a doutrina Espírita com o testemunho do próprio Cristo. Além da reencarnação de João Batista [inequivocamente identificado como sendo o mesmo Espírito que animou o profeta Elias] − Jesus fornece detalhes das encarnações e Espíritos encarnados dos Apóstolos e descreve seu próprio processo de encarnação através de Maria.

 

E Jesus continuou mais uma vez sua preleção e disse: "Aconteceu então, a seguir, que, de ordem do Primeiro Mistério, olhei para baixo para o mundo da humanidade e encontrei Maria, que é chamada 'minha mãe' de acordo com o corpo material. Falei com ela na forma de Gabriel e quando ela se volveu para o alto na minha direção, coloquei nela, naquele momento, o primeiro poder que eu havia recebido de Barbelô — isto é, o corpo que eu havia usado no alto. E, em vez da alma, coloquei nela o poder que eu havia recebido do grande Sabaoth, o Bom , que está na região da Direita.

 

 

Apócrifo, palavra que significa segredo, é uma designação muito apropriada para estes livros cujo conteúdo os padres da Igreja, regentes da espiritualidade religiosa do mundo ocidental por dezenas de séculos, acharam por bem manter oculto, à salvo do domínio público.

 

Havia e há o temor de que o público, dotado de imaginação facilmente excitável, acabasse se dispersando em incontáveis seitas que poderiam surgir [e surgiram mesmo apesar do segredo] inspiradas nestes textos repletos de magia, misticismo e idéias transcendentais. Sem dúvida, uma ameaça à unidade e força do cristianismo católico.

 

Contudo, os Apócrifos, como realidade que são, fatos dados, são cada vez menos ocultos. Ao contrário, o braço do modismo editorial da indústria cultural há muito vem bebendo na fonte dos Apócrifos, seja reeditando os Evangelhos, seja em lançamentos de pesquisa e ficção que giram em torno de temas extraídos daqueles Evangelhos.

 

Na literatura brasileira existe uma singela obra juvenil onde é evidente a influência dos Apócrifos que falam da infância do mestre: Proezas do Menino Jesus, de Luís Jardim [Ed. José Olímpio, 2003]. O Evangelho de Judas, o interesse por Maria Madalena e pelas Sociedades Secretas nascidas das dissidências do cristianismo primitivo, são destaque nas vitrines das livrarias e, não raro, vão parar no cinema e nos estojos de DVD. Meditemos...

 

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The Kolbrin: A Bíblia de Bronze da Bretanha

As Relíquias de João Batista

 

 

 


 




      


edições: Sofä da Sala
agosto, 2012
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